Agenda da “transparência” desafia investidores sociais a mudarem práticas de gestão

A fala é provocativa, mas tem a perspectiva de gerar real mudança no campo do investimento social privado: é preciso sair do discurso, do desejo por transparência, para iniciativas de fato claras, objetivas e abertas, que gerem diálogo, novas relações e transformação. Essa é a visão de diversos especialistas do setor sobre o tema e apontam a urgência de novas posturas, frente a uma sociedade cada vez mais participativa, que exige das instituições mais ação.

“Organizações da sociedade civil estiveram por trás de importantíssimos movimentos pró transparência, seja em relação a governos, seja sobre a relação entre governos e empresas. Mas, o que a gente ainda não vê é um movimento forte das próprias organizações de se pensarem transparentes, porque assim como governos, empresas, as organizações da sociedade civil tem uma finalidade pública e, por isso, elas precisam ser transparentes”, alerta Iara Rolnik, gerente de Conhecimento do GIFE.

Para Átila Roque, diretor executivo da Anistia Internacional no Brasil, é preciso reconhecer sim que, ao longo dos anos, a sociedade civil experimentou novos mecanismos na área de transparência, accountability e controle social sobre o bem público. Ou seja, num período de tempo curto foi possível dar um grande salto, principalmente em relação ao acesso e divulgação de dados. “Mas, estamos dando conta de que alguns desses mecanismos se transformaram em cortinas de fumaça que acabaram obscurecendo várias práticas das instituições”, ressalta.

Na avaliação de Maria Alice Setubal,  presidente do conselho consultivo da Fundação Tide Setubal, isso ocorre porque, esse movimento pela disseminação de dados, ocorre muitas vezes sem qualquer análise crítica para tal, o que gera respostas contrárias. “Muitas vezes são dados demais que são divulgados para confundir mesmo o cidadão. Vivemos uma ‘pseudo transparência’, pois é extremamente difícil fazer uma leitura dessa quantidade de informação. Porém, faz parte da transparência a preocupação com a pedagogia dos dados, ou seja, a forma como eu coloco e divulgo faz toda a diferença. Essa leitura precisa ser feita”, comenta.

Outro desafio, acredita Átila, é alocar esse desejo por transparência e controle social, com as novas potências das iniciativas do cidadão, que hoje têm uma capacidade de vocalização muito maior com a chegada das novas tecnologias e oferecem oportunidade para posturas mais transparentes.

Assim, para os especialistas, a agenda da transparência exige dos investidores sociais uma postura dialógica com os diferentes atores sociais, se colocando como “vidraças”, a fim de que todos possam conhecer os processos, as ações e a gestão das instituições e se aproximem para novas relações mais produtivas e efetivas. Afinal, como lembra Adriana Ramos, secretária-executiva do Instituto Socioambiental, “transparência não é marketing social”.

Mas, como ser uma organização transparente? Na opinião de José Eduardo Romão, diretor vice-presidente do IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), não se trata de uma tarefa fácil e que, portanto, exige coragem por parte das instituições.

Há diversos caminhos para tal, começando por seguir parâmetros e critérios já estabelecidos que apontam para a importância de se prestar contas, divulgar informações via meios digitais, explicitar a forma com que os planos e estratégias são criados, abrir os processos decisórios e garantir a participação da própria comunidade beneficiada na construção das ações.

“Essa relação e participação dos beneficiários, sejam de políticas públicas ou das iniciativas realizadas pelas organizações, pode contribuir muito para a materialização da transparência. O usuário precisa ter voz e ela deve aparecer também no processo de avaliação das atividades”, acredita.

Para o diretor vice-presidente do IPEA, este é o momento de aprimorar o sistema de prestação de contas, reafirmar e sofisticar os parâmetros desenvolvidos no setor nos últimos dez anos e desenvolver novas estratégicas de comunicação e interação entre os próprios beneficiários para avaliar os serviços destas instituições.

“O momento vivido no Brasil pede mais transparência dos governos e organizações. Não dá para ignorar esse apelo. Empresas e investidores sociais devem se colocar na vanguarda e oferecer mais informações”, acredita Denis Mizne, diretor-executivo da Fundação Lemann.

Tal movimento, inclusive, demanda – lembram os especialistas – novos marcos regulatórios, que garantam práticas transparentes e assegurem contrapartidas que contribuam para a boa gestão dos recursos públicos por organizações privadas.

Ferramentas

Atento a essa crescente demanda do campo por transparência, o GIFE conta com algumas ferramentas e materiais a respeito, como o Painel GIFE de Transparência e os Indicadores GIFE de Governança. Os interessados podem conferir também o segundo episódio da Websérie COMUM, que aborda justamente a agenda estratégica do GIFE sobre governança e transparência.

*As visões e depoimentos dos especialistas compartilhados nesta reportagem foram disseminados em diferentes momentos da preparação e realização do Congresso GIFE 2016.

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