Investidores sociais discutem sobre tendências do voluntariado corporativo

Cerca de 40 representantes de institutos, fundações e empresas se reuniram, no dia 30 de setembro, em Porto Alegre (RS), para participar do encontro promovido pelo GIFE e pela United Way Brasil sobre “Tendências do Voluntariado Corporativo”.

John Lechleiter, presidente e CEO da companhia Eli Lilly e presidente do Conselho da United Way Worldwide, que é um entusiasta do engajamento voluntário, abriu o encontro enfatizando a importância da liderança em se envolver em programas com esse fim e o impacto que isso tem no engajamento dos funcionários.

Ele destacou o seu papel enquanto presidente de uma corporação em incentivar as ações sociais dos funcionários e contou como tem dedicado parte do seu tempo para atividades voluntárias.

Em seguida, Silvia Zanoti, diretora da UW Brasil, apresentou a pesquisa global “Corporate Volunteer” (Voluntariado Corporativo), da United Way, realizada em parceria com a London Business School e a Universidade da Georgia, trouxe avaliações de entrevistas promovidas com 237 funcionários (participantes ou não de ações de voluntariado) de 52 empresas em cinco países: Austrália, Brasil, Canadá, Índia e Estados Unidos.

O levantamento contou com a participação das empresas parceiras da organização e buscou responder a três questões: o que motiva o funcionário a ser um voluntário, quais são as características desse voluntário e como são avaliados os benefícios da atividade.

Segundo o estudo, as atividades voluntárias são, em sua maioria, realizadas dentro do horário de trabalho dos funcionários, que dedicam em média uma hora e meia de trabalho semanal a essas ações, o que significa de quatro a cinco horas mensais.

Sobre o porquê participavam do programa de voluntariado, metade dos entrevistados apontou o fato de terem sido convidados e, a outra parte, estava em busca de uma oportunidade. “É um dado interessante, pois mostra que vale a pena as empresas divulgarem bastante seus programas, pois quando abre essa porta existe naturalmente uma predisposição das pessoas em se engajar”, destacou Silvia.

Com relação à motivação, o levantamento constatou que 36% dos entrevistados praticam o voluntariado com o objetivo central de ajudar o próximo; 31% porque acreditam na causa que ajudam; e 12% realizam voluntariado para socializarem-se com os colegas de trabalho e ter contato com as pessoas. A pesquisa indicou também que o desenvolvimento de novas habilidades é um fator que impulsiona o funcionário a querer desenvolver a prática (10% dos entrevistados).

Já sobre as motivações das empresas em desenvolverem seus programas de voluntariado corporativo, o estudo apontou que a grande maioria realiza para: desenvolver uma relação com o entorno; oportunidade de relacionamento entre os funcionarios; possibilidade de fazer uma conexão dos valores da empresa numa experiência concreta; mostrar os valores da empresa para a comunidade de uma maneira diferente; e impactar a base da pirâmide.

Sobre as características destas iniciativas, a maioria é um programa formal, com definições da alta liderança e sem um foco temático estabelecido.

Segundo Silvia Zanotti, há uma preocupação por parte das empresas em querer que 100% dos funcionários  participem dos programas, mas é preciso aceitar de que não será assim. “Um aprendizado da pesquisa é justamente o fato de que precisamos aceitar de que existe um grupo que não tem esse perfil e que não participa, o que é normal”.

A respeito da percepção sobre as iniciativas, 82,7% têm a visão de que o voluntariado é positivo para a empresa, enquanto apenas 5,2% consideram um fator negativo. No entanto, apenas somente 12% têm uma percepção mais tangível sobre o apoio da empresa ao programa, ou seja, sabe, por exemplo, se o o sistema de remuneração da empresa valoriza o voluntariado ou se os voluntários são reconhecidos publicamente. “Ou seja, é preciso deixar essas questões mais claras internamente e divulgar”, comentou Silvia.

O levantamento também pôde comprovar a percepção de que a realização de trabalhos voluntários traz benefícios tanto para quem recebe quanto para quem pratica, e que acaba refletindo positivamente na própria empresa que estimula e promove essa ação.

