Rede Temática de Leitura chama a atenção para a relevância do tema na sociedade brasileira

 

“A leitura e a escrita são os alicerces e os elementos constituintes pelos quais é possível conquistarmos a qualificação da educação no país. Sem isso, não será possível avançarmos”. Esse é o alerta de Ana Lúcia Lima, diretora do Instituto Paulo Montenegro, à urgência em discutir e promover ações efetivas neste campo no Brasil.

Afinal, o cenário não tem sido dos mais positivos no país. O Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf), por exemplo, mostrou que somente 8% dos brasileiros, entre 15 e 64 anos, são capazes de se expressar e de compreender plenamente. Isso se reflete, inclusive, na falta de leitores no Brasil. A pesquisa Retratos da Leitura do Brasil, lançada pelo Instituto Pró-Livro (veja detalhes no final desta matéria), apontou que 44% da população brasileira não lê e 30% nunca comprou um livro.

“Não temos a cultura da leitura no Brasil. Porém, os desafios atuais precisam de pessoas que saibam ser humanas para coexistir. E isso depende da nossa capacidade de acessar informações que estão escritas, estejam elas no papel ou no computador. Não importa qual seja o suporte, mas é preciso que exista essa cultura de leitura desde o berço e depois prossiga para toda a vida”, reforça Christine Fontelles, socióloga e consultora de educação do Instituto Ecofuturo.

A discussão levantada pelas duas especialistas, inclusive, foi uma das pautas do encontro da Rede Temática de Leitura e Escrita de Qualidade para Todos do GIFE, promovido no dia 23 de maio, em São Paulo. O grupo – que existe desde 2012 – se reuniu para planejar a atuação no ano de 2016 e pensar em novos rumos para os próximos anos.

Previamente, foi realizada uma pesquisa interna junto aos membros da RT para identificar perfis e expectativas. Ana Carolina Velasco, gerente de Relacionamento e Articulação do GIFE, destaca que, neste levantamento, foi possível perceber a diversidade dos atores que compõe a rede, tendo em vista tanto o foco de atuação no campo – passando por iniciativas de apoio à constituição de bibliotecas, formação de leitores, contação de histórias etc – até pelo porte e recursos investidos.

“Esse perfil, inclusive, apesar de ser desafiador para se trabalhar, pois pode trazer expectativas diferentes ao grupo, é rico demais, pois fortalece a discussão sobre o tema e pode agregar as diversas expertises na área”, ressalta Ana Lima.

No dia do encontro, para colaborar com o planejamento, a RT contou com o apoio de dois consultores mediadores, que conduziram o debate a fim de que o grupo pudesse, num primeiro momento, se conhecer melhor e se constituir de forma estruturada e, numa segunda etapa, estabelecer prioridades para a criação de ações coletivas que, realizadas de forma articulada, potencializassem os saberes dos participantes.

A partir de discussões em pequenos grupos, os integrantes foram convidados a pensar o que gostariam de apresentar no próximo Congresso GIFE, de 2018, e o que seria feito enquanto RT para chegar lá.

Ao final do dia, o grupo conseguiu definir o seu propósito enquanto rede, além de identificar os fatores de sucesso e indicações de elementos para sua governança. Foi possível identificar propostas de ações a serem levadas por conjuntos de instituições para os próximos dois anos, que serão melhor definidas num próximo encontro, em junho.

“O grupo foi muito participativo e comprometido com os trabalhos. Sentimos uma vontade grande deste grupo de fortalecer este espaço de diálogo, além do interesse pelos outros e pela rede e uma adesão à proposta de realização de ações conjuntas. Para mim, foi um encontro muito positivo”, ressalta a mediadora Heloísa Nogueira.

Disseminação

Christine Fontelles destaca o amadurecimento do grupo e os diversos passos já conquistados desde a sua criação, com a elaboração de muitos materiais a respeito do tema, assim com a realização de debates em três Congressos do GIFE. Segundo a especialista, o grande êxito é ter conseguido colocar o tema da “importância da leitura e da escrita” na pauta dos investidores sociais.

