Sociedade viva

Há momentos que marcam. De forma indelével na história, 1945 será para sempre o ano de Hiroshima; 2001, do ataque às torres gêmeas em Nova York; 2020, da pandemia de Covid-19, com suas, até aqui, mais de 177 mil vidas perdidas apenas no Brasil. Mais do que uma bomba de Hiroshima e um 11 de Setembro somados.

Mas, para além da dor, 2020 foi também um ano em que o melhor de nós pôde se fazer presente. Sem que muitas vezes se pudesse notar em meio às tensões políticas e à severidade da pandemia, vivenciamos diante dela um grau inédito de mobilização cidadã em todo o país.

A soma de esforços de indivíduos, organizações da sociedade civil, empresas e outros atores sociais permitiu-nos materializar rapidamente um arco decisivo de ações para fazer frente à crise nas suas múltiplas dimensões. Da produção e distribuição de insumos médicos à cooperação com o sistema de saúde pública e a conexão do país com o esforço global de desenvolvimento de vacinas. Da provisão de alimentos e recursos de prevenção ao novo coronavírus aos grupos mais vulneráveis à mobilização pela criação do auxílio emergencial. Do suporte às redes de educação para a oferta de ensino a distância aos programas de proteção de empregos e pequenos empreendedores —e assim por diante.

Os mais de R$ 6 bilhões mapeados pelo Monitor de Doações dão uma medida do alcance desse movimento. Mas, mais do que a cifra, seu principal valor talvez seja o de recordar-nos do lugar da cidadania na vida coletiva. É no pulsar dela, reconhecendo desafios comuns e combinando recursos, energias e competências para superá-los, que reside a condição primeira de êxito público em qualquer tempo.

Quando logramos realizar isso, com respeito mútuo e comprometimento, avançamos; quando, ao contrário, nos perdemos em intolerância e diversionismo, sucumbimos também conjuntamente. Em um momento marcado pela desconfiança na sociedade e pela instilação de um discurso oficial hostil à pluralidade e à cooperação no espaço público, o testemunho renovado da vitalidade diversa e cidadã no país é particularmente inspirador.

No marco dela, 2020 nos lega, ainda, a reafirmação de temas centrais para nossas possibilidades como país. Na medida em que isso é possível, a crueza das nossas desigualdades se fez mais evidente que nunca, e entre elas a persistência profunda do racismo, exibindo-se nos vários planos do cotidiano. Se a pandemia nos recorda da forma mais crua que ninguém existe sozinho e a fragilidade coletiva será sempre de todos, a experiência igualmente didática da vulnerabilidade humana reforça a centralidade da agenda ambiental, amplificada no Brasil pela urgência em conter a devastação acelerada na Amazônia e dos nossos recursos naturais em geral.

Ao lado da importância renovada de políticas públicas para responder com efetividade a esses desafios, cresce também a expectativa sobre o setor privado para fazer sua parte, aprimorando práticas nos negócios e na interface com a sociedade. E se a força da mobilização coletiva reafirmou a importância da sociedade civil para a vida pública, os demais aspectos da vivência do ano renovaram também o valor essencial da ciência, do jornalismo de qualidade e de uma democracia saudável para fundar destinos comuns positivos.

Combinados, o vigor da resposta solidária à crise e a consciência renovada dos nossos desafios apontam um caminho possível de inspiração e compromisso a se levar deste 2020. Se o tempo nos ensina a extrair crescimento da dor, que possa ser esse o legado primordial a oferecermos àqueles que se foram desde março. Se, como canta Gilberto Gil em “A Paz”, uma bomba sobre o Japão pôde fazer nascer o Japão da paz, que a experiência do ano possa guiar-nos em novas etapas de coesão e construção públicas devidas.

 

Artigo originalmente publicado na Folha de S. Paulo.

Crédito da foto: Reinaldo Canato/Folhapress

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