Prêmio Empreendedor Social celebra o trabalho de profissionais inovadores do campo social

Na última segunda-feira (7), o Brasil conheceu os vencedores da 12ª edição do Prêmio Empreendedor Social, uma parceria do jornal Folha de São Paulo com a Fundação Schwab. A iniciativa reconhece o trabalho de pessoas que se dedicam ao campo social e contribuem para a valorização do empreendedorismo voltado para causas. Em evento realizado no Teatro Porto Seguro, em São Paulo, os vencedores receberam seus prêmios.

Na categoria principal, o vencedor foi o analista de sistemas Carlos Pereira, criador do Livox. Ele é um aplicativo que permite a comunicação de pessoas com deficiências ou doenças que afetem a fala. O reconhecimento ganhou tons de emoção já que o empreendedor iniciou essa jornada para poder se comunicar com a filha, que tem paralisia cerebral. Muito emocionado, Carlos dividiu a conquista com todas as pessoas com deficiência.

A ideia da Livox nasceu em 2011 como uma startup em Recife (PE). O aplicativo de comunicação alternativa, que pode ser rodado em tablets e smartphones, já ajudou mais de 20 mil pessoas que vivem com autismo, ELA (Esclerose Lateral Amiotrófica) ou alguma sequela de AVC (Acidente Vascular Cerebral).

Com a consolidação do projeto, a iniciativa começou a chegar a escolas municipais do Recife e às Apaes (Associações de Pais e Amigos dos Excepcionais). Estima-se que o projeto tem potencial de impactar cerca de 15 milhões de brasileiros com dificuldades de fala.

Carlos Pereira conquistou o prêmio após concorrer com mais de 145 inscritos (considerando as duas categorias). Com o reconhecimento, o empreendedor passa a integrar a Rede Folha de Empreendedores Socioambientais. Além disso, passa a ter acesso a cursos e capacitações.

Em entrevista ao jornal Folha de São Paulo, Carlos comentou que vai continuar trabalhando para impactar ainda mais pessoas. “Me sinto honrado de ter sido escolhido. Estou surpreso [com a conquista] devido à qualidade das outras iniciativas. A Rede Schwab é muito grande e o prêmio é bastante prestigioso.”

Atualmente a Fundação Schwab gere a maior rede de empreendedores sociais do mundo. Ao todo, mais de 320 organizações sem fins lucrativos fazem parte. Elam atuam em mais de 60 países em questões como energias renováveis, água e saneamento, inclusão financeira, emprego, acesso à saúde e à educação.

O empreendedor se junta agora a um grupo de premiados do qual fazem parte importantes nomes do campo social brasileiro. Entre eles Tião Rocha, do Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento (CPCD), Claudio e Suzana Padua, do Instituto de Pesquisas Ecológicas (Ipê), Sergio Andrade, da Agenda Pública, e David Hertz, da Gastromotiva.

Voto popular

Na votação popular, os vencedores foram Jonas Lessa e Lucas Corvacho, da Retalhar. Eles foram eleitos com 24,9% dos votos. De acordo com a organização, participaram do processo mais de 150 mil pessoas durante o período de 27 dias em que a enquete ficou no ar.

A Retalhar é um negócio socioambiental que promove a inclusão social e produtiva de pessoas a partir do descarte de uniformes. Apoiando grupos de costura a fortalecerem seus negócios com a reutilização de materiais têxteis, a organização gera alternativas para a destinação deste tipo de resíduo sólido.

Empreendedor Social de Futuro

A cerimônia também destacou o mais novo – ou a mais nova – empreendedor(a) social de futuro. A categoria é destinada a jovens de até 35 anos.  Nesta edição, a premiada foi Nina Valentini, do Movimento Arredondar, associado do GIFE. A iniciativa atua estimulando o arredondamento voluntário de centavos por parte do consumidor na hora da compra para financiar o trabalho de organizações sociais. Um trabalho inovador no fortalecimento da cultura da doação no Brasil.

