Instituto BM&FBOVESPA e BrazilFoundation anunciam joint venture social

Uma parceria inédita movimentou o campo social no início de fevereiro no Brasil. O Instituto BM&FBOVESPA e a BrazilFoundation anunciaram uma joint venture social para a mobilização de doadores a projetos de Organizações da Sociedade Civil (OSCs) brasileiras.

A ideia integra experiências e especialidades das duas organizações na seleção, capacitação e monitoramento de projetos. Para investidores, surge mais uma alternativa para a destinação de recursos. Com operação similar aos conceitos de uma bolsa de valores, essa vitrine de projetos já está no ar com 20 iniciativas listadas.

Nesse sentido todos ganham. Sonia Favaretto, superintende do Instituto BM&FBOVESPA e diretora de Imprensa e Sustentabilidade da BM&FBOVESPA, explica que a parceria buscou a complementariedade de ações. “É uma relação de ganha-ganha que reforça nossas missões individuais, ao mesmo tempo em que contribui para o fortalecimento de organizações que estão ajudando a transformar o Brasil.

Cada projeto selecionado terá um aporte inicial de cerca de R$ 40 mil da BrazilFoundation e poderá captar até R$ 50 mil na Bolsa de Valores Socioambientais (BVSA). Os projetos ficarão listados por até um ano. Dentre as iniciativas listadas, existem organizações de todas as regiões do Brasil e com diferentes naturezas e áreas de atuação.

Nosso lema de trabalho é ‘ideias que transformam o Brasil’. Selecionamos organizações e lideranças sociais, os capacitamos em processos de gestão e agora estamos convidando outros investidores a apoiarem essas instituições. Buscamos, no fim, a sustentabilidade desses agentes e o fortalecimento da cultura da filantropia para a transformação social”, explica Monica de Roure, vice-presidente da BrazilFoundation.

Para os investidores, a experiência é segura e transparente durante todo o processo. Além disso, Celso Grecco, sócio da Atitude Grecco Consultoria e consultor do Instituto BM&FBOVESPA, explica que a doação é individualmente compensadora. “O usuário vai atuar como um investidor, podendo comprar ações de um projeto e monitorar os resultados do seu investimento. O retorno vem no formato do que chamamos de “lucro social”. Ou seja, o doador está ajudando a fortalecer a sociedade civil brasileira.”

Para entender as motivações que levaram a criação dessa iniciativa e ver como funciona a plataforma, o redeGIFE convidou Sonia Favaretto, Monica de Roure e Celso Grecco para um bate-papo. Confira como foi essa conversa:

redeGIFE – No último dia 2 de fevereiro, o Instituto BM&FBOVESPA e a BrazilFoundation apresentaram uma boa notícia para o campo social no Brasil. Que iniciativa é essa e como surgiu a ideia de disponibilizar projetos para investimento na Bolsa de Valores Socioambientais?

Sonia – A Bolsa de Valores Socioambientais nasce em 2013 e se transforma em um modelo para diversas outras iniciativas no mundo. Com esse projeto que apresentamos agora, continuamos procurando promover ações filantrópicas de transformação.

Monica – A ideia surgiu concretamente em 2014, quando queríamos mirar novos desafios do setor social e refletir como poderíamos contribuir efetivamente nesse cenário. Buscamos unir nossa vocação de investir em iniciativas transformadoras mas, sobretudo, tirando proveito de um legado que temos, que é o relacionamento com investidores individuais.

redeGIFE – Ou seja, estamos falando em promover mais uma modalidade que incentive a cultura da doação no Brasil?

Monica – Exato. Estamos buscando promover uma cultura de investimento em filantropia para a transformação social.

