Investidores sociais privados atuam no apoio à inclusão produtiva frente à pandemia

Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad Contínua), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), apontam que o desemprego no Brasil saltou de 11,2% no trimestre até janeiro para 12,6% em abril.

Segundo projeção do Itaú Unibanco, esse dado, no entanto, não corresponde à realidade. Em entrevista ao UOL, a instituição financeira afirmou que as medidas de distanciamento social impostas na tentativa de conter o avanço da doença no país têm reduzido o nível de procura por trabalho.

Para que alguém seja considerado desempregado, precisa estar procurando colocação ou estar disponível para trabalhar. Não entram na conta as pessoas que perderam emprego mas deixaram de procurar uma recolocação.

Nesse sentido, o dado pode estar subdimensionado. Segundo a análise, o desemprego estaria em 16%, caso o volume de pessoas procurando trabalho tivesse se mantido no mesmo nível de antes da chegada da pandemia ao Brasil. No primeiro trimestre de 2020, o número de brasileiros desempregados chegava a 12,85 milhões.

“A inclusão produtiva é uma das grandes necessidades do nosso tempo. Apesar dos avanços observados nas políticas públicas de redução da pobreza nas últimas décadas, ainda é um grande desafio combinar o enfrentamento da pobreza com oportunidades de trabalho que promovam as condições para uma vida digna, produtiva e autônoma. Ao mesmo tempo, o mundo do trabalho está se reconfigurando em meio a uma transição tecnológica, demográfica, urbana e socioambiental, colocando em dúvida as soluções que historicamente foram dadas para o desemprego. A pandemia acelerou e agravou essas questões”, observa Natália Leme, responsável pelas áreas de parceria estratégica e programas na Fundação Arymax.

Levando em conta esse cenário, o tema da inclusão produtiva é um dos eixos prioritários da Emergência Covid-19 – Coordenação de ações da filantropia e do investimento social em resposta à crise. Uma iniciativa do GIFE junto a associados e parceiros, a ação tem como objetivo facilitar e coordenar a atuação da filantropia e do investimento social privado (ISP) para responder à situação de emergência vivida no país.

Além da elaboração de um documento que reúne diretrizes para a atuação do setor, um grupo de trabalho composto por representantes de fundações, institutos, empresas e outros investidores sociais tem se reunido para mapear e debater as ações possíveis para o enfrentamento da pandemia.

Já foram mapeadas mais de 60 iniciativas e 180 fundos e campanhas de emergência promovidas e/ou fortalecidas pelo setor. Com base nesse mapeamento, o GIFE identificou os principais eixos de atuação dos investidores, que se dividem entre trilhas imediatas e de médio e longo prazo para responder aos impactos da crise em áreas e públicos diversos.

Apoio à inclusão produtiva

O sexto eixo da Emergência Covid-19, “Apoio ao empreendedorismo, negócios de impacto social e geração de emprego e renda”, tem como objetivo apoiar ações e estratégias para contraposição dos impactos econômicos da pandemia por meio de: 1) Desenvolvimento de instrumentos de suporte a micro e pequenos empreendedores para a manutenção dos seus negócios; 2) Iniciativas de inclusão produtiva e preservação de empregos no curso da crise; e 3) Fomento a soluções inovadoras e de impacto social positivo em resposta à crise.

O Fundo Socioambiental CASA, por exemplo, acaba de realizar uma chamada para apoio emergencial. A iniciativa busca projetos e soluções que possibilitem a redução dos impactos socioeconômicos gerados pela crise e que incentivem a economia solidária e colaborativa e o empreendedorismo local. A chamada vai apoiar também iniciativas de combate, detecção e prevenção entre grupos de base e populações tradicionais.

“Sabemos que as políticas públicas implementadas não alcançam a diversidade do povo brasileiro e, muito menos, reconhecem as diferenças entre as regiões do país. Temos refletido sobre a importância do apoio ao empreendedorismo e às atividades de geração de emprego e renda em comunidades periféricas, bem como de ações de resgate cultural na produção dos alimentos por comunidades tradicionais. Acreditamos no conhecimento tradicional e na sabedoria popular como alavancas para a construção de soluções de enfrentamento”, observa Cristina Orpheo, diretora executiva do Fundo Socioambiental CASA.

Para a diretora, a sociedade civil brasileira tem dado um grande exemplo de atuação emergencial para atender às populações mais vulneráveis. Essa amplitude de ação, no entanto, pode trazer a falsa impressão de que todos estão sendo assistidos, o que, segunda ela, não é verdade.

“Os grupos da Amazônia, por exemplo, além de extremamente vulneráveis ao vírus, estão em uma situação muito mais complexa em razão das distâncias, da ausência de estrutura de comunicação e de outras complexidades, a depender do território. Da mesma maneira, avaliamos que a região Nordeste, que já enfrenta dificuldades enormes e tem uma população bastante empobrecida economicamente, também está mais fragilizada nesse momento”, ressalta.

Inovação e impacto para enfrentar a crise

A Fundação Avina, associada ao GIFE e uma das integrantes da estratégia Emergência Covid, tem atuado na mobilização do setor para o direcionamento de apoio aos grupos mais vulneráveis aos quais tem acesso direto: imigrantes, associações comunitárias que atuam para garantir e ampliar o acesso a água e catadores de material reciclável. No caso deste último, a Fundação está trabalhando no desenho de modelos de reciclagem inclusiva de resíduos.

