Quais são as características de uma boa atuação em rede no terceiro setor?

Atuação em rede: conheça essa estratégia de ação

A união faz a força. A frase é um clichê, mas descreve com exatidão uma das estratégias mais bem sucedidas do terceiro setor: a atuação em rede. Os enormes desafios socioeconômicos brasileiros exigem respostas que só podem ser dadas quando se atua em conjunto. E isso foi ainda mais verdadeiro diante da magnitude da crise decorrente da pandemia. Mas o que significa exatamente atuar dessa maneira?

“A articulação em rede é básica para o terceiro setor, pois ele precisa de representatividade. Quando há um conjunto de organizações trabalhando um mesmo tema e fazendo propostas conjuntas, elas potencializam seus recursos e há muito mais facilidade de ser ouvido”, diz Jair Resende, superintendente socioeducativo da Fundação FEAC que, desde a década de 1960, articula uma rede de organizações em Campinas.

O pioneirismo da FEAC nesse campo é uma exceção. Atuar em rede é algo que se tornou mais aceito pelos investidores sociais só no fim da década de 1990, pois foi preciso superar a ideia de que uma atuação forte só é possível numa estrutura claramente hierárquica, sob uma liderança bem definida.

A consultora para o terceiro setor Célia Schlithler estuda a atuação em rede e já ajudou a formar dezenas delas, lidando com os mais diferentes temas. “A grande diferença para outras estruturas é que ela não é hierárquica. É essencial que as pessoas se conectem de maneira horizontal, ressaltando seu aspecto de colaboração e cooperação.” Isso na prática significa que qualquer organização participante pode propor e realizar ações colaborativas.

Célia aponta que as mídias sociais ajudaram a derrubar mitos sobre a impossibilidade de uma rede mais horizontal. “A comunicação era um dos grandes desafios. A internet rompe o isolamento e fortalece processos de cocriação.”

Variedade de pontos de vista

Outra característica fundamental da atuação em rede é permitir a expressão dos muitos pontos de vistas existentes sobre um tema. Isso é ainda mais importante na hora de lidar com questões complexas.

“Ninguém é dono de todo o saber, cada pessoa tem a sua experiência e o seu conhecimento, que traz para os demais. Por isso, o diálogo é fundamental”, diz Vital Didonet especialista em políticas públicas para a primeira infância e membro da Rede Nacional Primeira Infância (RNPI), que congrega mais de 200 instituições que atuam com o tema em todo o Brasil.

Na prática, essa construção coletiva só é totalmente possível em uma rede horizontal, na qual todos os participantes têm a possibilidade de falar e de ser escutado.

A RNPI tem uma ampla diversidade de membros – entre os quais organizações da sociedade civil, instituições acadêmicas, representantes do poder público de instituições multilaterais, e das Nações Unidas que atuam na área dos direitos da criança. Foi a grande responsável pela movimento que culminou com a elaboração e a aprovação em 2010, do Plano Nacional pela Primeira Infância, que terá vigência até 2030, e que estabelece diretrizes e metas para a promoção dos direitos das crianças na primeira infância.

Vital conta uma história que ilustra bem a importância de que todos da rede tenham voz. “Alguém deu a ideia de ouvirmos as crianças durante a elaboração do plano. No início, achamos estranho esperar que crianças de 4 a 6 anos falassem sobre políticas públicas, mas uma organização da nossa rede tinha experiência na escuta de crianças e, com técnicas adequadas, foi possível receber sugestões valiosas e muito apropriadas delas.”

Pandemia e a atuação em rede

A rápida deterioração dos indicadores socioeconômicos trazida pela pandemia causou um chacoalhão na atuação em rede no terceiro setor. O resultado de certa forma equalizou relações de poder que antes estavam desbalanceadas.

O GIFE foi instituído oficialmente em 1995 para ser uma rede de fortalecimento do investimento social e da filantropia brasileira. Seus mais de 160 associados – entre empresas, institutos, fundações empresariais, familiares e independentes – constituem uma rede com vozes múltiplas que investem anualmente aproximadamente R$ 3 bilhões.

“Nos últimos anos, reforçamos os debates entre os associados sobre a importância de maiores aportes em organizações e causas diversas, focadas na atuação na ponta e que trabalham no enfrentamento aos desafios impostos pela crise atual. O resultado desse processo foi o aumento do diálogo entre parceiros e instituições e os valores repassados”, aponta Camila Aloi, gerente de relações institucionais do GIFE.

A emergência imposta pela Covid-19 desburocratizou processos e facilitou que os investimentos chegassem de forma mais rápida, segundo Camila. “O cenário impôs uma outra forma de apoio às instituições que atuam com projetos focados na diminuição das vulnerabilidades sociais”, conta.

A Fundação FEAC, que faz parte do GIFE, é uma dessas organizações que fortaleceu ainda mais a escuta de seus parceiros na ponta. Logo no começo da crise, em março de 2020, lançou a campanha Mobiliza Campinas para combater o aumento da insegurança alimentar.

Em 2021, criou um Comitê Executivo, trazendo as organizações parceiras da ponta para o centro da campanha. “Estruturamos melhor para haver a equalização de poder. Decidimos organizar isso em forma de rede até para o processo da tomada de decisão. As diretrizes do projeto passaram a ser definidas de forma colegiada”, diz Jair.

Para o representante da FEAC, a pandemia mostrou para todo o terceiro setor que é fundamental a atuação em rede, ainda mais em situações emergenciais, e devem sair fortalecidas no pós-pandemia. “Se realmente quiser um processo de transformação, todos os atores precisam ser considerados. O diálogo entre eles é o que cria pontos de conexão.”

Por Frederico Kling

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