Semana Lixo Zero 2019 acontece em outubro

No arco do debate mundial sobre sustentabilidade, a produção de lixo tem sido uma das pautas cada vez mais problematizadas. São 80 milhões de toneladas de resíduos sólidos gerados por ano só no Brasil, o que seria suficiente para encher 200 estádios de futebol. O país é o quarto maior produtor de lixo plástico no mundo.

Apesar do serviço público de coleta seletiva destinado especificamente à reciclagem em diversas cidades e do trabalho de catadores e cooperativas de reciclagem de resíduos –fundamentais para aumentar a porcentagem do lixo que é reciclado no Brasil – apenas 3% dos resíduos que são encaminhados para reciclagem é de fato aproveitado, de um total de 30% com potencial de reciclagem.

Esses e outros dados alarmantes são apontados por Luciana Annunziata, uma das fundadoras da Casa Causa, para evidenciar o enorme prejuízo ambiental, econômico e social causado pelo problema.

Coordenadora da organização da Semana Lixo Zero em São Paulo, a Casa Causa ajuda pessoas e organizações a repensarem a gestão de resíduos de seus negócios e eventos, além de atuar no advocacy da causa, apoiando grupos, setores e bairros que queiram buscar soluções dialogadas e eficazes para o desafio.

Luciana falou com o redeGIFE sobre esse cenário e a Semana Lixo Zero, que este ano acontece de 21 a 28 de outubro. A iniciativa tem como objetivo mobilizar, conscientizar e empoderar pessoas e organizações para o alcance da meta lixo zero. Mais informações sobre a Semana Lixo Zero podem ser obtidas pelo e-mail [email protected].

A especialista falou sobre os resultados da iniciativa desde sua primeira edição em 2013, as expectativas para a edição deste ano e o papel e potencial do setor do investimento social privado de se envolver e apoiar a causa do lixo zero.

Confira a entrevista completa a seguir.

redeGIFE: O que significa o conceito de lixo zero?

Luciana Annunziata: A Zero Waste International Alliance (ZWIA) coloca o lixo zero como uma meta ética, econômica, eficiente e visionária para guiar as pessoas a mudarem seus modos de vida e práticas de forma a incentivar os ciclos naturais sustentáveis, nos quais todos os materiais são projetados para permitir sua recuperação e uso pós-consumo. Uma perspectiva totalmente alinhada àquela da economia circular. Uma cidade lixo zero é aquela que consegue desviar 90% de seus resíduos dos aterros sanitários, dando-lhes a destinação correta.

redeGIFE: Qual é a importância da Semana Lixo Zero?

L. A.: O assunto do lixo é absolutamente urgente e fica cada vez mais claro o papel do Brasil. O recente estudo Solucionar a Poluição Plástica: Transparência e Responsabilização, promovido pela World Wide Fund for Nature (WWF), coloca o Brasil como o quarto país no mundo que mais produz lixo plástico. Geramos 11,3 milhões de toneladas desse resíduo por ano e apenas 1,28% dele é oficialmente reciclado. Só estamos atrás dos Estados Unidos (1º lugar), da China (2º) e da Índia (3º). E nosso problema vai muito além do plástico. Cada brasileiro gera em média 1 quilo de lixo por dia, ou seja, 365 quilos por ano, segundo o Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil 2017, da Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe). Isso resulta, só na cidade de São Paulo, em 18 mil toneladas diárias de resíduos que custam aos cofres públicos mais de 1,5 bilhões anuais para coleta, transporte e serviços de limpeza urbana – recursos que poderiam ser direcionados a outras finalidades como saneamento básico e educação. Mais grave ainda: somente 3% dos resíduos encaminhados para reciclagem é de fato aproveitado. Riqueza sendo enterrada indevidamente, aterros sanitários saturados, empresas em desacordo com a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) – sancionada em 2010 -, população desinformada sem capacidade para pressionar por mudanças. São 80 milhões de toneladas de resíduos sólidos por ano no nosso país, o que seria suficiente para encher 200 estádios de futebol. É hora de buscar a responsabilidade compartilhada pregada na PNRS, atuando junto aos diversos setores econômicos, engajando a sociedade civil e o poder público. Por isso foi criada a Semana Lixo Zero. Ela é uma plataforma fundamental para mobilizar a sociedade, um convite para encarar de frente essa questão, buscando soluções e pactos para a ação.

redeGIFE: Quais são as expectativas para a edição deste ano?

L. A.: Fazer com que a Semana Lixo Zero continue crescendo. De 14 cidades em 2017, passamos para 100 em 2019, com a expectativa de mobilizar 12 mil voluntários e alcançar 500 mil pessoas. Os setores atingidos incluem áreas tão diversas quanto construção civil, universidades, hospitais e shoppings, mas é preciso ampliar. Só em São Paulo, foram 36 eventos que impactaram 109 instituições em 2018. Este ano, o plano é ampliar o envolvimento do setor privado, com a organização de mais atividades que mostrem a relevância do tema para cada segmento da economia, além de dar mais destaque aos aspectos sociais do problema.

redeGIFE: Quais são os principais destaques da ação desde sua primeira edição em 2013?

