Rotina e orçamento moldam escolhas de alimentação saudável dos brasileiros, mostra pesquisa

Por: GIFE| Notícias| 08/06/2026

Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Os brasileiros, em geral, sabem o que seria uma alimentação saudável e reconhecem a importância da comida caseira, das frutas, verduras, legumes e alimentos frescos. Mas, na prática, precisam negociar esse ideal com o que é possível fazer em determinado dia, com determinado orçamento e dentro de determinada rotina. Essa é uma das constatações da pesquisa “Comportamento alimentar: percepções e desafios da alimentação saudável”, idealizada pelo Pacto Contra a Fome e realizada pelo Instituto Pensi com apoio do The Food and Land Use Coalition e cofinanciamento da Fundação José Luiz Setúbal.

Maria Siqueira, codiretora do Pacto Contra a Fome, explica que o Brasil já possuía dados consistentes sobre o que as pessoas comem e como comem. Mas havia uma lacuna na compreensão mais aprofundada de como essas escolhas são feitas. 

“Por que alguém sabe o que é saudável, mas escolhe diferente? Existiam alguns estudos que mostravam os potenciais fatores de negociação dessa escolha, sobretudo aqueles ligados à economia do cuidado e ao tempo, mas nunca partindo da percepção do próprio consumidor”, acrescenta.

Assim, a pesquisa envolveu grupos focais em cinco capitais brasileiras, visando acumular evidências que dialoguem com a vida real das famílias e que possam se converter em uma agenda prática de recomendações.

Cláudia Cheron König, pesquisadora principal e líder do Laboratório de Estratégia, Governança e Filantropia para Transições Sustentáveis do Instituto Pensi, avalia ainda que o debate sobre alimentação no Brasil muitas vezes fica dividido entre dois extremos. De um lado, indicadores estruturais muito importantes, como fome, insegurança alimentar, renda, preço dos alimentos e acesso físico a alimentos saudáveis. De outro, uma leitura individualizante, como se a alimentação fosse resultado apenas de informação, disciplina ou força de vontade. 

“O que buscamos iluminar é justamente o espaço entre essas duas dimensões: o cotidiano. Ou seja, como as famílias tomam decisões concretas diante de orçamento limitado, pouco tempo, cansaço, filhos com preferências alimentares, publicidade, oferta de alimentos prontos, deslocamentos longos e diferentes responsabilidades dentro de casa.”

Para dialogar com essa vida real, Cláudia König sugere desenhar políticas que reduzam o custo social de comer bem. Ou seja, fortalecer ambientes alimentares saudáveis, ampliar o acesso a alimentos in natura e minimamente processados, proteger crianças da publicidade de ultraprocessados, qualificar a alimentação escolar, apoiar estratégias práticas de preparo e planejamento, e reconhecer que cozinhar e alimentar uma família exigem tempo, infraestrutura e cuidado. 

Trabalho em colaboração é o caminho 

A pesquisa apresenta uma fotografia importante para governos, empresas e diferentes atores do sistema alimentar. Debate que ganha ainda mais relevância diante das mudanças trazidas pela reforma tributária aprovada no país, que permitirá, a partir de 2027, a cobrança do Imposto Seletivo. Conhecido como o “imposto do pecado”, o mecanismo foi criado com o objetivo de desestimular o consumo de bens e serviços nocivos à saúde e ao meio ambiente, abrindo caminho para que alimentos ultraprocessados e bebidas açucaradas integrem a lista de produtos sujeitos à tributação diferenciada. 

Nesse sentido, Cláudia König ressalta que o poder público tem um papel insubstituível na regulação, indução de políticas e garantia de direitos. Enquanto o setor privado tem grande influência sobre preço, disponibilidade, comunicação, formulação de produtos, canais de venda, logística, varejo e plataformas de delivery. 

Entre as potencialidades para ação conjunta, ela aponta que o varejo pode ampliar a presença e a competitividade de alimentos saudáveis; empresas podem rever práticas de marketing para crianças, melhorar a transparência das informações, reformular produtos e apoiar ambientes de trabalho mais saudáveis e plataformas e redes de distribuição podem facilitar o acesso a refeições e alimentos de melhor qualidade. “Mas essas parcerias precisam ser construídas com governança clara, transparência e metas verificáveis”, pondera. 

Para Maria Siqueira, o setor privado tem um papel importante por concentrar hoje a força do marketing de consumo e grande parte da população economicamente ativa do Brasil. “Se tivermos o setor privado comprometido não só com a segurança alimentar dos seus trabalhadores, mas também com a promoção de uma alimentação adequada, isso muda o jogo. Já temos os dados, o que vai transformá-los em ação é o trabalho em colaboração”, finaliza.


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