Instituto Desiderata lança pesquisa sobre práticas de mídia-educação no Rio de Janeiro

Ampliar a participação dos estudantes em questões centrais da escola, dar voz e vez para se expressarem, garantir um aprendizado de fato significativo e em acordo com sua realidade, despontam como ações fundamentais para reverter um cenário não muito animador vivenciado pelo segmento do Ensino Fundamental (6º ao 9º ano) no Brasil: altos índices de evasão escolar, baixo rendimento dos estudantes e uma escola que dialoga pouco com os anseios dos adolescentes.

É neste espaço, de busca de mais diálogo e uma gestão democrática, que as práticas de mídia-educação se fazem presentes e, na avaliação do Instituto Desiderata, se tornam essenciais de serem incorporadas quando se pensa na educação para adolescentes. Por isso, a organização investe, desde o início, em iniciativas que visam fortalecer essas vivências no ambiente escolar, seja em ações diretas com os estudantes ou na formação de professores.

Assim, para trazer mais subsídios para as políticas públicas locais neste campo, o Instituto apoiou a realização de uma pesquisa inédita realizada com 924 escolas de Ensino Fundamental da Rede Pública Municipal do Rio de Janeiro (91% da Rede), que buscou analisar os projetos e as práticas mídia-educativas desenvolvidas nessas escolas, definidas como atividades pedagógicas que envolvem conhecimento das linguagens dos meios de comunicação, com apropriação ou produção de conteúdos e materiais.

A primeira etapa da pesquisa – que teve um caráter quantitativo – acaba de ser divulgada. A ação foi promovida em conjunto com o Grupo de Pesquisa Educação e Mídia (GRUPEM), da PUC-Rio, em parceria também com a Gerência de Mídia-Educação da Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro (SME-RJ).

Principais descobertas

Em relação à infraestrutura, a pesquisa apontou que praticamente todas as escolas contam com equipamentos: datashows (99,2%), impressoras (98,6%), computadores (98,2%), TVs (97,6%) e DVDs (96%). Porém, de acordo com o estudo, apesar dos equipamentos estarem presentes, não significa que as escolas estejam bem equipadas: apenas 36,9% delas possuem mais de 10 computadores, enquanto 12% têm mais de 10 laptops. Ou seja, na relação estudante x equipamento, verifica-se um percentual baixo, considerando que cada escola de tamanho médio tem, no mínimo, 301 estudantes.

Segundo Joana Milliet, gerente da área de Educação do Instituto Desiderata, uma sugestão apresentada pelo estudo para superar esse desafio, é a incorporação dos equipamentos móveis (smartphones e celulares) dos professores e dos estudantes às práticas pedagógicas, com a condição de que estejam conectados a uma rede intranet e internet de boa qualidade. Mas, este também é um desafio a ser superado, pois 73% das escolas admitem que a conexão é ruim ou péssima.

Já os dados sobre as práticas regulares de análises de conteúdos midiáticos (filmes, programas de televisão e de rádio, textos jornalísticos, etc.) apontam que cerca de 80% das escolas realizam regularmente análises de filmes/vídeos (1ª posição – 90,6%), de fotografias/imagens (2ª posição – 81,1%) e de matérias jornalísticas (3ª posição – 80,8). A gerente do Instituto Desiderata ressalta que esses resultados refletem os programas e projetos com este enfoque que já são incentivados pela prefeitura para que as escolas desenvolvam.

“Porém, o estudo verificou que, neste ítem, são realizadas poucas atividades de análise de publicidade, algo importante para que os alunos possam olhar de forma crítica para tal. O rádio também apareceu de forma menos presente, no entanto, seria relevante trabalharmos com essa mídia, que tem muita audiência no Brasil”, comenta Joana.

A pesquisa revelou também que as práticas de produção mídia, nais quais os estudantes têm a oportunidade de fato de serem autores, são ainda incipientes. Apenas 20% das escolas têm frequentemente atividades neste sentido: 64% nunca realizam atividades de produção de vídeo, fotografia, programa de TV, programa de rádio, publicidade e 54% nunca realizam atividades de produção na internet (páginas em redes sociais, blogs ou sites).

De acordo com a gerente do Instituto Desiderata, uma hipótese para este cenário, é que talvez os professores não se sintam seguros para implementar tais práticas, uma vez que a maioria não teve a possibilidade de experimentá-las em sua formação inicial e continuada.

Joana ressalta que os resultados da pesquisa foram disseminados junto à Secretaria Municipal de Educação e também para as escolas e a intenção é que possam incentivar novas políticas públicas que incorporem as diferentes linguagens das mídias na prática escolar, considerando recursos financeiros, formação de professores e mudanças no tempo e no espaço escolar.

Próximos passos

O estudo entra agora numa nova etapa. As escolas que foram identificadas com iniciativas mais avançadas na área estão sendo visitadas pelos pesquisadores, que irão verificar de que forma as práticas de mídia-educação têm tido impacto na aprendizagem dos estudantes. “Existe uma hipótese de que há uma relação muito próxima entre a motivação e estímulo do aluno em aprender com as iniciativas de comunicação. Queremos verificar de que forma isso acontece”, comenta Joana.

A expectativa é que esta nova fase do estudo seja lançada ainda este ano.