L. A.: Por todo o Brasil, a Semana Lixo Zero tem ajudado a abrir discussões sobre emendas parlamentares e projetos de leis, como a lei de proibição dos canudos – sancionada recentemente no estado de São Paulo -, acelerando processos fundamentais de mudança. Como a Semana Lixo Zero é municipal, os destaques são, na maior parte, locais. Em São Paulo, podemos citar o Fórum Supermercados Lixo Zero promovido em 2018 na Fundação Getulio Vargas (FGV), o encontro sobre compostagem promovido na Câmara dos Vereadores e o evento sobre economia circular promovido pelo Istituto Europeo di Design (IED). Além disso, as visitas à estação de transbordo da Loga e aos Pátios de Compostagem da Prefeitura, abertos aos cidadãos, mostram a situação real dos nossos resíduos e as soluções que estão sendo estudadas pelo setor público e que são viabilizadas com recursos dos contribuintes. A coleta de microlixo no parque do Ibirapuera, que fechou a Semana Lixo Zero 2018, também foi simbólica. Reuniu vários movimentos, como os Ecobairros, o Limpa Brasil, o Instituto Lixo Zero Brasil (ILZB) e o Mundo sem Bitucas numa ação coordenada, mostrando que o lixo atinge até nossos locais mais queridos. Um último destaque de 2018, em São Paulo, ficou por conta dos bairros que buscam o lixo zero, inseridos dentro do movimento de Ecobairros e Cidades em Transição. Eles reforçam o poder da micropolítica na mudança das nossas cidades e o poder de articulação dos cidadãos. Quase um terço das atividades promovidas em 2018, em São Paulo, foi realizado no contexto dos Ecobairros, especialmente as vilas Beatriz, Ida e Jataí.

redeGIFE: Como a iniciativa se relaciona com o debate mais amplo sobre sustentabilidade, incluindo metas internacionais como os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS)?

L. A.: A Semana Lixo Zero procura concretizar vários ODS, pois a questão dos resíduos é um sintoma de vários aspectos tratados por esses Objetivos: desigualdade social, saneamento, preservação da vida aquática e terrestre, consumo consciente. Quando falamos de lixo, estamos tratando de tudo isso. Em termos de políticas públicas, existe um esforço nacional do Instituto Lixo Zero Brasil e seus embaixadores locais para colocar a Semana Lixo Zero no calendário oficial do maior número possível de cidades brasileiras. Com isso, o tema passa a ser tratado em mais profundidade e a Semana pode receber apoio adicional. Já são mais de dez cidades que adotaram esse calendário, entre elas Florianópolis, Porto Alegre, Goiânia, Rio de Janeiro, Natal, Fortaleza, Recife, Manaus e São José dos Campos. E há mais 85 cidades com processo aberto para que isso aconteça. A iniciativa começa também a influenciar Moçambique, onde a Semana aconteceu no ano passado, e Portugal, onde ocorrerá este ano.

redeGIFE: Como o setor do investimento social privado pode apoiar a iniciativa e se relacionar com a pauta da produção de lixo no Brasil?

L. A.: O chamado é para a ação urgente! Organizar eventos durante a Semana Lixo Zero é fundamental para dar corpo aos vários aspectos dessa pauta. Se você é um investidor social privado ligado ao setor de saúde, por exemplo, que tal promover um fórum sobre isso? Outro ponto importante é o apoio às iniciativas organizadas durante a Semana. É possível oferecer locais, recursos financeiros e apoio profissional aos eventos com os quais o investidor tem afinidade. Para dar uma dimensão, teremos este ano 12 mil voluntários que, em média, doam dez horas do seu tempo. São 120 mil horas de voluntariado. Então, o que o setor privado pode doar para complementar e reforçar a importância desse esforço? Um terceiro ponto é assumir o papel de co-investidor. A Semana Lixo Zero é uma oportunidade para conhecer empreendedores brasileiros que, muitas vezes, precisam de apoio para seguir desenvolvendo suas tecnologias de impacto socioambiental. Em 2019, o evento trará esse tema com maior força, mostrando do que o ecossistema brasileiro de gestão de resíduos está precisando para se fortalecer. Finalmente, é necessário destacar o aspecto social do problema e o momento delicado que vivemos no país. Hoje, há milhares de pessoas que vivem da reciclagem, sejam catadores ou membros de cooperativas. Essas pessoas ainda vivem condições de trabalho muito precárias. É um sistema que precisa se profissionalizar e crescer, pois a competição pela matéria prima, os resíduos, vem crescendo. Os processos de incineração, que têm sido apontados como solução por muitos, especialmente com o projeto Lixão Zero, do governo federal, precisam de plástico para a queima. Isso poderá reduzir o volume de resíduos chegando até as cooperativas. Outro efeito colateral da incineração é o aumento significativo de gases de efeito estufa. Segundo a WWF, as emissões de dióxido de carbono decorrentes da gestão de resíduos plásticos poderão triplicar até 2030, uma vez que as demais infraestruturas para tratamento de resíduos continuam mais economicamente atrativas que a reciclagem. Mais do que nunca, cuidar dos resíduos é também um ato social.

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