Mais de 258 mil estudantes de todo o país opinam sobre o Novo Ensino Médio e a escola dos sonhos

A terceira edição da pesquisa Nossa Escola em (Re)Construção traz reflexões de mais de 258 mil estudantes de todo o país sobre o Novo Ensino Médio e a escola dos sonhos. O estudo é uma realização do Porvir em parceria com a Rede Conhecimento Social.

A motivação partiu de um incômodo causado pelo pouco espaço dado aos estudantes para participar das decisões sobre o futuro da educação brasileira. É o que explica Marisa Villi, diretora executiva da Rede Conhecimento Social.

“Em 2015, o Porvir nos convidou para essa parceria. A ideia era promover uma ação que produzisse conhecimento sobre qual é a escola dos sonhos dos estudantes e, ao mesmo tempo, mobilizasse comunidades escolares para a escuta de adolescentes e jovens. No mesmo período, tiveram início as ocupações nas escolas, comprovando a urgência de dar lugar para a voz dos estudantes.”

A iniciativa chega à terceira edição, incluindo novos temas na consulta, como questões relacionadas ao Novo Ensino Médio – considerando o processo de reforma em curso nessa etapa –, além da ampliação do número de perguntas sobre professores e outros profissionais da educação.

Em 2016, a pesquisa ouviu 132 mil alunos em todo o país. Em 2017, a iniciativa foi transformada em uma plataforma permanente com o objetivo de promover a participação de estudantes por meio de um instrumento de escuta em que o conjunto das respostas pode ser visualizado em tempo real. Entre 2017 e 2018 foram quase 20 mil respostas cadastradas na plataforma.

“Até 2017, vínhamos conversando somente com especialistas, gestores, educadores, enfim, os adultos, e nos demos conta de que precisávamos ouvir também os estudantes. Ficamos surpreendidos pela necessidade de fala que encontramos entre os alunos e também por perceber que os professores e gestores escolares e das redes precisavam escutar os estudantes. Decidimos, então, transformar isso em uma ferramenta permanente de escuta dos jovens”, explica Tatiana Klix, diretora do Porvir.

Ela ressalta que a ferramenta é gratuita e que qualquer estudante pode responder, assim como as escolas e redes de ensino podem mobilizar seus alunos para participar, tendo acesso a um relatório com dados específicos sobre sua realidade.

Achados

Entre as principais demandas e expectativas demonstradas pelos adolescentes participantes da nova edição da pesquisa, Marisa destaca a importância de apoio e mediação em relacionamentos, bem como a definição do futuro profissional e acadêmico. Quatro a cada dez estudantes gostariam de ter um orientador vocacional na escola dos sonhos.

“Por um lado, os estudantes esperam que a escola possa ajudá-los a constituir um projeto de vida, definir qual curso farão ou qual profissão seguir, seja por meio de um orientador vocacional, mas também das aulas atuais ou oportunidades frequentes e específicas sobre o tema”, explica a diretora.

Outro achado importante da pesquisa é o quanto os jovens consideram a presença de psicólogos como central. “Além de estarem preocupados com o futuro, esses estudantes esperam que a escola os ajude a aprender lidar com suas demandas e especificidades. Isso também se reflete na alta expectativa em ter atividades que trabalhem as emoções e a qualidade de vida”, observa Marisa.

Tatiana acredita que a escola tem que ser transformada para se conectar mais com os estudantes. “Tem que ter a cara deles, precisa ser estruturada a partir das suas características, atender as suas demandas e prepará-los para o futuro.”

Novo Ensino Médio

Quando pensam no Novo Ensino Médio, que oferece a possibilidade de escolha do itinerário formativo, os estudantes demonstraram nem sempre preferir escolher logo de início a área em que vão se especializar.

“Nesse sentido, na hora de formular as políticas públicas voltadas a essa nova escola, é preciso ter em mente que ela não é um espaço em que os jovens esperam apenas aprender conteúdos, mas também um ambiente do qual esperam mediação e apoio para lidar com suas individualidades e tomar decisões sobre seu futuro”, explica a diretora da Rede Conhecimento Social.

Para Tatiana, é importante que as escolas e redes pensem sobre como apoiar essas escolhas. “A maior parte dos alunos demonstra tendência a escolher um itinerário que os prepare para o Enem [Exame Nacional do Ensino Médio] ou relacionado com a faculdade, com o que querem fazer no futuro, e isso corrobora com a preocupação deles com seu projeto de vida. As políticas públicas devem considerar isso.”

Marisa observa que é preciso um olhar para a superação das desigualdades no cenário de reforma do Ensino Médio. “Se os jovens querem atendimento psicológico ou orientação vocacional na escola para que saibam como fazer suas escolhas de vida, é preciso monitorar a implementação dessa nova política, avaliar seus efeitos e identificar formas de aprimorá-la. O itinerário formativo está cumprindo seu papel? Como garantir uma formação integral a todos os estudantes? Como preparar professores e todos os profissionais da educação para lidar com esse novo processo?”, reflete.

Tecnologia e participação

Outro elemento sobre o qual os jovens são bastante críticos na escola atual é em relação ao uso da tecnologia, geralmente, presente apenas no laboratório de informática. Boa parte dos estudantes esperam poder usá-la como base para as aulas, bem como aprender conteúdos relacionados a tecnologias.

“Em alguns contextos do Brasil pode parecer que essa é uma discussão superada, mas, em 2019, ainda é preciso discutir acesso a tecnologias e internet. São muitas as escolas que ainda não conseguem oferecer equipamentos para seus estudantes ou não dão a possibilidade de conectividade. Os jovens não querem que esse acesso siga a lógica tradicional, de ter computadores em uma sala, separada das demais atividades escolares. Tendo em vista que a tecnologia é predominantemente móvel e conectada, é relevante e necessário promover debates e experiências de uso pedagógico de tecnologias, buscando evitar que o acesso insuficiente seja um ampliador de desigualdades”, observa Marisa.

Participação foi outra demanda identificada pelo estudo. “Eles querem participar mais das decisões dentro da escola. Acho que isso é um aviso das juventudes. Em um momento em que aparece a intenção de implantar escolas cívico-militares, que são baseadas na disciplina e na autoridade, os jovens estão pedindo mais participação”, alerta Tatiana.

O ISP na educação

Para Marisa, o investimento social privado – que, historicamente, tem na área da educação sua principal temática, segundo dados do Censo GIFE – pode aprimorar sua atuação para contribuir com os desafios do cenário atual da educação básica brasileira buscando formas de complementar ou aprimorar as políticas públicas.

“Observar as demandas não atendidas e conhecer mais de perto o que estudantes esperam em seu contexto é um primeiro passo importante. Porém, há espaço para muito trabalho: escutar toda a comunidade escolar – tanto no âmbito local, como na dimensão nacional – é importante para mapear expectativas, identificar pontos comuns de melhoria e especificidades de cada público”, defende.

Para Tatiana, a sociedade civil deve se preocupar em como se relacionar mais com as escolas, trazendo outras experiências e espaços de escuta e troca que ajude os estudantes a tomar decisões e a se formar de forma mais ampla, holística e integral.

“Como ajudamos a levar isso para dentro das escolas, seja por meio de projetos estruturados, seja via intercâmbios? Como ajudamos a entregar essas complementaridades ao modelo atual da escola? Eles trazem esse pedido de interferência para ampliação de horizontes em relação ao futuro, às emoções, à relação com o entorno e à participação e, talvez, o investimento social privado tenha potencial para trazer essas referências e espaços de escuta e apoio”, afirma.

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