“Uma nação realmente soberana é aquela que vê a Ciência como investimento, não como gasto”

Passado um ano da chegada da pandemia de Covid-19 ao Brasil, profissionais de saúde, cientistas e grande parte da população brasileira assistem com perplexidade às manifestações crescentes do chamado ‘negacionismo’. A corrente se baseia em informações pontuais ou falsas para negar a extensão da crise e distribuir notícias sem comprovação médica ou científica.

Especialistas atestam que essa postura de desvalorização da ciência e desprezo às evidências, somada à negação de mecanismos de proteção e falta de coordenação e investimentos para o enfrentamento à pandemia foram os principais fatores que levaram o Brasil ao seu status atual de epicentro mundial da Covid-19.

Parte do Trilho do 11º Congresso, o painel Investimento Social por Ciência e Informação buscou reunir vozes diversas dos universos da filantropia e do investimento social, da ciência e da comunicação para somar perspectivas para o aprofundamento da ação filantrópica em favor da produção de respostas a esses desafios no país.

A atividade marcou o início da iniciativa ISP por Ciência e Informação, que deverá dar sequência ao debate e visa fortalecer os canais de cooperação na temática e produzir um guia para o investimento social.

Para aprofundar o assunto, o redeGIFE conversou com uma das participantes do painel, Maria Augusta Arruda. Líder estratégica do Portfólio de Pesquisa em Covid-19 da Universidade de Nottingham (Reino Unido), a cientista foi eleita presidente da Rede por Igualdade Racial da UoN (@UoNBAME) e atua no campo da Diplomacia Científica.

Confira a entrevista na íntegra.

redeGIFE: Na sua avaliação, como a produção e disseminação de Ciência se relaciona com a dimensão dos direitos sociais, econômicos e ambientais?

Maria Augusta: Uma nação realmente soberana é aquela que coloca a Ciência em destaque, que vê Ciência como investimento e não como gasto. Por outro lado, a Ciência precisa ser não só comprometida com o bem dos entes humanos, mas também refletir a diversidade dessa população.

O mundo lida com os desafios impostos por séculos de patriarcado, colonialismo e imperialismo. No Brasil, o período escravocrata patriarcal expõe as raízes do racismo e da misoginia que temos até hoje. Por muitos anos, a Ciência se omitiu do papel de expor e combater esses sistemas de opressão, uma vez que repetia em seus quadros essa distribuição artificial, sendo composta quase que exclusivamente por indivíduos brancos e do sexo masculino.

A disseminação da Ciência, principalmente quando se destina a fomentar o interesse de populações que foram excluídas sistematicamente do processo de produção de conhecimento, a torna, muito mais do que um instrumento de progresso, num veículo de Justiça, possibilitando avanços concretos nos campos sociais, econômicos e ambientais por ser mais diversa e, por conseguinte, mais rica e consciente.

redeGIFE: Como você analisa o atual cenário de desvalorização da produção e disseminação de ciência e informação de qualidade e seus impactos para a sociedade contemporânea?

Maria Augusta: Nós estamos vivendo um momento de reascenção do obscurantismo. Curiosamente, esses atores que se posicionam contra a produção e disseminação da Ciência usam ferramentas tecnológicas para alcançar um número cada vez maior de seguidores. Nos cabe a pergunta: a quem esse movimento anti-Ciência – que sempre está alinhado a vertentes racistas e misóginas da nossa sociedade – favorece?

Da mesma forma que é fácil perceber que os mentores, os líderes desses movimentos são muitos dos que se beneficiaram dos inúmeros ciclos de desigualdade, seus seguidores são pessoas que, em sua maioria, foram ignoradas pela Ciência. Ciência e Educação são indissociáveis. Temos que reparar as falhas históricas que fizeram a Ciência, tão onipresente em nossas vidas, invisível para uma grande parcela da população. Em termos práticos e concretos, o principal desafio do nosso tempo nesse tema é justamente conter essa derrocada negacionista que hoje vivemos.

redeGIFE: Que oportunidades e modos de ação podem ser apontados para enfrentar tais desafios?

Maria Augusta: Muitas vezes, a comunidade científica, com toda boa intenção, acaba ‘rezando para convertido’. Nós temos que, coletivamente, descer da ‘torre de marfim’ em que nos encontramos e dialogar com os diferentes setores da população. Promover maior inclusão e dar suporte real, material, para que a Ciência seja cada vez mais a cara do Brasil, com equidade e paridade racial, social e de gênero. O caminho é longo, mas longe de impossível.

redeGIFE: Que perspectivas temos no horizonte para o aprofundamento da ação filantrópica e do investimento social privado em favor da produção de respostas a esses desafios?

Maria Augusta: Eu tenho convicção de que a ação filantrópica e o investimento social privado são chave nessa revolução. Nós temos vários exemplos no exterior, como a Gates Foundation e a Wellcome Trust, que não só fomentam Ciência, mas influenciam de forma poderosa agendas internacionais e políticas públicas. No Brasil, temos o Instituto Serrapilheira que, com poucos anos, estabeleceu-se como um divisor de águas na maneira de fomentar a produção e a disseminação científica no Brasil.

O GIFE, trazendo todos esses atores para a mesa – filantropos, cientistas, gestores, membros da sociedade civil e agências de fomento -, estimula e faz a curadoria desse diálogo de forma muito positiva. Percebemos que todos nós queremos uma sociedade mais justa, empática e próspera e que é chegado o momento de começarmos a converter esse ímpeto comum em ação.

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