Confira a entrevista completa realizada pelo redeGIFE com a empreendedora:

GIFE – Aproveitando esse momento tão especial, que tal voltarmos um pouquinho no tempo? Quando surge a vontade de atuar no campo social? Que reflexão você faz desta trajetória até agora?

Nina Valentini – É difícil saber quando começou minha vontade de atuar no campo. Eu realmente nunca me vi fora da área de impacto. Fui estimulada desde cedo pela minha família e nossa rede de amigos a estar próxima de causas sociais – meus pais sempre trabalharam com isto. Então, participei desde cedo de orçamentos participativos, viajei para conhecer iniciativas, e nem sabia que isso tudo era o campo da área pública e social. Eu quis fazer cinema para divulgar organizações de impacto, por exemplo, e caí na Administração Pública por acaso, mas quando visitei a faculdade, não tive dúvida que meu lugar era ali.

GIFE – Ou seja, alguns acasos, mas também muita dedicação…

Nina Valentini – Sim. Fazendo uma reflexão sobre a trajetória, acho que tive muita sorte – por gostar tanto do que faço e do campo em que trabalho e, ao mesmo tempo, ter tido acesso e oportunidade de me aprofundar pelo contexto familiar em que vivi. Meus pais trouxeram para minha vida empreendedores que admiro profundamente. Eu só entendi a dimensão do impacto deles, no entanto, quando fui conhecer e ser voluntária de alguns projetos. A capacitação e formação são constantes, mas aprendi muito na faculdade, e depois continuei me aprofundando com mentoria, cursos e coaching.

Não existe sorte sem trabalho duro, e trabalhei muito nos últimos dez anos para aprender sobre organizações e negócios de impacto. Me aprofundei no tema, mergulhei de cabeça mesmo. Ainda estou longe do impacto que quero causar, mas tenho consciência que na área social as transformações levam tempo. Não é diferente quando estamos falando em uma mudança de cultura de doação.

GIFE – Até que chega o dia em que você é reconhecida em um dos mais importantes prêmios do Brasil. Dá pra fazer uma análise deste momento?

Nina Valentini – Estou muito feliz com o reconhecimento. Ele é fruto de um trabalho árduo de todo nosso time, conselheiros e parceiros. É um reconhecimento ao Arredondar, de uma rede que se construiu e está começando a mostrar seus resultados agora. Representa, para nós, um novo momento. Estamos começando a ganhar escala e começando a transformar ainda mais as organizações que apoiamos. É para isso que existimos e contar com os apoios que o Prêmio oferece, a visibilidade ao projeto, nos ajuda a levar o conceito a mais e mais pessoas.

GIFE – Olhando para o campo, para o empreendedorismo social, você acredita que o Brasil tem boas referências? Além de pessoas que desejam empreender, temos apoio para projetos nessa linha?

Nina Valentini – Acredito que o campo de empreendedorismo social tem se profissionalizado muito nos últimos anos. No entanto, há bastante espaço para desenvolvimento. Ainda existem poucos financiadores que apoiem ideias novas. O recurso tende a ser mais direcionado para organizações com foco em trabalhos comunitários, por exemplo. Há necessidade de criarmos novas formas de apoio a organizações de empreendedores sociais com recursos institucionais, e ampliar o horizonte desses empreendedores para que aumentem a escala de seus trabalhos. A cultura de doação é fundamental para isso.

GIFE – Temos comunicado bem esses desafios?

Nina Valentini – Acredito que a mídia ainda fala muito pouco do que está mudando. Organizações com trabalhos relevantes não têm espaço. O Prêmio da Folha, ao avaliar as organizações com apoio da Plano CDE, quebra essa lógica. Coloca em pauta o Brasil que está mudando.

Para acompanhar toda a cobertura da iniciativa, acesse a página do prêmio.

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