Pluralidade de caminhos marcam o alinhamento entre investimento social e o negócio, apontam especialistas

 

“O investimento social deve ser capaz de movimentar a empresa, na sua integralidade, para a produção de bens públicos e geração de impacto social”. Essa é a visão do GIFE quando o assunto em pauta é o ‘alinhamento entre investimento social e o negócio’, tema cada vez mais recorrente no debate do ISP, e que se tornou agenda estratégia da organização.

Rafael Gioielli, gerente geral do Instituto Votorantim, lembra que o alinhamento sempre existiu, tendo em vista que, quando a empresa toma a decisão de fazer o investimento social, é porque vê valor alinhado à sua estratégia. “A grande mudança, no entanto, é o novo lugar que o social assume dentro das agendas de negócio. E nesse sentido o investimento social ganha outra relevância para as empresas, seja porque elas são parte dos problemas, seja porque são parte da solução”, disse em depoimento ao oitavo episódio da websérie COMUM, que acaba de entrar no ar no canal do Youtube do GIFE.

Aron Belinky, professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV-EAESP), completa a ideia ao afirmar que esse valor compartilhado é a aposta de que se pode encontrar soluções e focos de investimento que geram benefício tanto para o bem público quanto para a empresa: “Em função disso, se busca de várias maneiras conectar a agenda do instituto ou da fundação, que está atuando no campo, e da empresa que está financiando a iniciativa”.

E essa percepção, inclusive, dos vários caminhos possíveis, foi que o pesquisador e consultor Rafael Oliva encontrou durante sua pesquisa para a elaboração da publicação Alinhamento entre o investimento social privado e o negócio, lançada pelo GIFE durante o Congresso de 2016.

A pesquisa contou com uma escuta atenta, encontros com grupos de associados, entrevistas com representantes de empresas e especialistas, além de dados do Censo GIFE. A proposta foi identificar modos como instituições pensam e processam a prática do alinhamento.

“O estudo foi pensado para endereçar essa percepção difusa de uma pluralidade de entendimento e também para trazer mais reflexão dos caminhos possíveis que vêm sendo vivenciados pelos diversos institutos e fundações nessa relação com as empresas. A proposta foi fazer um mapeamento conceitual e ver de que maneira isso se reflete nas práticas dos investidores sociais”, comenta Rafael.

Segundo o consultor, é importante frisar que não há um modelo único, um manual, um conjunto concreto de boas práticas. Existem muitas visões e vários modos de pensar a questão. O estudo fala em alinhamentos, no plural, modalidades de aproximação entre os dois lados: o interesse empresarial e o interesse público.

Há um grupo, por exemplo, que vê o ISP como um ator que pode influenciar na construção da visão estratégica da empresa, trazendo uma perspectiva socioambiental para o negócio.

O segundo grupo aponta que o ISP deve produzir e gerar valor para a empresa. Ou seja, ele precisa desenvolver iniciativas que possam produzir retornos tangíveis para o negócio, sejam eles de imagem, relacionamento, motivacionais etc. Há outra perspectiva que compreende os institutos e fundações como um lócus de inteligência social e, a partir disso, podem incentivar inovações de produtos e serviços para o negócio, inspiradas por preocupações socioambientais.

E, por fim, um grupo que resiste em fortalecer essa aproximação e defende a ideia de que as empresas e os institutos/fundações devem ser mantidos separados, a fim de que o ISP não seja colocado em risco.

Diante dessa pluralidade, a aposta, segundo o especialista, é que cada instituição identifique oportunidades frentes aos vários caminhos existentes e, partir da sua realidade, definam a maneira que pretendem estabelecer esse alinhamento, e se pretendem.

Caminhos

Os diversos caminhos para esse alinhamento, por exemplo, foram destaques das conversas que nortearam a mesa “Entre o público e o privado: dilemas do alinhamento entre o investimento social e o negócio”, realizada durante o Congresso GIFE (clique aqui para assistir ao vídeo completo).

Na ocasião, Daniela Redondo, diretora executiva do Instituto Coca-Cola Brasil, contou que, para a empresa, o investimento social privado deve estar muito próximo da cadeia de valor da companhia. “Um dos nossos desafios era escala, por exemplo. Então, olhando para o alinhamento, começamos a usar os ativos do negócio para gerar valor social e escala. Assim começamos a construir esse case há seis anos.”

Entre outros aprendizados, ela destacou a importância do envolvimento da alta liderança e dos conselhos para grandes tomadas de decisões. Contudo, apesar de toda a abertura para participação, afirmou: “A palavra final, quando a questão diz respeito ao beneficiário, é do Instituto e não do negócio.”

Eduardo Saron, diretor do Instituto Itaú Cultural, ressaltou também a importância de entender os diferentes perfis de empresa – e como isso deve impactar o alinhamento. Segundo ele, em organizações menores, de atuação local, o investimento social acontece mais dentro do seu próprio mercado, é mais instrumentalizado. Já no caso de grandes companhias, espera-se um investimento mais reputacional, ligado a grandes causas, mais estratégico. A própria sociedade cobra isso.

Nessa segunda linha, ele destacou a importância do diálogo entre os dois lados da parceria. “A inteligência e a experiência acumulada dos institutos e fundações nos coloca em um patamar de igualdade para discutir questões estratégicas com o tomador de decisão. Estou falando sobre a importância do diálogo. Precisamos aprender a trabalhar na perspectiva da empatia. Temos que tratar o core business e a causa na mesma dimensão.”

Novos estudos

Em setembro, o GIFE, em parceria com a FGV e o Instituto C&A, irá lançar um novo estudo a respeito do tema.

A pesquisa, que está em fase de redação, tem três frentes de análise, e envolveu mais de 50 pessoas em entrevistas, questionários e grupos focais. A primeira frente investiga de que forma o fenômeno do alinhamento se conecta e se reflete em um contexto macro econômico e social. Já a segunda exemplifica e explicita as formas e os tipos de alinhamento que estão se desenvolvendo no cotidiano, apontando as tendências. E, a terceira, reflete de que forma esse alinhamento funciona como um tencionador, ou seja, como as iniciativas dos institutos e fundações de uma empresa podem refletir na sua gestão empresarial.

“Percebemos que o tema é complexo, mas está muito vivo e em pleno desenvolvimento. O Congresso GIFE, inclusive, reforçou a importância e a relevância deste assunto na interface entre empresas mantenedoras e seus investidores sociais, principalmente”, comenta Lívia Menezes Pagotto, do Gvces.

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