Os efeitos da pandemia na atuação em rede da sociedade civil

Com a pandemia, milhões de pessoas que já viviam em situação de vulnerabilidade vivenciaram um agravamento ainda maior com o desemprego e a fome. Foi no fortalecimento de redes já existentes e na criação de novas que o terceiro setor encontrou a força, a velocidade e a capilaridade necessárias para lidar com esse desafio. Uma tendência que deve se intensificar no pós-pandemia.

A atuação em rede começou a entrar no vocabulário do terceiro setor na década de 1990, ainda que já houvesse exemplos mais antigos desse tipo de prática. A Fundação FEAC, por exemplo, foi criada na década de 1960 exatamente para, em rede, fortalecer organizações que antes faziam ações isoladas.

Nos anos anteriores à pandemia, já não existiam dúvidas quanto à eficácia de atuar dessa forma. As conquistas históricas de estruturas como a Rede Nacional Primeira Infância, que conseguiu pautar definitivamente esse tema na discussão política brasileira, são exemplos da força da atuação conjunta de organizações dos mais diversos lugares do Brasil, dos mais variados tamanhos.

Mas, se a atuação em rede já era bem disseminada antes da pandemia, o que mudou com a crise sanitária? Foram duas as principais mudanças: na relação entre organizações de tamanhos diferentes e na comunicação entre elas.

Um dos princípios de uma boa rede é que seja horizontal, sem que uma organização tenha mais poder do que outra. Mas, na prática, sabemos que organizações maiores acabam muitas vezes impondo sua força financeira ao criarem regras muito fechadas para que seus parceiros executem projetos e recebam recursos. A falha na comunicação é outra face dessa assimetria. As organizações na ponta acabam sendo muito menos ouvidas do que deveriam. A pandemia explodiu essas assimetrias.

A situação emergencial, por exemplo, fez com que muitas organizações doadoras permitissem a suas parceiras usar como quisessem os recursos para atender a demandas emergenciais, sem necessidade de novos editais, desburocratizando essa relação. Já as organizações da ponta passaram a ser ouvidas com muita atenção, afinal, eram elas quem sabiam exatamente o tamanho da emergência nos territórios. Em resumo, aumentou a confiança e o respeito entre os colaboradores das redes.

Nós mesmos, da Fundação FEAC, experimentamos essa mudança. No começo da pandemia, criamos a campanha Mobiliza Campinas, para distribuir cartões alimentação a famílias vulneráveis identificadas e cadastradas pelas organizações na ponta. Na segunda edição da campanha, em 2021, formamos um comitê executivo, do qual fazem parte algumas instituições escolhidas entre e pelas nossas parceiras. A rede ficou mais horizontal e a escuta do território mais acurada.

As organizações até mesmo começaram a distribuir recursos entre si. Uma instituição, por exemplo, recebeu uma grande doação de água. A comunicação por toda a rede permitiu identificar quais eram as regiões da cidade que mais precisavam desse bem, que acabou distribuído com eficiência.

Mais horizontalidade, melhor comunicação, distribuição mais eficaz de recursos. Esses foram apenas alguns dos ganhos para muitas das redes formadas por organizações da sociedade civil em resposta à emergência. O desafio agora é manter esses avanços, não retornar às formas antigas de parcerias, mais engessadas, burocratizadas e hierarquizadas.

A deterioração dos indicadores socioeconômicos mostra que a sociedade civil será muito demandada mesmo no pós-pandemia. Abraçar e estimular essas inovações na atuação em rede será fundamental para a eficiência da nossa resposta aos novos desafios.

Por Jair Resende, superintendente socioeducativo da Fundação FEAC

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