Proteção Social e Econômica é um dos temas de atuação dos investidores sociais privados frente à crise

O equilíbrio entre as medidas necessárias para prevenção e tratamento da Covid-19 e aquelas para preservação de empregos e renda tem dividido a opinião de autoridades e especialistas. Muitos garantem, no entanto, que o dilema entre saúde e economia não tem razão de ser, já que ambas as áreas estão intrinsecamente relacionadas, têm sido amplamente afetadas e delas depende a vida da população.

Estimativas feitas ainda no início da crise já previam que a pandemia poderia duplicar o número de desempregados no Brasil, passando de 11,6% para 23,8%, o equivalente a 12,6 milhões a mais de pessoas sem trabalho.

O índice chegou a 12,2% no primeiro trimestre de 2020, o equivalente a 12,85 milhões de desempregados, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad Contínua), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgados no final de abril. Mais de dois milhões de pessoas deixaram de trabalhar entre o final de 2019 e o começo de 2020. Os números do IBGE apontam que informais foram os mais atingidos.

De acordo com a Secretaria de Trabalho do Ministério da Economia, os pedidos de seguro-desemprego de trabalhadores com carteira assinada subiram 22,7% em abril em relação ao mesmo mês do ano passado, totalizando mais de 748 mil solicitações. Já a primeira parcela do auxílio emergencial de R$ 600 (R$ 1,2 mil para mães solteiras chefes de família, que têm direito a duas cotas) do governo federal foi paga a mais de 46 milhões de brasileiros.

O tema Proteção Social e Econômica é justamente um dos eixos prioritários da Emergência Covid-19 – Coordenação de ações da filantropia e do investimento social em resposta à crise. Uma iniciativa do GIFE junto a associados e parceiros, a ação tem como objetivo facilitar e coordenar a atuação da filantropia e do investimento social privado (ISP) para responder à situação de emergência vivida no país.

Além da elaboração de um documento que reúne diretrizes para a atuação do setor, um grupo de trabalho composto por representantes de fundações, institutos, empresas e outros investidores sociais tem se reunido para mapear e debater as ações possíveis para o enfrentamento da pandemia.

Já foram mapeadas mais de 50 iniciativas e 160 fundos e campanhas de emergência promovidas e/ou fortalecidas pelo setor. Com base nesse mapeamento, o GIFE identificou os principais eixos de atuação dos investidores, que se dividem entre trilhas imediatas e de médio e longo prazo para responder aos impactos da crise em áreas e públicos diversos.

Proteção Social e Econômica

O segundo eixo da iniciativa, Proteção Social e Econômica, se atém a doações e mobilização de recursos para ações de proteção voltadas a comunidades vulneráveis e segmentos sociais mais atingidos pela perda de renda em função da crise.

A atuação do setor neste eixo tem resultado na distribuição de itens básicos de alimentação e higiene ou dos meios para adquiri-los e na colaboração com políticas e serviços públicos de garantia de renda e assistência social nos vários níveis de governo.

Conectando doadores a OSCs

A plataforma Movimento Família Apoia Família, por exemplo, convoca as famílias brasileiras a doarem nesse momento de crise. A iniciativa conecta doadores a organizações da sociedade civil (OSCs) que têm atuado para viabilizar cestas básicas a famílias em situação de vulnerabilidade econômica e social.

“Nossa intenção é que todos consigam visualizar, em todo o Brasil, quem está precisando de apoio e quem já conseguiu bater sua meta. A plataforma é uma ferramenta para uma doação mais estratégica e articulada. Por meio dela, as OSCs também podem saber do trabalho umas das outras e se ajudar. É um ponto de encontro, uma campanha mobilizadora e um painel para acompanharmos a evolução dessa linda rede de solidariedade que está se formando no país”, explica Danielle Fiabane, assessora executiva do Instituto ACP, parceira da iniciativa.

A assessora conta que mais de R$ 4 milhões foram doados pela família fundadora do Instituto ACP e outras famílias empresárias. No total, a iniciativa já mobilizou mais de R$ 8 milhões e conta ainda com o apoio de institutos, fundações e empresas que têm ajudado a divulgar a plataforma, convidando organizações e doadores e também direcionando recursos financeiros por meio da ferramenta.  

