Respostas à crise demandam mudanças na filantropia e investimento em infraestrutura da sociedade civil, aponta especialista

Segundo o Monitor de Doações, até o dia 29 de junho, mais de R$ 5,7 bilhões haviam sido doados para combater as consequências geradas pela disseminação do novo coronavírus no Brasil. Atingir esse montante foi possível graças a ações de diferentes atores, entre eles, organizações da sociedade civil; institutos, fundações e empresas; associações e coletivos; e muitos representantes da filantropia brasileira e do mundo. O Monitor é apenas uma das muitas ações reunidas em uma nova aba no site da Worldwide Initiative Grantmaker Support (WINGS)

A organização usou sua presença em 45 países e a rede de mais de 130 associações filantrópicas para mapear propostas, iniciativas, ações e movimentos da filantropia, do investimento social privado e da sociedade civil no mundo frente ao cenário de emergência imposto pela Covid-19. 

Recursos em resposta à Covid-19’ (tradução livre de Resources In Response To Covid-19) é o nome da página que traz links como bancos de dados e mapas, fundos emergenciais individuais ou campanhas de financiamento coletivo, mensagens de CEOs, chamados para a ação, gravações de webinars e debates, páginas de dados, estudos e publicações, suporte técnico e artigos de lideranças e representantes do setor sobre a pandemia.  

Benjamin Bellegy, diretor executivo da WINGS, explica que entre as motivações para a criação do portal está o fato de que, para a WINGS, enquanto apoiadora do desenvolvimento da filantropia, é importante poder conectar as diferentes iniciativas sendo realizadas pelo mundo, de forma a oferecer o máximo de informação útil para filantropos e organizações que fomentam o setor. A esse somam-se outros objetivos como dividir aprendizados, diagnosticar a contribuição do setor no enfrentamento das consequências do vírus e, potencialmente, conectar pessoas e organizações dispostas a ajudar quem precisa neste momento. 

“A Covid-19 gerou uma crise global. Por isso, é importante que uma instituição como a WINGS possa fazer esse trabalho porque a resposta não vai ser somente local. A aprendizagem para alcançar a melhor resposta possível também precisa dessa conexão e boa informação no nível global. Mas, claramente, esse é só o começo. Estamos trabalhando para melhorar esse hub de recursos e informações”, explica o diretor. 

Articulação e rapidez 

Benjamin explica que, não apenas no contexto brasileiro, mas em muitos outros países, entre eles China e Estados Unidos, foi possível notar um grande movimento de solidariedade e ações privadas, o que, por sua vez, foi possível graças a uma resposta forte da filantropia, com o trabalho de instituições como GIFE e Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (IDIS), trabalho este que Benjamin afirma ser “absolutamente crítico e essencial para a resposta da filantropia e a contribuição privada”. 

“Esse movimento de mobilizar doações, criar fundos e incentivar as pessoas a doar foi muito importante e funcionou melhor em países que tinham uma infraestrutura ativa [em termos de sociedade civil] do que em países onde essa estrutura é muito fraca. Na Índia, por exemplo, grande parte do recurso foi para fundos do governo, que são pouco ou nada transparentes, em vez de ir para a sociedade civil, que não conta com a infraestrutura necessária”, problematiza. 

Além disso, o especialista explica que também notou muitos movimentos usando o momento de emergência para propor mudanças nas ações e práticas do setor filantrópico pelo mundo. Segundo ele, foram muitos ‘chamados à ação’ para que fundações se comprometessem a evoluir em suas práticas, como aumentar doações, oferecer mais flexibilidade e confiar mais em organizações locais, sem tentar exercer tanto controle sobre elas, além de investir em mais transparência. 

Fortalecimento de instituições locais da sociedade civil 

O fortalecimento de instituições locais é um ponto de atenção quando o assunto é atuação da filantropia. Benjamin aponta a percepção de que as doações e recursos parecem seguir a tendência de ser canalizadas a instituições maiores, com mais estrutura, sejam elas públicas, da sociedade civil ou até mesmo organizações multilaterais internacionais. “Ao mesmo tempo, organizações locais e comunitárias, que têm muito potencial para dar respostas mais adaptadas, de longo prazo e com menos custo, muitas vezes, ficam para trás e fragilizadas por toda essa situação.” 

Dessa forma, o contexto da pandemia coloca um questionamento ao setor: como trabalhar mais diretamente com as comunidades e organizações locais? A pergunta remonta, novamente, à necessidade de infraestrutura. “Vimos muitos exemplos excelentes de respostas das comunidades que estão na batalha, mas com pouco apoio. Será importante investir, no longo prazo, nessa infraestrutura da sociedade civil, para que, no futuro, ela esteja na linha de frente das respostas.”  

Inúmeros veículos de comunicação e atores se dedicam a analisar como a pandemia tem efeitos e consequências piores para populações e regiões que já estavam em situações de vulnerabilidade social antes da chegada do vírus. A percepção ecoa na fala do diretor. “Os países que apresentaram mais dificuldade no combate à Covid-19 são os países mais desiguais do mundo, como Brasil, Estados Unidos e Índia.” 

É por isso, segundo o diretor, que investir no desenvolvimento e no fortalecimento da sociedade civil é um movimento estratégico, para que, na próxima crise que a humanidade enfrentar, o setor esteja mais organizado e preparado para atuar com ainda mais impacto positivo. Para isso, entretanto, é necessário apoiar organizações que já existem, inclusive com recursos desvinculados de projetos, para que estas possam usá-los no fortalecimento institucional, por exemplo. 

“Essa construção de capacidades para que as organizações da sociedade civil trabalhem no longo prazo, tenham mais impacto e sejam mais sustentáveis passa pelo nível da organização em si. Ela precisa de infraestrutura, o que demanda investimento em capacidades e inteligência. Muitas vezes, os doadores não querem investir esses recursos, pois querem resultados diretos, com uma visão de curto prazo. A crise traz essa oportunidade de mais flexibilidade e atuação no core funding [financiamento organizacional], sem ficar preso a um projeto.”

O que esperar da filantropia no futuro? 

Apesar de afirmar que é possível dizer que a filantropia sofrerá mudanças ocasionadas pela pandemia do novo coronavírus, Benjamin reforça que ainda é muito cedo para pontuar quais serão, devido à falta de conhecimento por parte da sociedade sobre a amplitude da crise. “Algumas pessoas afirmam que isso já ficou para trás, mas não, esse ainda é o começo da crise. Haverá muita mudança na sociedade em geral. Muitas organizações irão desaparecer. E também podemos esperar mudanças no nível da filantropia.” 

O diretor aposta em um campo filantrópico mais politizado. Para ele, instituições deverão se posicionar mais claramente acerca de assuntos como as origens das desigualdades socioeconômicas e dos desafios que diversos atores estão atualmente tentando solucionar. “Estamos em um mundo de polarização crescente. Vai ser cada vez mais difícil para fundações e institutos não terem uma posição sobre a sociedade que queremos.” 

Além dessa, Benjamin aponta outras questões nas quais espera que mudanças ocorridas no contexto emergencial tornem-se permanentes, como mais investimento na capacidade de organizações, maior colaboração no setor e mais transparência com o objetivo de criar confiança. “Esperamos que essas evoluções positivas para mais flexibilidade, mais confiança e mais parceria de igual a igual com as organizações da sociedade civil virem o novo normal para o setor, e não só uma reação pontual. Sabemos que é uma evolução necessária para ter mais impacto e para realmente fortalecer a sociedade civil e a democracia no longo prazo.”

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