Metodologia de desenvolvimento comunitário da Fundação Alphaville é premiada em SP

Muitas vezes, uma comunidade que enfrenta desafios sociais já tem dentro de si a capacidade para mudança, mas é preciso um empurrãozinho. Esse foi o caso do grupo que integra a Horta Comunitária Araçatuba G, projeto apoiado pela Fundação Alphaville. A metodologia “Convivência que Constrói”, aplicada para revitalizar um espaço de plantio, foi premiada em junho com o Selo Benchmarking de Sustentabilidade.

Tudo começou quando a Alphaville entrou em contato com o projeto. Fundada por Maguila – um morador do bairro Elias Estefan, em Araçatuba, no interior de São Paulo – e com o apoio de vizinhos, a horta comunitária surgiu a partir da transformação de um terreno que antes servia para descarte de resíduos. Com o falecimento de Maguila, os moradores perderam a motivação para continuar com o plantio.

Nesse cenário, a partir de uma aproximação com a comunidade local, a Fundação Alphaville identificou que a vontade de cultivar a horta ainda existia. Fernanda Toledo, gerente de sustentabilidade da Fundação, explica que a primeira etapa foi conhecer o território onde a metodologia seria aplicada, a partir de um diagnóstico que possibilitou identificar possíveis lideranças, projetos em andamento, chances de parcerias com empresas que atuam na região, entre outros fatores.

“No mapeamento de pessoas, por exemplo, identificamos as lideranças, sendo elas oficiais ou não, ou seja, pode ser um presidente de associação ou um líder comunitário que consegue mobilizar esforços e pessoas. A partir disso, agendamos uma reunião e nos colocamos em uma posição de ouvinte porque a ideia é entender, escutar e conhecer o perfil do público com o qual estamos atuando. Eles que vão nos falar o que há de bom e o que pode ser melhorado no território”, explica Fernanda.

A metodologia desenvolvida pela Fundação se divide em quatro etapas principais: a primeira, citada acima, é o processo de escuta e diagnóstico. Também é nesse momento que, segundo Fernanda, acontece um processo importante de autoconhecimento, quando as pessoas aprendem mais sobre suas capacidades.

A segunda etapa é dedicada ao diálogo. Agir em conjunto, com planejamento, e a ação em si constituem o terceiro passo. Por fim, emancipar o projeto é a última etapa. “A quarta etapa é quando, na leitura da Fundação, existe de fato uma ação sustentável com um grupo formado e fomentado, de forma que possa caminhar com as próprias pernas.”

A gerente conta que, durante o mapeamento, a equipe percebeu o potencial que o local tinha para a agricultura, uma vez que Araçatuba é uma cidade com essa característica. Entretanto, a horta era utilizada de forma desorganizada, com alguns moradores plantando para consumo próprio e outros com seus canteiros abandonados. “Nas primeiras reuniões, ficou confirmada a vontade dos moradores de se organizarem enquanto grupo produtivo. O próximo passo foi procurar a Secretaria Municipal responsável pelo apoio aos produtores.”

Capacitações técnicas

O estabelecimento de um canal de comunicação com a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Agroindustrial ajudou em inúmeros fatores. O órgão disponibilizou um técnico que, de forma voluntária, passou a integrar o projeto da horta comunitária e a ensinar para o grupo questões mais técnicas de plantio, cultivo e produção.

Diandra Thomaz da Silva, assistente de projetos da Fundação Alphaville, acompanhou os dez encontros realizados ao longo de 2016 e 2017. Segundo ela, a participação do profissional foi fundamental, uma vez que os moradores não tinham conhecimentos técnicos sobre o cuidado com a terra, processos atuais de adubagem, maneiras mais sustentáveis de controlar pragas, melhoria da colheita, entre outros.

“O conhecimento sobre cuidados com a terra é algo passado de geração para geração. O técnico ensinou como os produtores poderiam cuidar da adubagem do solo, como ter um processo melhor de produção de mudas, qual seria o período adequado para a colheita, quais espécies poderiam ser plantadas próximas umas das outras para trazer benefício ao solo. Ele apresentou uma visão macro do ecossistema que a comunidade até então não tinha”, explica Diandra.

Transformação da horta comunitária

Diandra destaca que a apresentação de uma visão mais sustentável de negócio ajudou no processo de emancipação do projeto, para que os moradores pudessem dar continuidade à horta mesmo depois do término do apoio da Fundação.

Ao todo, foram dois dias de mutirão com 40 participantes para revitalizar o espaço da horta, 22 famílias participantes e quatro parcerias estabelecidas. O esforço de onze meses resultou em 800 metros quadrados de área cultivada e 17 canteiros produtivos, com uma previsão de 300 mil mudas produzidas por ano.

Com o apoio da Fundação, a horta comunitária se transformou. Segundo Diandra, a mudança teve início com cada um dos moradores de forma individual. “Elias Estefan é um bairro sem acesso a serviços públicos de qualidade, então os moradores não conheciam seu próprio potencial. Muitos tinham o poder de empreender, outros já estavam captando parcerias, mas não percebiam que poderiam fazer isso sozinhos. Então, na primeira etapa da metodologia, fizemos com que eles olhassem para si, encontrassem o que têm de melhor, o seu sonho, o que os motiva e a relação que poderia ser desenvolvida com o território. Tudo isso foi importante para que quando a Fundação terminasse o projeto, os moradores conseguissem se sentir capazes de continuar o processo. Na verdade, nós trouxemos luz para o potencial que eles já tinham”, afirma.  

Além disso, a assistente de projetos ressalta que a mudança também foi nítida na forma como os moradores passaram a encarar os desafios enfrentados pela comunidade, como, por exemplo, alcoolismo e uso de entorpecentes. Tudo isso devido à sensação de que a horta é um produto e uma construção de todos. “Durante uma atividade, fizemos uma caixa dos sonhos e uma dos problemas, para serem abertas ao final da metodologia. Quando chegamos, ouvíamos muito ‘fulano não cuida do canteiro dele’. Hoje, o discurso é ‘isso é nosso, vamos cuidar, se você não conseguir regar seu canteiro eu faço isso’. Eles têm uma construção mais sólida entre si, o que os ajuda a lidar com os problemas. Tudo isso foi resultado da construção coletiva.”

Metodologia premiada

Desenvolvida com base nos dezoito anos de atuação da Fundação Alphaville, a metodologia recebeu, em junho, o Selo Benchmarking de Sustentabilidade. O sucesso de sua implementação no projeto da horta comunitária em Araçatuba fez com que ficasse entre os dez cases na premiação, que reconhece as melhores práticas socioambientais.

“Como Fundação, nós temos o propósito de compartilhar e trazer metodologias que possam ser replicadas e transformadas em tecnologia social. O Selo é muito importante porque os avaliadores entenderam que a metodologia realmente pode ser uma referência para outras organizações, institutos ou fundações”, ressalta Fernanda.

A gerente reflete que, ao longo desse caminho, a “Convivência que Constrói” foi modificada e aprimorada de acordo com os aprendizados. “Para uma organização, dezoito anos traz certa maturidade. Já cometemos muitos erros e acertos e a metodologia veio acompanhando todo esse processo de aprendizagem. Nós aprimoramos e incluímos mais elementos e entendemos que chegamos em um modelo replicável, que pode ser feito com qualquer público. Estamos em um momento bastante maduro como instituição.”