Transição energética justa: o papel do investimento social privado na descarbonização com equidade
Por: GIFE| GIFEnaCOP| 08/06/2026
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A substituição dos combustíveis fósseis por fontes renováveis costuma ser apresentada como uma das principais respostas à crise climática. Mas, à medida que os países avançam nas discussões sobre descarbonização, cresce o entendimento de que a transição energética envolve muito mais do que a troca de uma matriz energética baseada em petróleo, carvão e gás por outra sustentada por fontes limpas.
O desafio passa pela modernização de infraestruturas, ampliação do acesso à energia, criação de novas oportunidades econômicas e proteção de trabalhadores e comunidades que hoje dependem de atividades ligadas aos combustíveis fósseis. Em outras palavras, trata-se de uma transformação econômica, social e territorial de grande escala.
Essa discussão ganhou novo impulso nos preparativos para a COP31, conferência climática da Organização das Nações Unidas (ONU) que será realizada em novembro, na Turquia.
Apesar do crescimento acelerado das energias renováveis, a demanda global por carvão continua a ser um ponto de controvérsia e relevância estratégica. Com um platô estabelecido até 2029, de acordo com o WEO 2025, a demanda por carvão deve cair cerca de 20% até 2035. No entanto, o carvão ainda é essencial em indústrias como a siderurgia, alumínio, química e fabricação de cimento, setores nos quais o uso desse mineral permanece resistente, dada a falta de alternativas viáveis em grande escala.
Para Gilberto Jannuzzi, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e integrante do recém-criado Painel Científico para a Transição Energética Global (SPGET), a discussão precisa avançar para além da ambição climática.
“A transição justa para além dos combustíveis fósseis já não é apenas uma questão de ambição climática; é uma questão de planejamento econômico, equidade social e credibilidade política”, afirmou durante coletiva de imprensa realizada antes das negociações climáticas de Bonn, na Alemanha.
O SPGET reúne cientistas de áreas como clima, economia, engenharia e tecnologia com o objetivo de produzir recomendações baseadas em evidências para orientar governos na elaboração de políticas públicas e estratégias de descarbonização.
De acordo com Gilberto Jannuzzi, um dos maiores desafios é transformar metas climáticas em ações concretas.
O componente social da transição
A preocupação com os impactos sociais têm ocupado um espaço cada vez maior no debate internacional. Estudo recente sobre experiências internacionais de transição energética justa aponta que cerca de 3 milhões de pessoas trabalham atualmente em minas de carvão ao redor do mundo.
As estimativas indicam que, sem políticas de proteção e reconversão econômica, aproximadamente 414 mil postos de trabalho poderão desaparecer até 2035. Em países como China e Índia, onde milhões de famílias dependem dessa atividade, os desafios de adaptação já começam a se tornar visíveis.
Para Diana Barba, coordenadora de Diplomacia Energética da organização colombiana Transforma, a questão central hoje é garantir que a transformação ocorra sem aprofundar desigualdades históricas.
“A pergunta já não é se devemos avançar para além dos combustíveis fósseis, mas como fazê-lo de forma justa”, afirmou. Segundo ela, a América Latina precisa aproveitar o processo para construir economias mais resilientes, ao mesmo tempo em que reconhece as necessidades dos territórios e das comunidades mais impactadas.
Como o Investimento Social Privado (ISP) pode auxiliar nesse processo?
Embora grande parte dos recursos necessários para a transição energética dependa de investimentos públicos em infraestrutura, o ISP também possui um papel relevante na construção das condições que tornam essa transformação socialmente viável.
Nesse cenário, o ISP pode atuar como articulador de soluções que conectem a agenda climática ao desenvolvimento territorial. Além de apoiar pesquisas e iniciativas de inovação, o investimento social têm potencial para fortalecer organizações da sociedade civil, capacitar trabalhadores e apoiar comunidades afetadas pelas transformações econômicas da descarbonização.
O movimento já aparece nos dados do setor: segundo o Censo GIFE 2024-2025, 46% das organizações respondentes desenvolveram ou financiaram iniciativas ligadas ao clima e às mudanças climáticas em 2024, mobilizando R$ 368 milhões. Entre elas, mais de um quarto apoiou ações relacionadas a energias renováveis e eficiência energética
Na avaliação de Gilberto Jannuzzi, em regiões marcadas por desigualdades e pela dependência econômica de atividades ligadas aos combustíveis fósseis, o desafio é transformar a resposta à crise climática em uma oportunidade de desenvolvimento e inclusão.