“Há alguns anos, isso não era assunto. Hoje é. Mas, precisamos de fato que esse assunto vire realizações concretas. E, para isso, é essencial que possamos fazer algo juntos, enquanto rede. É essencial que consigamos criar pontes entre todos os atores que atuam nesta causa, aproximar os saberes constituídos e colocá-los em favor de uma ação ampla e efetiva”, aponta.

O grupo pretende ainda disseminar as discussões em outros territórios. Para isso, uma nova atividade está programada durante o 18º Salão FNLIJ do Livro para Crianças e Jovens. Na ocasião, a RT irá promover a mesa de debate “Políticas públicas de leitura e biblioteca à luz do Inaf 2015), no dia 14 de junho, 14h30 às 16h.

Lançamento pesquisa

O Instituto Pró-Livro irá promover no dia 31 de maio, no Rio de Janeiro, um seminário para discutir os resultados da pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil”, levantamento realizado pelo Ibope Inteligência sob encomenda do instituto para identificar o comportamento do leitor e os indicadores de leitura da população brasileira.

A pesquisa Retratos da Leitura está em sua 4a edição e foi realizada pela primeira vez em 2001. O levantamento segue a metodologia do Cerlac-Unesco e construiu, ao longo dos anos, uma série histórica sobre a evolução do leitor brasileiro, seus hábitos e características culturais.

O evento é voltado para dirigentes e especialistas de órgãos federais, estaduais e municipais da educação e cultura, órgãos não-governamentais que promovem a leitura, profissionais da cadeia produtiva do livro e suas entidades e também para pesquisadores, educadores, bibliotecários, voluntários e agentes culturais da leitura. As vagas são limitadas e para participar é preciso fazer cadastro pelo link.

Criado em 2007, o Instituto Pró-Livro é uma OSCIP que trabalha com o objetivo de fomento a leitura e de acesso ao livro. O Instituto conta com a participação e o patrocínio das entidades fundadoras e mantenedoras Abrelivros, CBL e SNEL.

Saiba mais

Veja alguns resultados da pesquisa:

  • Atualmente, o Brasil é constituído por 56% de leitores – ou seja, 104,7 milhões de leitores. Um crescimento de 6 pontos percentuais em relação à apuração de 2011, ano em que existiam 50%.
  • A diferença entre o número de leitores do sexo feminino e do sexo masculino também sofreu alteração. Em 2011, 54% das mulheres entrevistadas eram consideradas leitoras. Em 2015, este número aumentou para 59%. A diferença no número de homens teve uma alteração ainda mais significante: o percentual pulou de 44% para 52%.
  • O brasileiro lê, em média, 2,54 livros, inteiros ou em parte, no periodo-referência de três meses anteriores à pesquisa, entre literatura, contos, romances, poesia, gibis, Bíblia, livros religiosos e livros didáticos.
  • Para 67% da população, não houve uma pessoa que incentivasse a leitura em sua trajetória, mas dos 33% que tiveram alguma influência, a mãe, ou representante do sexo feminino, foi a principal responsável (11%), seguida pelo professor (7%).
  • Entre as principais motivações para ler um livro, entre os que se consideram leitores, estão gosto (25%), atualização cultural ou atualização (19%), distração (15%), motivos religiosos (11%), crescimento pessoal (10%), exigência escolar (7%), atualização profissional ou exigência do trabalho (7%), não sabe ou não respondeu (5%), outros (1%).
  • Lê-se mais em casa (81%), depois na sala de aula (25%), biblioteca (19%), trabalho (15%), transporte (11%), consultório e salão de beleza (8%) e em outros lugares menos expressivos. E lê-se mais livros digitais em cyber cafés e lan houses (42%) e no transporte (25%).
  • A leitura ficou em 10º lugar quando o assunto é o que gosta de fazer no tempo livre. Perdeu para assistir televisão (73%).Em segundo lugar, a preferência é por ouvir música (60%). Depois aparecem usar a internet (47%), reunir-se com amigos ou família ou sair com amigos (45%), assistir vídeos ou filmes em casa (44%), usar WhatsApp (43%), escrever (40%), usar Facebook, Twitter ou Instagram (35%), ler jornais, revistas ou noticias (24%), ler livros em papel ou livros digitais (24%) – mesmo índice de praticar esporte.
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