Plataforma Captamos nasce com o desafio de qualificar profissionais de captação de recursos

O campo social brasileiro não para de se movimentar no sentido de oferecer soluções inovadoras para qualificar o trabalho de captação de recursos em organizações sociais e promover a cultura da doação no país. Nesse sentido, acaba de ser lançada a plataforma Captamos, um espaço para a troca de conhecimento sobre financiamento de causas e mobilização de recursos. O formato é inédito no Brasil.

A iniciativa é da Associação Brasileira de Captadores de Recursos (ABCR) em parceira com diversos atores do campo social brasileiro. A origem do projeto se deu quando, em abril de 2015, o Instituto Arapyaú convidou lideranças do terceiro setor para discutir quais iniciativas eram necessárias para fortalecer a cultura de doação e a captação de recursos no país. Depois de muito diálogo, uma das soluções apontadas foi a criação de um espaço capaz de qualificar profissionais da área e promover a troca de experiências sobre o tema no Brasil.

De acordo com João Paulo Vergueiro, diretor executivo da ABCR, o cenário brasileiro de captação de recursos ainda é tímido se comparado a outros países e enfrenta dificuldades. “A estimativa é de que hoje existam cerca de 300 mil ONGs no país e somente 24% delas tenham área de captação de recursos estabelecida. Isso dificulta a manutenção de projetos importantes”, avalia.

Em tempos de disseminação de conteúdos pouco qualificados nas redes, é fundamental saber onde encontrar informação segura. Preocupada com a questão da relevância e qualidade do conhecimento disponibilizado, a Captamos reuniu um time de especialistas e organizações protagonistas no terceiro setor para balizar o trabalho da plataforma.

Todo o conteúdo – incluindo os cursos – é gratuito e desenvolvido por uma equipe de profissionais especializados, com apoio de professores e articulistas voluntários. Outro princípio que orienta o projeto é o da interatividade: o formato abre espaço para os usuários contribuírem com sua própria experiência em tempo real.

“Inicialmente as notícias e artigos serão atualizados semanalmente. Cursos, cases e infográficos serão mensais. Cada curso tem duração de até 40 minutos e pode ser feito rapidamente, contando com uma videoaula, um texto adicional para leitura, um exercício e um fórum de discussão. Tudo gratuito”, explica Vergueiro.

Marcelo Furtado, diretor executivo do Instituto Arapyaú, avalia que a iniciativa tem potencial para movimentar o setor. “Entendo que se trata de uma excelente oportunidade para os dois lados da mesa: é bom para quem capta recursos e também muito bom para o doador.”

Furtado explica que por trás do aparato tecnológico que leva informação a uma série de pessoas estão dois conceitos norteadores: inovação e qualificação da demanda. “Ao estimular que as organizações sociais façam sua captação de recursos com mais tecnologia, mais eficácia, estamos fomentando a ideia de sustentabilidade financeira. Trata-se de uma iniciativa que fortalece o nosso setor.”

O diretor do Instituto Arapyaú também chama a atenção para o sentido democrático da plataforma e para sua capacidade de criar pontes entre investidores e organizações das mais diversas naturezas. “Qualquer organização, de qualquer tamanho e localidade, pode acessar este conhecimento compartilhado. É uma troca constante entre organizações de ponta e instituições de pequeno porte.”

Ele explica que é a ideia de descentralizar – tanto investimentos como o debate no campo social – é um princípio urgente. Furtado lembra que boa parte do recurso ainda está concentrada nas grandes capitais brasileiras.

Dividida em três grandes segmentos, a plataforma apresenta uma área – Inspire-se – com conteúdos informativos e que buscam a reflexão sobre temas da atualidade. Já no espaço Aprenda os usuários poderão fazer cursos e acessar repertórios mais técnicos. Por fim, na aba Compartilhe a comunidade poderá trocar experiências, enviar dúvidas e estabelecer relacionamentos.

“A nossa avaliação [no Arapyaú] é que uma democracia sólida exige alguns elementos-chave, como uma sociedade civil engajada, bem informada, capaz de oferecer respostas a demandas da atualidade. Nesse sentido, a plataforma é mais uma iniciativa para fortalecer o campo social no Brasil.”

Rodrigo Alvarez, sócio-diretor da Mobiliza e articulista voluntário da Captamos celebra o lançamento de mais este espaço. “A plataforma é um marco no desenvolvimento dessa atividade profissional, que buscamos organizar e desenvolver no Brasil há quase 20 anos. Espero que também seja um espaço para ampliar a discussão sobre o papel do setor sem fins lucrativos no Brasil nos tempos de hoje. Temos que atuar com eficiência na captação de recursos, mas também garantir que a imagem e o papel da ONGs seja ressignificado e atualizado, tanto por quem trabalha nas ONGs quanto pela sociedade como um todo.”

Cultura da doação no Brasil em debate

Considerada uma das agendas estratégicas para o GIFE, a ampliação da cultura da doação no investimento social privado é um tema que merece ampla discussão no setor. Em suma, o que se busca é criar iniciativas capazes de favorecer e ampliar o potencial filantrópico da sociedade por meio do fomento à cultura de doação – e nesse sentido a Captamos tem uma contribuição relevante a oferecer.

Confira episódio sobre o tema da série COMUM:

 

Na linha das doações individuais, o Brasil ainda tem muito a crescer. De acordo com a pesquisa Doação Brasil, realizada pelo Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (IDIS), a destinação de recursos de pessoa física a organizações sociais totalizaram R$ 13 bilhões e 700 milhões em 2015. O número é relevante, porém discreto se comparado a outros países, como os Estados Unidos, onde os cidadãos doaram R$ 1 trilhão a ONGs ano passado.

“A realidade é que uma boa parte dos brasileiros, capaz de contribuir com a outra parcela, mais vulnerável, ainda não sabe como o fazer. E esta plataforma ajuda a conectar estes dois mundos. Além de favorecer um modelo de trabalho com técnica, controle, prestação de contas e transparência”, analisa Furtado.

Para ele, o campo para captação de recursos com indivíduos é promissor.  “Nunca foi tão fácil [contribuir com uma causa]. Percebo que a ideia de que ‘sou capaz de fazer a diferença’ tem ganhado força. Quando cada um de nós apoia, contribui com o campo social, estamos ajudando a construir um país melhor.”

Alvarez concorda e aponta o captador de recursos como um personagem central nessa história. “A cultura de doação tende a aumentar se aumentamos a cultura da solicitação. Um país com profissionais de captação de recursos mais capazes e mais influentes tende a desenvolver mais e melhores doadores. Claro que isso não caminha sozinho, mas é um dos pilares fundamentais para a construção da cultura de doação no Brasil.”

 

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