Pesquisa traça um panorama sobre a filantropia e o investimento social privado na América Latina

Com a proposta de traçar um panorama sobre as principais motivações, aspirações, prioridades e práticas filantrópicas, assim como identificar o ambiente político e cultural para a atividade filantrópica, além dos desafios e oportunidades para o aumento dessa prática na América Latina, o UBS em parceria com o The Hauser Institute For Civil Society da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, lançaram o estudo “Da Prosperidade ao Propósito – Perspectivas sobre a Filantropia e Investimento Social Privado na América Latina”.

O estudo inclui uma visão geral sobre o tema na região, além de relatórios específicos do Brasil, Argentina, Chile, Colômbia, México e Peru. Ela é resultado de uma série de entrevistas realizadas com 67 líderes filantrópicos, 25 especialistas e pesquisadores acadêmicos e uma pesquisa online com 81 entrevistados. O material está disponível para consulta no Sinapse do GIFE (clique aqui).

A pesquisa destaca que, na América Latina, a filantropia e os investimentos sociais estão aumentando, ganhando visibilidade e tendo cada vez mais impacto, resultado do surgimento, nas últimas décadas, de democracias mais estáveis, crescimento econômico substancial e progresso social significativo. Esse crescimento econômico resultou na acumulação considerável de riquezas privadas: entre 2004 e 2014, o número de pessoas na América Latina caracterizadas com patrimônios elevados (aquelas com patrimônio líquido de US$30 milhões) aumentou de menos de 4 mil para quase 10 mil pessoas, um aumento de 161% comparado com a média global de 61% no mesmo período.

No entanto, os desafios sociais e econômicos continuam e os governos da América Latina, como os das demais regiões do mundo, não têm demonstrado capacidade em atender as necessidades de todos os seus cidadãos. “Portanto, as pessoas com patrimônio elevado se tornaram cada vez mais importantes no atendimento das necessidades de desenvolvimento econômico e social”, aponta o estudo.

Segundo Kai Grunauer Brachetti, diretor de Filantropia e Investimentos Baseada em Valores da UBS, é evidente nos países latinoamericanos de que os indivíduos e as famílias com patrimônio elevado estão cada vez mais interessados em converter uma parte dessa riqueza em capital filantrópico.

Porém, é possível perceber uma mudança marcante e promissora nas doações de caridade: pessoas e famílias com patrimônio elevado estão procurando doar cada vez mais estrategicamente e ter maior impacto com seus investimentos sociais. Muitas têm o objetivo de migrar da “caridade para mudança”, de “sucesso econômico para significância social” e de “prosperidade para propósito”.

Apesar dessas tendências, há ainda relativamente pouco conhecimento empírico sobre a doação realizada. Por isso, nós acreditamos que este estudo pode contribuir para fazer avançar a compreensão, prática e impacto da filantropia na América Latina, melhorando o conhecimento em torno de questões principais que venham das ferramentas e recursos que possam aumentar e fortalecer o impacto destas iniciativas”, disse Kai.

Ensinamentos-chaves

O relatório traz 15 ensinamentos-chaves a respeito de três aspectos sobre o tema na região: prioridades e motivações filantrópicas; plataformas e estratégias; e o ambiente para a filantropia e o investimento social.

Em relação ao primeiro tópico, a pesquisa identificou que a filantropia e os investimentos sociais são movidos por questões internas (as doações são vistas como uma responsabilidade social e moral, intrinsecamente ligadas a valores familiares e princípios da fé, assim como a paixões e experiências pessoais) e por influências externas (desejo de contribuir para o avanço positivo de seus países, assim como as metas empresariais e práticas globais de filantropia, junto a ação de cidadãos, também influenciam as doações).

Sobre as prioridades, a “Educação” apareceu como o foco mais importante, seguido pela herança cultural e artística, equidade na saúde e desenvolvimento comunitário. No entanto, foi possível perceber que as prioridades futuras são diferentes das áreas que estão sendo financiadas. Isso porque, ao serem solicitadas a pensar sobre os mais importantes papéis no futuro, para a filantropia na sociedade, existem fortes semelhanças e notáveis diferenças em relação às doações atuais. Assuntos como empreendedorismo social e temáticas relacionadas ao mundo, que para muitos não fazem parte do foco atual, são vistos como altas prioridades para os próximos anos.

Isso pode ser um sinal de que a filantropia na América Latina está mudando e saindo de uma abordagem tradicional”, acredita o diretor da UBS.

Outro aspecto observado é que o escopo da filantropia está se ampliando, ou seja, passando da caridade para doações que visam promover mudanças sociais, assim como uma abordagem baseada em resultado para os investimentos sociais. Na avaliação de Kai, entre os principais avanços na área está justamente esse interesse genuíno para profissionalizar as iniciativas filantrópicas e medir o impacto das ações.

