Pesquisa Datafolha aponta falta de motivação dos estudantes e dificuldade para estabelecer rotina de aprendizagem em casa

Segundo a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), em determinado momento da pandemia, mais de 850 milhões de estudantes ficaram impossibilitados de frequentar as aulas devido ao fechamento de escolas e universidades em mais de 102 países. Diante desse cenário, muitas instituições migraram para o ensino online, enquanto outras redes tiveram que pensar soluções alternativas, considerando desafios de tecnologia e conectividade, como visto em diversos territórios brasileiros. 

Com o objetivo de identificar se os estudantes brasileiros do Ensino Fundamental e Médio estão recebendo, acessando e realizando as atividades de aprendizado remoto durante a pandemia, além de mapear as dificuldades em relação a acesso, rotinas e motivação e identificar percepções dos responsáveis sobre a qualidade do apoio das escolas, evolução nos estudos e tendências de evasão, Fundação Lemann, Itaú Social e Imaginable Futures encomendaram uma série de pesquisas ao Instituto Datafolha. 

A quarta onda do levantamento Educação Não Presencial na Perspectiva dos Estudantes e suas Famílias mostra a complexidade do cenário educacional em meio à crise. Um dos efeitos diretos da migração da sala de aula da escola para a casa dos alunos foi o aumento da participação das famílias na vida escolar dos estudantes, como apontam 51% dos respondentes – índice que sobe para 58% e 57% nas regiões Sul e Centro-Oeste do país, respectivamente. 

Se antes os responsáveis contavam com a escola para o cuidado dos filhos em razão de longas jornadas de trabalho fora de casa, muitos passaram a trabalhar em sistema home office, o que demandou maior participação na vida escolar das crianças e jovens. 72% concordam que estão com mais responsabilidade pela educação dos estudantes do que antes da pandemia. 

Parceria família-escola 

A percepção sobre a responsabilidade pela educação de crianças e jovens esbarra em um debate antigo sobre a parceria entre escola e família na missão de educar. “Diversos estudos já mostraram os benefícios do envolvimento da família no desenvolvimento escolar dos estudantes. Essa mudança de comportamento em um período tão desafiador para a educação brasileira pode vir a ser um legado positivo para a educação pública em meio a toda essa crise”, defende Camila Pereira, diretora de educação na Fundação Lemann.

Relacionada a isso está a valorização da profissão docente. Com pais, mães e responsáveis participando mais ativamente da educação dos filhos, viralizaram nas redes sociais relatos de pessoas – anônimas e famosas – relatando dificuldades em acompanhar o ensino remoto e enaltecendo o trabalho e dedicação dos professores. 

Segundo a pesquisa, 71% dos responsáveis pelos estudantes estão valorizando mais o trabalho desenvolvido pelos docentes e 94% consideram muito importante que eles estejam disponíveis para correção de atividades e esclarecimento de dúvidas durante as aulas não presenciais. Para Camila, esses dados apontam que os pais estão se dando conta do desafio que é garantir a aprendizagem. 

“Sabemos que tanto o engajamento das famílias, como a valorização da carreira docente são elementos-chave para a garantia da aprendizagem. Tenho a expectativa de que essas mudanças de mentalidade permaneçam após a crise e no retorno das aulas presenciais. Será extremamente positivo conseguirmos manter esses avanços no pós-pandemia”, defende. 

Avanço da tecnologia e novas metodologias 

Camila reforça que, assim como outras áreas e setores aceleraram o uso da tecnologia durante a pandemia para driblar a ausência presencial, o mesmo aconteceu na educação.

Além do fato de alguns profissionais ainda serem reticentes quanto ao uso de tecnologia aliada à educação, a ideia de não apenas usar, mas depender de computadores, celulares e tablets para dar aula parecia inconcebível em janeiro deste ano. Entretanto, foi a solução encontrada por grande parte das escolas e universidades do Brasil e do mundo para dar continuidade à educação durante esse período. De acordo com a pesquisa, 64% dos respondentes consideram que as aulas não-presenciais foram eficientes no aprendizado aos estudantes, enquanto 36% afirmam que não foram eficientes. 

“Acredito que o uso da tecnologia veio para ficar, mas sabemos que o ensino remoto não substitui a presença física do professor e a socialização das crianças e adolescentes. O ensino híbrido é a promessa para 2021 e 73% dos professores indicaram na pesquisa que pretendem usar mais tecnologia no ensino do que antes da pandemia. Isso mostra que o professor está mais engajado digitalmente e que a tecnologia chega para complementar o seu trabalho”, afirma. 

Se antes do fechamento das escolas nem todo mundo conhecia o termo ‘ensino híbrido’, a migração das aulas para o ambiente digital, com certeza, acelerou a compreensão sobre o termo, uma opção para o período pós-pandemia e retomada gradual das aulas presenciais. A metodologia vai além da união de aulas presenciais e remotas e está relacionada às metodologias de aprendizagem ativa, ou seja, que realmente engajam os estudantes e o tornam protagonista de seu processo de aprendizagem. 

Para Camila, colocar o aluno no centro do processo de aprendizagem é um dos grandes potenciais do uso da tecnologia de forma efetiva na educação, uma vez que ajuda a garantir uma experiência mais personalizada para cada um, levando em conta os diferentes ritmos e necessidades dos estudantes. “Um aluno que aprende no seu ritmo, com o tipo de aula que faz mais sentido para ele, certamente é um aluno que se motiva e se engaja mais.” 

Motivação e engajamento

O levantamento também se preocupou em olhar para a distribuição de atividades entre os estudantes. Se na pesquisa, realizada em maio, foi constatado que 74% dos alunos receberam atividades para realizar em casa, o índice subiu para 92% nesta edição do levantamento. 

Mesmo com a entrega de conteúdos, crianças e jovens estão enfrentando dificuldades para continuar motivados a participar. A pesquisa mostrou que, em maio, 46% se sentiam desmotivados, índice que subiu para 54% na edição atual do levantamento. Também aumentou o número dos que reconhecem a dificuldade em estabelecer uma rotina de aprendizagem em casa: de 58% para 65%, chegando a 69% nos anos iniciais do Ensino Fundamental. O medo da evasão escolar acomete 30% dos responsáveis, mesmo índice de maio, o que representa uma queda com relação aos 38% atingidos na pesquisa de julho. 

Camila defende que o período de escolas fechadas por muito tempo aumenta as taxas de abandono e evasão escolar, uma vez que é grande o número de alunos que não devem voltar para a escola, mesmo depois da retomada das aulas. Nesse sentido, a diretora cita algumas estratégias que podem ser desenvolvidas de forma a manter os alunos próximos à escola. 

“Programas de busca ativa, em que a secretaria procura diretamente as famílias e os alunos que têm maior risco de abandono, são um tipo de ação efetiva que pode ser colocada em prática. Alguns estados estão mandando, por exemplo, mensagens de texto para as famílias e têm tido um bom resultado nesse retorno e engajamento”, explica. Para ela, a evasão escolar pode comprometer o futuro de crianças e jovens que têm direito à aprendizagem, distanciando-os de oportunidades de desenvolvimento de todo seu potencial. 

Notícias relacionadas

Apoio institucional