Entre os voluntários entrevistados, por exemplo, 6% disseram que a satisfação com o trabalho aumentou, 5% estão mais comprometidos com a empresa e 68% daqueles que já se voluntariaram manifestaram a intenção de fazer isso novamente no próximo ano.

Segundo a pesquisa da United Way, a avaliação das ações de voluntariado ainda é um desafio para as companhias. Apenas 14,6% das empresas pesquisadas avaliaram o que o voluntariado muda na vida do funcionário; 7,3% desenvolviam relatórios em parcerias com a comunidade; e 2,4% compilavam métricas internas de sucesso do programa.

Voluntariado no Brasil

No encontro, Beatriz Gerdau Johannpeter, vice presidente do Instituto Gerdau e presidente do Conselho de Governança do GIFE, apresentou um panorama do voluntariado corporativo no Brasil a partir de diversas pesquisas recentes nesta área.

Beatriz destacou que trata-se de um movimento recente, que surgiu nas duas últimas décadas, mas em claro processo de aperfeiçoamento e estruturação: 75% das empresas que ainda não têm programa de voluntariado pretendem criar em breve. O que predomina ainda é o voluntariado de um dia e apenas 10% são conduzidos pelas equipes de RH – e com foco em educação, ou seja, pensando no desenvolvimento de habilidades. Além disso, grande parte (60%) dos programas ocorrem dentro das horas de trabalho e a maioria (95%) por meio de atividades propostas pelas próprias empresas.

Segundo dados do Censo GIFE de 2014, 85% das empresas associados afirmaram possuir pelo menos um programa de voluntariado formal. Ao todo, 57% das organizações possuíam ao menos um programa de voluntariado. Dentro destes voluntariados 80% dos voluntários que participavam desses programas eram colaboradores das empresas ou da mantenedora, no caso de institutos e fundações, sendo apenas 20% externos. Na RedeGIFE, havia 140 mil voluntários declarados.

A conselheira do GIFE apontou ainda algumas tendências nesse campo, como o fato do voluntariado ser percebido como recurso estratégico para alcançar objetivos de negócio, assim como o estabelecimento de parcerias com ONGs e voluntariado internacional. Outra tendência em expansão é o voluntariado digital. “Em cidades como São Paulo, por exemplo, em que existe uma dificuldade em se fazer trabalho voluntário por conta do tempo de deslocamento e falta de segurança em alguns locais, esse possibilidade de atuação tem crescido bastante”, destacou Beatriz.

Há ainda uma tendência em voluntariado baseado em habilidades, que é mais comum em países como os EUA, mas que pode ser expandido no Brasil. “A proposta é que cada empresa possa enxergar as suas possibilidades e atuar. Temos um campo muito bom nesse sentido”, ponderou.

Experiência prática

Beatriz apresentou também durante o encontro a experiência do Programa Voluntário Gerdau, que tem como proposta sensibilizar, capacitar e reconhecer o trabalho dos funcionários voluntários, assim como transferir conhecimentos para a comunidade e ser um espaço para o exercício de cidadania dos participantes.

“Por meio do voluntariado, as pessoas têm a oportunidade de se realizar pessoalmente, de fortalecer a nossa cultura, assim como estabelecer um relacionamento e integração com a comunidade, além de ajudar no desenvolvimento das competências e de atitudes, como iniciativa, mudança comportamental, comprometimento, e também habilidades, como liderança, trabalho em equipe, oratória, criatividade, resiliência, entre outras”, comentou.

Uma das iniciativas do programa é a realização da Copa ou Olimpíada Voluntário Gerdau, com temáticas específicas a cada edição. A atividade é promovida desde 2006 e a proposta é que os voluntários formem equipes e, ao longo de dois meses, desenvolvam algumas tarefas nas comunidades. Entre os temas já trabalhados estão consumo consciente, sustentabilidade, segurança e gestão. “Trazemos para os grupos assuntos que são importantes para a empresa como forma de fortalecer o engajamento e levar as temáticas também para a comunidade. Temos mais de 3 mil voluntários engajados”.