A respeito das plataformas e estratégias filantrópicas, o estudo aponta que o número de instituições filantrópicas institucionais está claramente aumentando, com pessoas, famílias e empresas procurando uma abordagem mais estratégica, maior visibilidade, mais fácil colaboração e maior impacto em seus investimentos.

Na América Latina, há uma visão em todos os países de que as doações de empresas dominam a filantropia institucional e que, olhando para o futuro, a maior parte do crescimento e da liderança continuará a vir do setor empresarial. Segundo o estudo, parece haver uma maior aceitação pública de investimentos sociais empresariais do que de investimentos sociais de pessoas físicas. Porém, em empresas familiares, os programas filantrópicos são frequentemente dirigidos pelos seus proprietários e podem refletir tanto valores e prioridades pessoais, como valores e prioridades empresariais.

Outro ponto observado pela pesquisa é que as pessoas e as instituições filantrópicas empregam um misto de estratégias de investimento, incluindo programas operados por fundações, donativos para outras organizações, bolsas de estudo e – mais raramente – investimentos em capital e empréstimos, com os programas operados por fundações recebendo a maior parte dos recursos.

“Os motivos para isso incluem a procura por máximo impacto, falta de confiança generalizada na sociedade civil e busca da realização pessoal no engajamento direto com comunidades ou pessoas”,enfatiza o estudo, destacando que os recursos recebidos pelas instituições filantrópicas vem de várias fontes: pessoas, membros de famílias e/ou lucros de empresas e que fundos patrimoniais não são comuns.

O último aspecto levantado pela pesquisa – ambiente para filantropia e investimentos sociais – destaca que estima-se que as doações na América Latina estejam aumentando, apesar de não serem proporcionais ao nível da riqueza privada, e que em quase todos os países, o ambiente regulatório e fiscal é visto como sendo restritivo e nada amigável para o desenvolvimento de um forte setor filantrópico. No entanto, as opiniões levantadas pelo estudo sobre o real impacto do ambiente regulatório variam.

Outro ponto central apontado pelos investidores sociais é o reconhecimento da importância de parcerias para alcançar seus objetivos, mas a dificuldade em se criar, administrar e sustentá-las, e que a colaboração com o governo, especialmente no nível regional e local, pode ser difícil, em parte devido à corrupção.

O ambiente na América Latina tem se tornado favorável também para os investimentos de impacto, definidos como investimentos em empresas, organizações e fundos com a intenção de gerar impactos sociais e ambientais com um retorno financeiro. Segundo a pesquisa, ao longo da última década, o cenário regional cresceu de dois ou três players internacionais que investiam na região, para mais de 50 organizações, com centros de atividade em Bogotá, Cidade do México e São Paulo, além de um capital compromissado de US$ 2 bilhões até 2013.

E, por fim, o último aspecto dos “ensinamentos-chaves” é de que, em diversos países, existem grandes organizações de infraestrutura que apoiam a filantropia e investimentos sociais, fornecendo serviços, reunindo instituições filantrópicas isoladas e/ou pessoas, dando-lhes oportunidades para aprender com seus pares e encorajando a colaboração.

Desafios e próximos passos

Na avaliação da USB sobre os desafios ainda a serem superados para que a filantropia se amplie na América Latina, aparecem questões como a falta de confiança no setor sem fins lucrativos, a política fiscal e o ambiente desfavorável para estas práticas. “Aponto ainda a falta de modelos que sirvam de base às iniciativas e a incerteza na sociedade em geral sobre o papel e o impacto da filantropia”, comenta Kai.

A partir do estudo lançado, a UBS pretende realizar outras iniciativas, como a organização de um Relatório de Referência Global de Filantropia, para comparar os dados de todo o mundo, também a ser feito em colaboração com a Universidade de Harvard.

Em relação ao Brasil, o diretor da UBS destaca que foi possível perceber o forte interesse para aumentar o papel da filantropia no país, realizando as seguintes ações: demonstração de impacto, desenvolvimento na capacidade e confiança nas ONGs, visibilidade às histórias de sucesso e criação de consciência sobre o que a filantropia pode desempenhar na sociedade.

Na avaliação de Beatriz Gerdau, presidente do Conselho de Governança do GIFE, o material traz um mapeamento interessante sobre o cenário na América Latina e, agora, o GIFE irá se aprofundar os dados sobre o investimento social familiar. “Vemos a importância de ajudar também a organizar as pequenas entidades familiares, a fim de que possam sair do modelo da caridade para uma filantropia mais estratégica”, comenta.

 

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