Sonia – Percebemos que ainda existe no terceiro setor, de forma geral, um certo preconceito com as doações financeiras a organizações sociais. Parece uma ideia de que é algo menor, que é só um repasse de dinheiro. Nos incomodamos muito com isso porque conseguimos ver a diferença que esse investimento promove. No caso da plataforma, existe toda uma estrutura de prestação de contas, de relatórios. É possível ver claramente o resultado desse trabalho.

redeGIFE – E assim surge a parceria entre o Instituto BM&FBOVESPA e a BrazilFoundation…

Sonia – Olhando para o campo social, buscamos um parceiro que compartilhasse dos mesmos valores que a gente. Foram muitas conversas até chegarmos a esse projeto que estamos lançando agora. Queríamos um parceiro para fazer junto, sem a vaidade do ‘esse é meu projeto e o mérito é só meu’.

Monica – Isso é importante. Vale lembrar que as duas organizações continuam com suas atividades, com suas operações. Mas, conseguimos identificar na nossa atuação ações comuns que, somados nossos talentos, competências e poder de mobilização, podemos conseguir algo com maior impacto social.

redeGIFE – Aproveitando que tocamos nesse assunto, gostaria que vocês explicassem o conceito de joint venture social?

Celso Grecco – Se formos olhar para o mundo dos negócios, uma joint venture é quando duas entidades se juntam em um projeto único. Elas mantém suas identidades e operações, mas atuam em parceria em uma terceira via. A inspiração vem daí.

redeGIFE – A ideia central é facilitar a mobilização de doadores a projetos de Organizações da Sociedade Civil (OSCs). Existe iniciativa similar no mundo?

Celso Grecco – Até onde nós enxergamos, estamos falando de um modelo inédito. É claro que não podemos afirmar que é algo totalmente inovador no mundo porque temos que tomar o cuidado de avaliar até onde somos capazes de enxergar. Mas, acredito que a grande contribuição dessa parceria é mostrar que é possível fazer juntos. Em diversos fóruns percebemos essa discussão: por que as organizações não se juntam? Por que não unir esforços? Observamos que há uma concordância, não há como ser contra, institucionalmente ou filosoficamente, a juntar forças. Mas, na prática, não vemos muito isso acontecer.

redeGIFE – E como está sendo trabalhar juntas? Quais os desafios de uma gestão que acontece em ‘co-operação’?

Sonia – Nosso foco é no objetivo final e, cada uma entra com suas expertises durante o processo. Aprendemos a abrir mão de vaidades que não fazem diferença na prática. É uma comunhão que alavanca para os dois lados. É um ganha-ganha.

Monica – Vale citar, ainda, que temos um plano de médio e longo prazo de poder trabalhar juntos para envolver indivíduos e organizações internacionais a investir na sociedade civil brasileira. Nesse sentido, vamos trabalhar em conjunto unindo nossas redes de relacionamento internacionais.

redeGIFE – Monica, e qual o papel da BrazilFoundation nessa parceria daqui pra frente?

Monica – Nosso papel no desenho dessa ‘co-operação’, primeiramente, se voltou para o mapeamento de organizações. Nesse sentido, estamos falando de definição de critérios, seleção e capacitação das entidades. Além disso, a BrazilFoundation entra com um recurso inicial de 40 mil reais para cada organização selecionada. Ou seja, antes dos projetos aparecerem na plataforma, eles já terão contado com esse investimento. Dessa forma, os investidores podem saber que as organizações listadas já foram capacitadas e estão sendo monitoradas. Outro importante valor que oferecemos à parceria é nossa capacidade de mobilização para a doação. Isso também é um potencial do Instituto BM&FBOVESPA. Agora, juntos, seremos ainda mais fortes.

redeGIFE – E no caso do Instituto BM&FBOVESPA?

Sonia – Nossa contribuição vai muito no sentido do que qualquer bolsa oferece às organizações listadas em sua carteira: visibilidade e uma plataforma estruturada que viabiliza um ambiente de investimentos.

