Nova agenda urbana conecta todas as causas do ISP, acreditam investidores sociais

O que um projeto de formação da juventude para o mundo do trabalho, um programa de articulação e fortalecimento de uma rede cooperativas de reciclagem e uma iniciativa de enfrentamento à violência contra as mulheres têm em comum? Há um ponto de convergência sim, que precisa ser levantado, e com urgência: todos eles se encontram e se materializam no espaço urbano. É ali, nas cidades, onde está 85% da população brasileira, que essas ações de fato têm encontrado desafios, mas também provocado muitas intervenções de impacto.

Portanto, conquistar uma nova sociedade mais justa, igualitária e sustentável conecta a todos e traz um objetivo único às iniciativas: formar e construir cidades bem governadas e responsáveis, saudáveis e seguras, que promovam a diversidade e a criatividade e fomentem a prosperidade para todos. Essa é a aposta de um grupo de fundações e instituições que se uniram para lançar luz ao tema e trazer para a prática o tema do “Habitat III”, a Conferência das Nações Unidas sobre Habitação e Desenvolvimento Urbano Sustentável, que acontecerá em Quito, no Equador, de 17 a 20 outubro.

“Num país como o Brasil, não há como pensar em desenvolvimento sustentável sem pensar em desenvolvimento urbano. Seja qual for a sua causa, trata-se de um tema que afeta a todos”, destaca Oscar Fergutz, diretor programático da Fundação Avina – uma das instituições que têm estado à frente deste debate  –, lembrando que o momento é estratégico para trazer à tona e fortalecer as causas que são relevantes para o setor.

Isso porque a expectativa é que a Conferência reúna mais de 30 mil pessoas e, será neste momento, que os países estarão reunidos para assinar um acordo mundial sobre o tema. “Ou seja, aos nos posicionarmos e apresentarmos as nossas prioridades, serve de reforço e estratégia para os nossos governantes no momento das negociações. Dá muito mais força e subsídios”, ressalta Oscar.

Até o momento, já foi elaborada uma “versão zero” inicial do documento. que será discutido em Quito, sendo que a mesma passou também por uma primeira análise e revisão em junho (clique aqui para acessar) e deverá ter novas versões até outubro.

A partir de uma leitura das edições do documento, é possível perceber quais são as preocupações e o que têm despontado como relevante ou não aos países nesta área. Segundo o diretor da Avina, algo que já é motivo de comemoração é a permanência no material da visão do “direito à cidade”, ou seja, de que todo e qualquer habitante, ao estar numa cidade, tem o direito de usufruí-la, não precisando ser, necessariamente, um cidadão daquele lugar. “Esse é um dos pontos mais tensos e o mais relevante desta conferência e que pode, de fato, deixar um legado importante para a sociedade”, explica.

O The European Foundation Centre Funders’ Forum on Sustainable Cities (FFSC) – uma rede colaborativa global comprometida com o aumento papel e da eficácia das fundações na promoção do crescimento inclusivo nas cidades -, por exemplo, tem reforçado essa ideia do ‘direito à cidade’ e, para contribuir com o debate do Habitat III, produziu um documento específico a respeito voltado à filantropia (em breve ele será disponibilizado pela Avina). A proposta é reforçar o papel das fundações e institutos que têm mais autonomia para investir em áreas inovadoras e colaborar com as mudanças necessárias para a sociedade atual.

Outra forma das instituições se engajarem ainda mais no Habitat III é propor atividades paralelas ao evento. As inscrições para os interessados em enviar propostas vão até o final do mês. A Plataforma Global pelo Direito à Cidade pretende ainda realizar encontros para discutir mais o tema.

ISP e agenda urbana

A articulação entre as várias causas do ISP e as questões que permeiam a nova agenda urbana tem despertado a atenção por parte de diversos institutos e fundações.

“O objetivo final dos investimentos sociais é melhorar, de forma permanente, a vida das pessoas. As nossas cidades, principalmente as regiões metropolitanas, estão entrando em colapso. 85% dos brasileiros vivem nas cidades. Melhorar a qualidade do nosso tecido urbano é a melhor forma de atingirmos milhões de brasileiros”, acredita Aron Zylberman, presidente do Instituto Cyrela, que atualmente é um dos patrocinadores do Conselho Brasileiro de Construção Sustentável (CBCD) e também ocupa a vice-presidência de sustentabilidade do Sindicato da Habitação (SECOVI).