“Essa iniciativa tem como foco o apoio emergencial, mas também temos convidado as organizações a apresentarem campanhas que considerem apoiar as famílias por um período de ao menos três meses. Também já estamos pensando em como dar sequência à plataforma no cenário futuro, a fim de colocá-la a serviço das OSCs e dos doadores nos próximos meses”, conta Danielle.

Apoio a provisão e identificação de vulneráveis

O Instituto Unibanco é outra instituição do ISP que tem desenvolvido ações de auxílio emergencial a milhares de famílias em situação de vulnerabilidade, somando esforços às diversas ações de distribuição de cestas básicas, produtos de higiene e refeições – essas últimas especialmente para as populações em situação de rua -, de transferência de renda por meio de cartões físicos e virtuais, além do apoio ao governo federal no cadastramento para repasse do auxílio emergencial e distribuição de kits de inverno. A estratégia está prevista por um período de cinco meses e é realizada em parceria com organizações locais.

“No atual contexto, temos procurado também fortalecer e legitimar a atuação desses importantes agentes sociais. Por seu vasto conhecimento dos territórios e atuação em rede com outras organizações e coletivos, as OSCs são capazes de entregar os produtos com muito mais agilidade e capilaridade e de maneira assertiva. O fortalecimento dessas organizações precisa e deve ser contínuo, dado que a economia não voltará a se restabelecer tão rápido e também não sabemos em quais condições”, observa Tiago Borba, gerente de planejamento e articulação institucional do Instituto Unibanco.

Articulação estratégica

Assim que a epidemia do novo coronavírus chegou ao Brasil, o setor do ISP rapidamente se articulou para uma atuação conjunta e estratégica, a exemplo da iniciativa de articulação e colaboração promovida pelo GIFE.

Na análise de Danielle, entretanto, o momento requer soluções rápidas e dentro das possibilidades de funcionamento e cultura de cada um dos atores.

“A ação conjunta não será tão articulada quanto pensávamos ser possível. Sinto que a soma dos esforços gerará, organicamente, a inteligência necessária, com limites e externalidades inerentes”, afirma.

Para Tiago, os encontros semanais do grupo de trabalho promovidos pelo GIFE são importantes para conectar e fortalecer essa rede de atores. “Esse espaço para o compartilhamento das experiências possibilita aprendizados em tempo real e, com isso, maior agilidade no encaminhamento das ações de curto prazo.”

O gerente destaca também a importância de debater ações de médio e longo prazo entre os associados ao GIFE a fim possibilitar a projeção de cenários e de reforço da atuação do setor.

“Em um primeiro momento, planos de ação com aspecto emergencial e em larga escala, como pede a crise atual, são fundamentais para desenvolver atividades que ofereçam apoio imediato, com abrangência e capilaridade, a quem mais precisa. Nesse sentido, a coordenação entre institutos e fundações para aumento da escala e da velocidade das ações e diminuição de riscos de sobreposição é fundamental. Mas, não podemos nos esquecer que os impactos são grandes e duradouros, portanto, são necessários planos de ação também para o médio e longo prazo.”

Horizonte futuro

Para Danielle, permanece o papel do setor de financiador, articulador e produtor de conhecimento e inovação. Mas, é fundamental que os investidores sociais privados convoquem a população para também exercer esse papel de doador, a fim de potencializar a cultura de doação no país.

“A atuação do ISP ganha relevância em razão da urgência e da gravidade dos efeitos sociais, econômicos, políticos e ambientais da pandemia e o setor deve usar isso como força impulsionadora de transformações culturais. Nesse sentido, é importante voltarmos nosso olhar mais à frente e, ao mesmo tempo, registrar nossos aprendizados.”

Com o que concorda Tiago. “Vemos esse contexto de crise como uma oportunidade para que o ISP, a partir do GIFE, aprimore e consolide seu importante papel na agenda pública brasileira. Acreditamos que iniciativas que buscam aumentar as redes de apoio a organizações da sociedade civil, de diferentes portes e atuação, podem contribuir muito com o desenvolvimento do setor, trazendo aprendizados para todos e mais integração diante dos desafios postos. Essa poderia ser uma das premissas para o desenho e atuação do setor nos próximos tempos.”

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