Celso – Além disso da visibilidade, citaria questões como transparência e governança, que só uma bolsa de valores pode oferecer. De certa forma, é como se a BOVESPA estivesse falando ‘veja aqui essa carteira de projetos transformadores. Pode investir sem medo porque eu estou de olho nesse trabalho. Eles estão dentro da minha casa’.

redeGIFE – E como fazer para se tornar um “investidor socioambiental”?

Sonia – O processo é simples, e isso sempre foi uma premissa dessa parceria. Para participar, basta entrar no site da BVSA (www.bvsa.org.br) e montar sua própria carteira de doações. Veja que estamos sempre usando as próprias terminologias da bolsa, fazemos sempre essa correlação. No portal você pode verificar os critérios para selecionar seus projetos. Pode ser por região, ou por objetivo do milênio, por exemplo. Nesse espaço você encontrará toda a descrição da iniciativa e poderá acompanhar a captação de recursos. O pagamento pode ser feito por meio de cartão de crédito ou boleto bancário. É um sistema muito amigável ao usuário. Vale lembrar também que pessoa jurídica tem benefício fiscal. Ou seja, os valores doados são dedutíveis, como despesa operacional, até o limite de 2% do lucro operacional da empresa (limitada às pessoas jurídicas tributadas pelo regime de lucro real).

redeGIFE – E no caso das organizações sociais, como concorrer para se tornar um dos projetos listados?

Monica – Os projetos são selecionados por meio de edital. Atualmente temos 20 projetos listados. A nova seleção deve acontecer em novembro de 2015. Em breve divulgaremos toda a agenda dessa chamada pública.

redeGIFE – Para finalizar, gostaria que vocês comentassem como tem sido essa experiência até agora.

Sonia – Gostaria apenas de agradecer a todos os parceiros que ajudaram a tornar isso possível. Foram muitas conversas com a BrazilFoundation, com a Atitude, até com o próprio GIFE para viabilizar essa parceria. Agora que o trabalho está formatado, posso dizer que está sendo muito prazeroso esse fazer juntos. Foi uma longa jornada e esperamos chegar no nosso objetivo.

Celso – Assino embaixo.

Monica – Tem sido muito gratificante. Todas as equipes tem atuado em uma complementariedade muito interessante. Essa trajetória já é uma grande conquista.

Conheça os projetos já listados na BVSA :

§ Associação Incubadora Social Gastromotiva – Salvador (BA), São Paulo (SP) e Rio de Janeiro (RJ)

§ Instituto Luther King de Ensino – Campo Grande (MS)

§ Instituto Coração de Estudante – Pentecoste (CE)

§ Associação de Estudantes de Paramoti – Paramoti (CE)

§ Associação Cultural Quabales – Salvador (BA)

§ Fundação Lar Feliz – Juazeiro (BA)

§ MMNEPA – Movimento de Mulheres do Nordeste Paraense – Capanema (PA)

§ ADETT – Associação de Desenvolvimento Tecnológico de Tauá – Tauá (CE)

§ Associação Comunitária dos Moradores de Mandassaia II – Riachão do Jacuípe (BA)

§ ADEL – Agência de Desenvolvimento Econômico Local – Pentecoste (CE)

§ Lovefútbol Brasil – Recife (PE)

§ Themis – Assessoria Jurídica e Estudos de Gênero – Porto Alegre (RS)

§ Casa da Criança e do Adolescente Brincalhona – Volta Redonda (RJ)

§ Instituto Cidade Democrática – São Paulo (SP)

§ Instituto de Fiscalização e Controle – Brasília (DF)

§ AMINA – Associação de Mulheres Independentes na Ativa – Anastácio (MS)

§ Associação Barraca da Amizade – Fortaleza (CE)

§ Coopa-Roca – Cooperativa de Trabalho Artesanal e de Costura da RocinhaRio de Janeiro (RJ)

§ ONG SOS Dental – Rio de Janeiro (RJ)

§ Acreditar – Capital Humano e Transformação Social – Glória de Goitá (PE)

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