ISP tem papel fundamental para fortalecer o campo dos negócios de impacto no Brasil, garantem especialistas

Hoje, o modelo de negócios de impacto social está em franco crescimento e tem se tornado, cada vez mais, uma nova opção para quem busca apoiar, fortalecer e promover iniciativas de interesse público. Mas qual deve ser o papel do investimento social privado no fortalecimento dos negócios de impacto social?

Especialistas que participaram o segundo encontro da Rede Temática de Negócios de Impacto do GIFE, promovido no dia 05 de julho, em São Paulo, debateram a questão. A RT, criada neste ano, tem o objetivo de promover um espaço de diálogo sobre as possibilidade de atuação neste campo e ampliar a atuação dos institutos e fundações na área, com aporte de capital financeiro e não-financeiro.

“Para desenvolver esse ecossistema de finanças sociais precisamos articular uma série de atores para que consigamos propor modelos de negócios que possam resolver problemas sociais. A figura jurídica pode ser tanto uma associação como uma empresa, não importa. O importante é a crença de que modelos de negócios podem resolver problemas sociais e uma mesma organização pode ter impacto social e performance financeira”, destacou Fernanda Bombardi, gerente do Inovação em Cidadania Empresarial (ICE), e uma das coordenadoras da Rede Temática.

A proposta deste segundo encontro foi debater a respeito de questões conceituais sobre o campo, assim como ideias para fortalecê-lo tendo em vista que, na primeira reunião do grupo em maio, as duas temáticas foram apontadas como prioridade. A ideia é que a RT traga ainda discussões sobre aspectos jurídicos e contábeis e como estabelecer o alinhamento deste campo ao core business das empresas mantenedoras de institutos e fundações.

Para compartilhar suas experiências e opiniões sobre o tema, o encontro contou com a presença de três convidados – Gilberto Ribeiro, sócio da Vox Capital; Edgard Barki, professor da FGV; e Maure Pessanha, diretora executiva da Artemísia, que responderam as principais dúvidas e inquietações dos membros da Rede Temática em relação ao tema.

O professor Edgard iniciou o encontro apresentando algumas vertentes conceituais sobre o campo, destacando a visão do termo negócio social a partir de Muhammad Yunus e seus desdobramentos. Neste caso, ele traz dois tipos de negócios sociais: um, mais próximo da visão “Yunus”, em que o empreendimento se sustenta e tem como foco prioritário o impacto social positivo, mas não tem o objetivo de também de ganhar dinheiro e, portanto, não aceita distribuição de dividendos – todo o investimento retorna para o próprio negócio. Mas também existem os negócios, normalmente de caráter mais comunitário, que prevêem  retorno financeiro, mas este retorna para a sociedade com o objetivo, por exemplo, de tirar a população da situação de vulnerabilidade. Na modalidade que permite a distribuição dos dividendos, existem ainda outros tipos de modelo chegando até situações em que há divisão dos lucros entre os sócios.

Segundo os especialistas, hoje há instituições de diferentes natureza jurídica  atuando neste campo e, tendo em vista o momento atual de necessidade de fortalecer esse ecossistema de finanças sociais – que engloba empreendedores, aceleradoras, investidores etc – a discussão conceitual é menos importante diante do alinhamento dos objetivos a que se propõe essas iniciativas.

Tanto é que a Força Tarefa de Finanças Sociais no Brasil – grupo que reúne representantes de diversos setores para ampliar o capital privado e público para o desenvolvimento de mecanismos e negócios de impacto que contribuam para a solução de problemas sociais brasileiros – decidiu criar uma Carta de Princípios que destaca que os negócios de impacto social devem ter essa proposta em sua missão de forma explícita; o impacto tem que ser mensurável; ter modelo econômico; governança participativa; e escala nas soluções de problemas sociais.

ISP e negócios de impacto

Segundo os especialistas presentes no encontro, as fundações e institutos têm papel fundamental neste campo e podem colaborar muito para o seu fortalecimento.

Edgard destacou que uma contribuição é o amplo conhecimento que os investidores têm de suas causas de atuação, que pode ser compartilhado com os empreendedores e colaborar muito para o sucesso de um negócio social nesta área.

Outra frente, de acordo com Maure, é ajudar estes negócios a aplicar e pilotar seus produtos e serviços nos locais que mais precisam como, por exemplo, nas escolas públicas, o que, a longo prazo pode dar  escala a suas ações. “Muitos dos negócios estão ainda na fase inicial e precisam de capital para explorar, tentar e conseguir. Eles têm uma longa caminhada até chegar a um estágio para receber investimentos dos fundos, por exemplo. É nesse momento que os institutos e fundações podem atuar. Portanto, o ISP pode ser esse grande laboratório: ajudar escalar, investir na inovação e trazer conhecimento”, ponderou a diretora da Artemísia.

Gilberto Ribeiro destacou ainda outras contribuições do ISP ao campo que vão além dos recursos financeiros, como a possibilidade de  criar pontes e diálogos facilitados e qualificados entre empreendedores e gestores públicos e também com áreas específicas dentro das empresas – principalmente as mantenedoras, estabelecendo contatos, mentorias, etc.