Até mesmo aqueles que não atuam diretamente nesta agenda, têm encontrado muitas sinergias entre as ações. “A temática dos modelos urbanos de desenvolvimento e das questões em pauta nas cidades aparecem mesmo que o nossa lente não seja para tal. Não há como ignorá-las. Afinal, trabalhamos para o desenvolvimento de capital social nas comunidades”, comenta Ana Beatriz Lorch Roth, superintendente da Fundação Otacílio Coser (FOCO) e também coordenadora do Bloco Brasil da RedEAmérica – rede que engloba uma série de organizações que buscam promover o desenvolvimento de comunidades sustentáveis, dos quais vários associados do GIFE.

Ana Roth, inclusive, resgata os pensamentos de Janes Jacobs – autora do livro “Morte e vida de grandes cidades” – para explicar essa relação entre capital social e territórios, que sempre fez parte da proposta da FOCO. Jacobs dizia que os espaços urbanos que não são democráticos – ou seja, que criam grandes empreendimentos privados formando ‘ilhas’ nas cidades e acabando com espaços públicos como ruas e praças, por exemplo – geram cidades não democráticas. Porém, ao criar ‘espaços’ mais generosos que facilitam a formação e a integração das pessoas, consequentemente, se incentiva o capital social, tendo em vista que esses cidadãos podem se conectar, ter oportunidades de discutir e possibilidades de pensar e solucionar seus problemas de forma mais democrática.

Esse olhar perpassa uma série de iniciativas da Fundação, que tem como território de atuação a região metropolitana de Vila Velha, no Espírito Santo. No local, por exemplo, a Fundação apoia há mais de uma década ações na região da Bacia do Rio Aribiri, local que enfrenta uma série de desafios pelo assoreamento dos rios. Recentemente, por meio do projeto do Fundo Comunidade em Rede a partir do convênio de cooperação estabelecido entre membros da RedEAmérica no Brasil e a Fundação Interamericana, foi criado – com apoio da FOCO – o Grupo Comunidade em Ação, sendo responsável por articulador iniciativas socioambientais da Bacia do Rio Aribiri.

Por meio do projeto, os moradores, por exemplo, conseguiram identificar as causas para tais condições ambientais – como a ocupação desordenada do espaço – e estão discutindo como ocupar de forma adequada o território e as consequências e riscos não só para o meio ambiente, mas para o espaço urbano.

“É interessante porque o investimento social privado pode de fato ajudar a promover esse tipo de reflexão e atitude mais comprometida das comunidades. Podemos inventar os caminhos diferentes e muito alinhados, conversando e unindo os diversos atores locais”, ressalta a superintendente da FOCO.

A Coca-Cola e o Instituto Coca-Cola também tem atuado nesta perspectiva, que busca promover o desenvolvimento sustentável ao longo da sua cadeia produtiva. “Essa é uma tendência bastante forte das empresas que têm visão de futuro da própria sustentabilidade do negócio. Não há hoje como separar o desenvolvimento de uma empresa do desenvolvimento da sua comunidade. As empresas mais inovadoras e de vanguarda estão nesse caminho”, comenta Thais Vojvodic, gerente de Valor Compartilhado da Coca-Cola.

Segundo Thais, são justamente as questões urgentes observadas nas cidades em que a empresa atua que têm despertado uma série de ações, como, por exemplo, trazer algumas respostas ao desemprego que afeta principalmente os jovens em busca da entrada no mundo de trabalho.

Para tal, é desenvolvido o Projeto Coletivo Jovem, uma iniciativa realizada em conjunto com organizações sociais que oferece formação e encaminhamento ao mercado de trabalho em 106 comunidades urbanas pelo país. Em 2015, 3.500 jovens participaram do programa e, desde 2009, foram mais de 127 mil. “Essa é uma iniciativa que gera muito valor nas comunidades, pois a empresa tem articulações com comércios, restaurantes etc, o que facilita a inserção dos adolescentes no seu primeiro emprego. Sem contar o seu potencial de escala”, destaca.

Outra questão em pauta quando a proposta é a busca por cidades mais sustentáveis é o que fazer com os resíduos gerados. A Coca e o Instituto também têm atuado nesta demanda, por meio do Coletivo Reciclagem, que se tornou uma tecnologia social, inclusive, certificada pela Fundação Banco do Brasil, como solução urbana.

A proposta deste coletivo, que atua junto a 304 cooperativas de reciclagem do país, é profissionalizar o campo e fortalecer a cadeia de reciclagem que, como lembra Thais, enfrenta uma série de desafios. A partir de um diagnóstico inicial, por meio do programa, as cooperativas recebem apoio na gestão, capacitação e infraestrutura, visando, inclusive, que consigam ampliar a renda dos cooperados.

De acordo com a gerente, já foi possível identificar 7,5% de crescimento nos indicadores operacionais e de gestão (indicadores da tecnologia social que aponta o desenvolvimento das cooperativas em uma linha que parte do básico, intermediário até chegar num estágio avançado).

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