10º Encontro da RIS do Interior Paulista debate Diversidade de Gênero e LGBTI+

Diversidade de Gênero e LGBTI+ foi o tema do 10o Encontro da Rede de Investidores Sociais (RIS) do Interior Paulista, realizado no dia 4 de julho, no Centro de Educação Ambiental do Instituto Estre, em Paulínia (SP).

Para apoiar o debate, o grupo convidou Amara Moira, travesti, feminista, escritora, professora de Literatura e doutora em Teoria Literária pela UNICAMP em 2018, tendo, com isso, se tornado a primeira mulher trans a obter título pela referida universidade usando seu nome social.

Autora do livro E se eu fosse pura? – que aborda o cotidiano da prostituição, sobretudo da perspectiva trans, a partir do registro de sua própria trajetória como profissional do sexo -, Amara compartilhou com o grupo as adversidades vividas por ela desde que começou seu processo de transição há cinco anos.

“Durante 29 anos usufruí dos benefícios da masculinidade hegemônica, de ser uma figura branca, de ter podido estudar, de ser da classe média e morar num bairro privilegiado de Campinas. Quando passo a existir como mulher trans e travesti, as discrepâncias de tratamento ficam muito nítidas. Por exemplo, durante 29 anos, nunca ninguém tocou meu corpo sem meu consentimento. Meu corpo continua igual, mas passa a ser visto cotidianamente como objeto público. O que impedia e agora não impede mais? É o jeito como me visto, o fato de ter seios ou de deixar meu cabelo crescer?”, questionou.

A professora também falou sobre os desafios na carreira profissional após ter se tornado uma mulher trans. “Quinze anos atrás, no começo da minha graduação, antes da transição, fui contratada como professor de literatura num grande colégio em Campinas. Hoje, doutora por uma das universidades mais prestigiadas do país, sou uma profissional muito mais capacitada para dar aula de Literatura, mas é necessário coragem para me colocar em sala de aula como professora. Meu corpo diz antes de eu abrir a boca, mesmo que eu nem aborde a questão trans, minha presença é o debate de gênero”, observou.

Diversidade no setor empresarial

Amara identifica um avanço no tema da diversidade, apesar dos muitos desafios a serem superados. “Vivemos em um país em que o STF [Supremo Tribunal Federal] garantiu a retificação dos meus documentos, enquanto um ministro do exterior envia à ONU [Organização das Nações Unidas] uma formulação em que diz que sexo é biológico: feminino e masculino. Ao mesmo tempo, eu vejo muitas empresas se mobilizando, sobretudo em São Paulo, para criar espaços mais diversos, patrocinando eventos sobre o tema. Ainda assim, há casos em que isso é feito apenas pelo marketing”, pontuou.

Sobre as disparidades de gênero em relação a cargos e salários, Amara lembra que a equidade ainda se restringe às camadas mais baixas, aquelas em que as pessoas ganham menos. “Muitas vezes, o simples fato de uma mulher não ser assediada pelo chefe a faz aceitar receber menos, enquanto os homens sabem que qualquer empresa é feita para eles. Quanto mais à margem você está, mais propenso fica a aceitar condições de trabalho e salários aquém do adequado.”

Apesar dos obstáculos, a professora comemora o avanço da causa LGBTI+. “Cinco anos atrás, não daria para imaginar que hoje estaríamos tão visíveis. Esse é um momento delicado e controverso da nossa política e da nossa sociedade, mas, ao mesmo tempo, nunca fomos tão protagonistas e estivemos tão em evidência. Eu tenho ido a muitas empresas para falar da questão trans. Nossa voz tem sido cada vez mais ouvida e essa atividade é um exemplo disso.”

Termo de Adesão e Comunicação (identidade visual e campanha)

Além da escolha do tema Diversidade e Equidade para a atuação da RIS Interior Paulista, em 2019, o grupo também deu início à construção de um Termo de Adesão e de sua identidade visual, bem como de uma campanha sobre o tema.

Na ocasião do 10o Encontro, o texto do Termo de Adesão, elaborado pela coordenação da rede – composta por Mariana Rico, gerente executiva do Instituto Estre, e Leandro Pinheiro, superintendente socioeducativo da Fundação FEAC -, foi apresentado ao grupo e o documento encaminhado para validação e revisão pelas organizações membros da rede.

Já as peças e materiais elaborados a partir da nova identidade visual da rede, já validada pelo grupo, serão disponibilizados no site da RIS Interior Paulista.

Em relação à campanha de comunicação sobre o tema atual de trabalho da rede, um desenho inicial a partir do briefing sobre a ação agora segue para ser aperfeiçoado com base nos feedbacks do grupo.

Próximos passos

Criada em agosto de 2017 com o objetivo de qualificar e fortalecer a atuação socioambiental de empresas, fundações, institutos e organizações da região, a RIS do Interior Paulista possui uma agenda de encontros bimestrais e, até 2018, percorreu os seguintes temas: Indicadores e Índice Paulista de Responsabilidade Social, Avaliação e Monitoramento, Governança e Transparência, Voluntariado, Negócios de Impacto e Atuação em Rede.

No final de 2018, o grupo elegeu o tema Diversidade e Equidade para nortear a atuação da rede ao longo deste ano. Desde então, o grupo debateu Equidade Racial, Gestão da Diversidade e Inclusão e Diversidade de Gênero e LGBTI+.

O 11° Encontro da rede está previsto para 26 de setembro.

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