A diretora da Artemisia acredita que o ISP pode ser um ator importante no incentivo à criação de modelos de negócios em áreas que ainda não atuam desta forma, endereçando as grandes questões do país. “Esse apoio dado pelos investidores sociais nas aceleradoras, como é o caso da Artemísia, por exemplo, também é essencial não só pelo recurso financeiro, mas porque somos incentivados a focar em algumas causas e aumentar o nosso conhecimento nestas frentes até então pouco exploradas, como aconteceu com o tema de Educação, por conta do Inspirare, e na Primeira Infância, por conta da Fundação Maria Cecília Souto Vidigal”, comentou Maure.

Além destes investidores sociais destacados por Maure, por exemplo, outros institutos e fundações já têm apostado no fortalecimento deste campo, como é o caso do Instituto Sabin e o Instituto InterCement, que por meio da plataforma Broota, fez uma aquisição do Vivenda, negócio que atua na área de soluções de baixo custo para reforma e construção de moradias.

“Para nós faz todo sentido investir num negócio como este, tendo em vista que a empresa atua com cimento e a Vivenda está atrelada à proposta de uma moradia mais adequada. Agora, o desafio é aproximar internamente na empresa a área de Compras, Logística, Inovação etc para que possam mudar seus processos, incorporar os serviços da Vivenda, assim como colaborar para que esta se fortaleça, ganhe escala. Precisamos ser criativos para achar as pontes”, comenta Carla Duprat, diretora-executiva do Instituto InterCement. Ela destaca ainda  que a companhia irá colocar a equipe da Vivenda em contato com os fornecedores da empresa, para que possam negociar melhores preços, por exemplo, algo que a Vivenda tem tentado há tempos e, agora, terá a oportunidade de fazê-lo.

Na opinião de Ulisses Sabará, criador da Fundação Lamb Watchers, os investidores sociais precisam se aproximar, cada vez mais, promover trocas de experiências a respeito do que têm feito neste campo e estabelecer novas redes, para fortalecer as ações e criar iniciativas em conjunto.

Doação x negócios de impacto

Um dos destaques da conversa estabelecida no segundo encontro da Rede Temática é a preocupação em que, ao passarem a investir mais no ecossistema de finanças sociais, os investidores sociais deixem de direcionar seus recursos filantrópicos para as iniciativas das organizações da sociedade civil, por exemplo, como destacado no início da reportagem. Outra preocupação é que, devido à dificuldade em conseguir recursos para suas ações, as próprias organizações passem a migrar para negócios sociais, a fim de garantir a sua sustentabilidade.

De acordo com os especialistas convidados presentes, não é preciso haver essa dicotomia. O cenário deve ser de ganha-ganha e não de divisão, tendo em vista que são novos mecanismos que estão agora disponíveis, mas isso não significa que são os mais adequados o tempo todo e que devem ser acessados em qualquer situação.

“Precisamos lembrar que nem tudo precisa virar negócio de impacto. As ONGs têm um papel político fundamental na sociedade e isso deve se manter assim”, destacou Maure. Edgar completou. “Mais do que um modelo, a organização precisa pensar em qual é o seu propósito. É uma nova abertura de possibilidade de atuação, outra vertente, mas não significa que deva ser a única ou se trate da melhor. É mais um meio do que um fim, pois o que estamos buscando no final é o impacto. Isso é o mais importante”, disse.

A ideia, para os especialistas, é que os investidores sociais identifiquem quais são os modelos de atuação disponíveis e escolham a forma de atuar e colocar seus recursos disponíveis – seja em doação ou investimento – naquilo que atenda melhor o seu propósito e atinja um maior impacto.

Para Andre Degenszajn, secretário-geral do GIFE, é preciso romper com essa visão de que investir em negócios sociais seria uma ‘evolução’ das doações e, sim, reconhecer a diversidade do campo, as ferramentas disponíveis, encontrar bons exemplos e ter a ousadia de criar novas soluções para os desafios sociais postos. “Precisamos sim, agora, conhecer as opções e as potencialidades disponíveis e usar e aproveitar recursos de naturezas diversas para fazer esses arranjos funcionarem”, apontou.

Próximos passos

Ao final do encontro, Célia Cruz, diretora executiva do Inovação em Cidadania Empresarial (ICE), apresentou aos membros da Rede Temática como tem sido a atuação da Força Tarefa de Finanças Sociais, principalmente em relação às 15 recomendações lançadas em outubro de 2015 para o fortalecimento do campo.

Neste momento, a Força Tarefa está investindo esforços para fazer avançar em quatro recomendações, sendo que uma delas é direcionada especialmente para fundações e institutos, a fim de que realizem doações e investimentos para viabilizar iniciativas piloto e inovadoras do campo. A meta sugerida é que estas organizações direcionem, até 2020, 5% de seus investimentos e doações ao desenvolvimento do campo de finanças sociais e negócios de impacto, como, por exemplo, no fortalecimento de organizações intermediárias, na atração de novos investidores ou na doação direta a negócios de impacto.

Entre as ações que estão sendo fomentadas para esta recomendação é a criação de um Laboratório, para que investidores sociais possam explorar conjuntamente mecanismos e investimentos no campo. A ideia é reunir 10 fundações/institutos que direcionem 10 mil dólares cada para investir numa ação conjunta no campo. Cinco já se interessaram, inclusive vários associados ao GIFE: Instituto Sabin, Instituto InterCement, Instituto Votorantim, Alana e BMW Foundation.

A próxima atividade da Rede Temática será a participação no Fórum de Finanças Sociais e Negócios de Impacto, que será promovido nos dias 03 e 04 de agosto, no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo e já está com inscrições abertas.

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