Nesse sentido, uma das iniciativas apoiadas é o CoVida20, um programa de financiamento de pequenos negócios de impacto comprometidos com a manutenção de emprego e renda durante a pandemia de Covid-19. O programa apoiará empreendimentos que atuam em prol de uma Nova Economia por meio do acesso a empréstimos com taxas reduzidas, carência e prazos alongados. A iniciativa pretende estabelecer uma ponte entre grandes investidores e pequenos empresários.

“Nossa aposta é de que o setor de impacto pode contribuir para guiar a retomada econômica em bases mais sustentáveis e justas do que as que nos trouxeram até aqui. O investimento para sustentação dos negócios durante os próximos 24 meses será fundamental, mas também a formulação de uma estratégia de transição para uma economia inclusiva, regenerativa e democrática”, afirma Glaucia Barros, diretora programática da Fundação Avina.

Conservação da natureza

O apoio ao ecossistema de negócios de impacto também tem sido um dos focos de atuação da Fundação Grupo Boticário. Neste caso, a conservação da natureza é o recorte das soluções, seja no incentivo a pesquisas científicas ou no apoio a soluções que busquem evidenciar a relação entre biodiversidade, economia, saúde e futuro.

“A natureza não vai resolver tudo como um passe de mágica, mas é essencial lembrar que é dela que obtemos funções e recursos essenciais, como a regulação climática e a água. Aliás, essa água é indispensável para nossa indústria e para a geração de energia. A polinização é essencial para manter a agricultura. A lista é enorme e esses são apenas alguns exemplos”, explica Malu Nunes, diretora executiva da Fundação Grupo Boticário.

Para a especialista, existe potencial para que os esforços para a conservação da natureza também ocorram por meio de negócios com impacto socioambiental positivo em complemento aos esforços públicos e filantrópicos.

“A geração de receita financeira para os empreendedores, associada ao impacto positivo para o meio ambiente, é uma possibilidade concreta, que ainda precisa ser melhor aproveitada e explorada no país. Esse tema, que vem evoluindo no Brasil nos últimos anos, subiu vários degraus na escala de prioridades, pois pode complementar os esforços de recuperação da economia, renda e emprego, impactados pela pandemia”, explica.

Em 2019, a Fundação promoveu o primeiro ciclo do Programa Natureza Empreendedora, na Grande Reserva da Mata Atlântica. Entre os sete modelos de negócios desenvolvidos pelos empreendedores locais, foram apresentadas soluções que valorizavam o turismo, o artesanato, a biodiversidade e a gestão de resíduos, sempre com a utilização da mão-de-obra local e considerando elementos da natureza que até então eram ignorados na região. No mesmo ano, a Fundação criou a Rede de Investimentos de Impacto em Conservação da Natureza, a fim de compartilhar com investidores interessados no tema oportunidades e informações sobre como mensurar os impactos positivos para a natureza e o futuro dos negócios.

“Acreditamos que essas ações passarão a ter ainda mais relevância no pós-pandemia e que o apoio ao empreendedorismo de impacto será ainda mais importante, já que os pequenos e médios negócios estão sendo muito afetados”, afirma a diretora.

Diversidade nos investimentos

A Fundação Arymax é outra instituição associada ao GIFE que tem buscado somar esforços no apoio a iniciativas de inclusão produtiva que ajudem micro e pequenos empreendedores urbanos e rurais a atravessar esse período de crise, de forma a contribuir para a preservação de seus negócios e renda e para a manutenção de empregos.

Natália explica que as organizações e iniciativas escolhidas para receber a colaboração da instituição buscam a complementaridade dos públicos beneficiados.

Por exemplo, o apoio à Conexsus tem como público empreendedores rurais. Já a coalizão Éditodos atua em seis estados com foco no apoio a empreendedores negros da periferia. O Fundo Emergencial Volta Por Cima, por sua vez, colabora com empreendedores nas periferias de São Paulo, enquanto o Matchfunding Enfrente tem foco nacional. Por último, o movimento Estímulo 2020 atua junto ao pequeno empreendedor do estado de São Paulo.

“A crise não é apenas de saúde pública, mas também social e econômica. A pandemia traz um novo cenário e agrava questões que já são recorrentes no país. O apoio aos micro e pequenos empreendedores, principalmente àqueles mais vulneráveis, e o fomento à empregabilidade e à manutenção dos empregos são pilares-chave para o desenvolvimento econômico e social do Brasil e para a recuperação do país após esse período”, observa a responsável pelas áreas de parceria estratégica e programas na Fundação Arymax.

Coordenação agora e depois

No atual contexto de emergência, a difusão e o compartilhamento de informações confiáveis, assim como o mapeamento de cenários, passam a ser contribuições ainda mais valiosas para otimizar tempo e recursos na elaboração de novos direcionamentos e estratégias.

Na avaliação de Cristina, as políticas públicas não serão suficientes para a reestruturação econômica dos diversos setores e grupos sociais. “Os desafios só poderão ser enfrentados com uma articulação que envolva toda a arquitetura de financiamento e que tenha como ponto principal a defesa de direitos e o reconhecimento das desigualdades.”

Para Glaucia, a coordenação de ações do investimento social privado empreendida pelo GIFE permite uma atuação mais estratégica. “A alta resolutividade obtida a partir da articulação e da ação sinérgica e otimizada por uma colaboração coordenada é essencial para a ampliação e qualificação do bem público. Há muitas e boas lições aprendidas a partir desse processo, absolutamente válidas para seguir nos inspirando no médio e longo prazo.”

Com o que concorda Natália. “Essa ação coordenada será fundamental para combater a crise que enfrentaremos no pós-pandemia. Perante um futuro incerto, é muito importante que os atores da sociedade civil – financiadores e implementadores – se unam para mitigar os riscos e potencializar o impacto das iniciativas.”

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