Iniciativa discute oportunidades e desafios para o investimento social em negócios de impacto social no Brasil

A aproximação entre fundações e institutos e o campo de finanças sociais e negócios de impacto vêm crescendo no Brasil. Trata-se de um segmento formado por investidores comprometidos em experimentar maneiras inovadoras para lidar com problemas socioambientais complexos.

As finanças sociais, conceito cada vez mais presente nos debates do campo social, se caracterizam pelo uso de recursos privados e públicos por meio de instrumentos financeiros que geram impacto socioambiental com retorno financeiro. Já os negócios de impacto são empreendimentos que têm o claro compromisso de gerar impacto (social ou ambiental) positivo ao mesmo tempo em que proporcionam resultado financeiro.

No Brasil, o protagonismo neste segmento tem sido de um grupo de trabalho chamado Força Tarefa de Finanças Sociais. A iniciativa, liderada pelo Instituto de Cidadania Empresarial (ICE) e SITAWI, articula uma rede de investidores e parceiros que atuam no campo do investimento social para pensar e empreender modelos de negócios rentáveis que resolvam problemas sociais e ambientais. O GIFE atua também no tema, a partir da participação do secretario-geral, Andre Degenszajn, na Força Tarefa.

Célia Cruz, diretora executiva do ICE, explica que o movimento aponta caminhos complementares aos modelos já existentes de investimento social. “Entendemos que as finanças sociais surgem em um contexto no qual a filantropia tradicional e os recursos públicos são insuficientes para financiar a inovação social. Contudo, vale ressaltar que não estamos falando em abandonar outros formatos de investimento. Trata-se de um aliado, de um modelo que vem para somar.”

Ana Carolina Velasco, gerente de relacionamento e articulação do GIFE – Grupo de Institutos, Fundações e Empresas, concorda. “É muito importante que o campo do investimento social reconheça o investimento de impacto como uma estratégia relevante para a geração de impacto social que pode ser impulsionada e fortalecida a partir dos recursos filantrópicos. Estamos falando em complementariedade, não em sobreposição. O modelo de negócio é uma possibilidade, mas que não necessariamente serve para algumas causas.”

Segurança jurídica

Diversas ações já foram encampadas pela Força Tarefa para gerar aprendizados e compartilhar experiências sobre finanças sociais e negócios de impacto. Uma das mais recentes foi o lançamento do Guia Prático de Orientação Jurídica sobre negócios de impacto.

Celia Cruz explica que a iniciativa se tornou possível a partir de uma parceria com o escritório Derraik & Menezes e outros parceiros do campo. O material orienta como institutos e fundações podem se respaldar jurídica e tributariamente para atuar com negócios de impacto. O guia está disponível online.

A diretora executiva do ICE conta que o objetivo foi avançar no debate sobre segurança jurídica, já que se trata de um campo ainda em consolidação no país. Apesar de não esgotar o tema ou entregar todas as respostas, o documento pode inspirar diálogos internos dentro das organizações e em redes dedicadas ao assunto.

Protótipo de Fundações e Institutos em Investimento de Impacto

Outra frente de ação da Força Tarefa é o Laboratório de Inovação, uma iniciativa viabilizada em parceria com a Aoka Labs, uma empresa especializada em inovação social que trabalha com vivências para geração de valor. Nos encontros promovidos pela iniciativa, foi reunido um grupo de pessoas de diferentes organizações para identificar oportunidades e implementar ações que impactem o campo.

Um dos resultados do Lab foi o Protótipo de Fundações e Institutos em Investimento de Impacto, um tipo de plano de ação que nasce da co-criação, organizando recursos, agentes e ações em atividades definidas e alinhadas aos princípios do movimento.

Este protótipo fecha um ciclo de atividades do Lab e foi discutido em encontro realizado no final de outubro. A iniciativa contou com o apoio da Fundação BMW e juntou representantes de 16 organizações cotistas do investimento coletivo para aprenderam sobre mecanismos de finanças sociais. O aprendizado dessa vivência será compartilhado em breve, mas outras organizações que tem interesse em participar do investimento coletivo ainda podem participar. O processo seletivo para entrada de novos cotistas vai até o dia 30 de novembro. Os interessados em saber mais podem acessar o site do movimento (mais informações podem ser obtidas pelo e-mail [email protected]).

Fábio Deboni, gerente executivo do Instituto Sabin e coordenador da Rede Temática de Negócios de Impacto Social do GIFE, comenta como tem sido importante participar de iniciativas que pensam este modelo no Brasil. “Ficamos muito felizes com a adesão, até este momento, de 16 institutos e fundações, e com o engajamento deles no processo de construção dos diálogos do grupo. Temos pela frente o desafio de prosseguir com o foco de prototipar, testar e aprender com esta experiência. Já traçamos quais são os mecanismos de investimento de impacto que queremos experimentar e quais as organizações intermediárias com quem iremos atuar. O passo seguinte é dar conta do processo burocrático do aporte da cota de recursos de cada instituto e fundação para, em seguida, conseguirmos avançar mais profundamente nos critérios mais técnicos deste processo junto a cada mecanismo e a cada intermediário.”

Participam desta iniciativa as seguintes organizações: Instituto InterCement, Instituto Votorantim, Fundação BMW, Instituto Sabin, ICE, Instituto Alana, Fundação Telefônica, Instituto Samuel Klein, Instituto Ayrton Senna, Fundação Tide Setubal, Fundo Vale, Fundação Lemann, Instituto Cyrela, Fundação Otacilio Coser, Instituto EDP, Instituto Phi e Instituto Coca-Cola.

GIFE discute tema em rede de associados

Para o GIFE, articular agentes que pensam e atuam no campo de finanças sociais e negócios de impacto é muito importante e contribui para impulsionar essa agenda no país. Dentro da Rede Temática de Negócios de Impacto Social, os participantes discutem questões como diversidade de modelos, riscos e limites, oportunidades e desafios.

Ana Carolina Velasco, gerente de relacionamento e articulação do GIFE, conta que as discussões na  rede têm sido muito ricas. “O Investimento Social Privado pode ser  um indutor de negócios de impacto por conta de seu papel inovador. Queremos, como organização que atua com o campo social no Brasil, compartilhar reflexões e aprendizados. Fazer parte de todos esses debates tem sido fundamental.”

Fábio Deboni, do Instituto Sabin, conta que tem sido transformador ter acesso a tantos aprendizados a partir das experiências de organizações de portes, atuações temáticas e entendimentos diferentes sobre o assunto. “Atuar em coletivo é sempre mais desafiador e traz consigo um potencial de impacto muito maior. Tem sido uma experiência bastante interessante e inovadora, pois reforça o caráter experimental e inovador de Institutos e Fundações, atuando como co-investidores de negócios de impacto. O tema em si [de negócios de impacto] é novo e ainda desperta muitas dúvidas em institutos e fundações. Por isso, a relevância de atuarmos numa espécie de ‘consórcio’, diluindo eventuais riscos e ampliando o alcance de todos os envolvidos.”

Para saber mais

Já está disponível no Sinapse a publicação Panorama do Setor de Investimento de Impacto na América Latina. Acesse e saiba mais sobre o assunto.

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