Diversidade e Equidade é tema do 8º Encontro da Rede de Investidores Sociais do Interior Paulista

O 8o Encontro da Rede de Investidores Sociais (RIS) do Interior Paulista – o primeiro de 2019 -, realizado no dia 15 de fevereiro, na sede do Instituto Arcor, em Campinas (SP), debateu Diversidade e Equidade, tema escolhido para ser o norte da atuação da Rede ao longo deste ano.

Após apresentação de Thais Cassano de Castro, gerente do Instituto Arcor, que trouxe um resumo da atuação do Instituto desde sua fundação em 2004 – cumprindo com a tradição de a organização anfitriã abrir o encontro com uma breve apresentação institucional – Aline Rosa, analista de articulação do GIFE, iniciou os trabalhos com a apresentação conceitual dos termos diversidade e equidade e dividiu com os presentes alguns dos resultados da pesquisa realizada no momento das inscrições para o encontro acerca da percepção dos participantes sobre a atuação de suas organizações no tema.

As respostas se dividiram entre atuação direta, indireta e não atuação (50%, 36% e 14%, respectivamente) e sintetizaram alguns dos desafios concernentes à atuação do setor no tema da diversidade e equidade: quebra de paradigmas, mudanças culturais, construção de estratégias e mecanismos, entre outros.

Para o primeiro encontro do ano, já sob a nova diretriz temática, o grupo convidou o advogado e diretor de projetos do Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades (CEERT) Daniel Teixeira, que dividiu com os presentes conceitos e dados para subsidiar a discussão.

O especialista introduziu o tema trazendo a discussão de ideário sobre o lugar social entre ‘menor’ e ‘adolescente’, termos utilizados para designar a criança e o adolescente. “A figura do menor coexiste com a do adolescente, o menor visto como sujeito de obrigações e a criança e adolescente como sujeito de direitos. Esse imaginário social cruza com a questão racial. É como se o direito à infância tivesse cor”, problematiza.

Genocídio da juventude negra

O advogado dividiu com os participantes do encontro alguns dados alarmantes. No Brasil, 56 mil pessoas são vítimas de homicídio por ano. 30 mil são jovens: 93% homens e 77% negros. De 2002 a 2012, o número de homicídios de jovens brancos recuou 32,3%, enquanto o de jovens negros aumentou 32,4%.

“Um dos dados mais importantes da segurança pública é a taxa de homicídios. Esses dados mostram que a segurança melhorou para alguns e piorou para outros. A política pública é falha, mas também as nossas ações sociais podem ser se agente não compreender quem é o público de quem estamos falando quando tratamos de infância, adolescência e juventude. Estamos olhando para esse recorte para pensar nossas ações?”, indagou.

Racismo estrutural está na origem do Brasil

Ao falar da relação entre o Direito e a pauta racial, Daniel mencionou a indenização paga aos escravos libertos nos Estados Unidos em detrimento da indenização paga aos senhores de escravos após a abolição no Brasil.

“Nossa nacionalidade tem a marca do trabalho. O Brasil é o único país que leva o sufixo ‘eiro’, que serve para definir profissão, como pedreiro, faxineiro, engenheiro. E é o único porque o brasileiro é o trabalhador explorado. Somos frutos de um projeto de exploração e não de um projeto de construção de nação. E isso tem muito a ver com o lugar do trabalho e a identidade até hoje.”

E continuou: “Quando a gente fala de raça, biologicamente não existe, mas ela é um marcador construído socialmente. Crianças pretas no farol já fazem parte da paisagem e isso só faz sentido num país em que o racismo é estrutural. O mendigo branco de olhos verdes está ‘fora do lugar’. “O que a gente quer construir para o futuro a partir do histórico que temos? E como vamos construir isso?”, questionou.

Diversidade e Negócios

Daniel trouxe ainda dados de um estudo da American Sociological Review, que pesquisou resultados concretos da diversidade de gênero e raça de 506 empresas a partir de indicadores de desempenho econômico e o grau de implementação de diversidade de gênero e raça. O estudo concluiu que diversidade de gênero e raça está associada a crescimento da receita de vendas, mais consumidores, maior participação no mercado e maior lucratividade.

A pesquisa Diversity Matters, da McKinsey & Company, analisou os índices de diversidade de gênero e raça nas lideranças de 366 grandes empresas dos Estados Unidos, Canadá, Reino Unido e América Latina de variados ramos de atuação e os comparou aos resultados financeiros dessas empresas entre 2010 e 2013. O estudo revela que as empresas com índices altos de diversidade de gênero têm 15% mais probabilidade de obter resultados acima da média do seu ramo do que empresas com índices baixos de diversidade; e empresas com índices altos de diversidade de raça têm 35% mais probabilidade de obter resultados acima da média de seu ramo. “A diversidade é boa também para os negócios”, observou Daniel.

Dados do Censo de Diversidade, desenvolvido pelo CEERT para a Federação Brasileira de Bancos (Febraban), revelam discrepâncias relacionadas a gênero e raça no que se refere à disponibilidade de profissionais qualificados versus o número de profissionais absorvidos pelo setor.

No entanto, Daniel ressaltou que o foco das empresas não deve se restringir às políticas de contratação. “Se a empresa não estiver preparada para lidar com a diversidade, essas pessoas serão naturalmente expelidas. Ter mecanismos de gestão complexos olhando para isso é essencial.”

O advogado afirmou que é preciso um trabalho sério com base em consultoria, estudos, desenvolvimento de indicadores e processos avaliativos. O especialista menciona os Indicadores Ethos, organização em parceria com a qual o CEERT desenvolveu indicadores raciais para diagnóstico de organizações e projetos no que se refere ao tema da diversidade racial. A ferramenta dispõe ainda de indicadores de gênero e LGBTQI+ (sigla para Lésbicas, Gays, Bi, Trans, Queer/Questionando, Intersexo e mais), desenvolvidos por organizações especialistas nos temas.

O advogado contou aos participantes que um projeto em curso do GIFE em parceria com o CEERT tem como perspectiva a construção de indicadores específicos para o setor do investimento social privado.

Próximos passos

Além da escolha do tema Diversidade e Equidade para a atuação da Rede em 2019, o grupo também deu início à construção de uma carta de adesão e de sua identidade visual. Os passos fazem parte da intenção de consolidar a atuação do grupo como Rede.

Um mapeamento de iniciativas específicas sobre o tema Diversidade e Equidade será realizado pelo grupo. O estudo subsidiará uma campanha sobre o tema, que também começou a ser pensada já no encontro. Na ocasião, Mariano Rico, gerente executiva do Instituto Estre, e Leandro Pinheiro, superintendente socioeducativo da Fundação FEAC – coordenadores da RIS do Interior Paulista -, conduziram um primeiro briefing sobre a ação junto aos presentes a partir da pergunta: O que não pode faltar em uma campanha sobre o tema Diversidade e Equidade?Os participantes registraram em tarjetas suas respostas, que serão sistematizadas e apresentadas no próximo encontro, agendado para acontecer em 25 de abril.

“Os dois primeiros anos serviram para nos conhecermos. Este ano, queremos dar um passo à frente. Mas, a ideia de fazer uma campanha com o tema Diversidade e Equidade só faz sentido se todos os membros da Rede se dispuserem a veiculá-la em seus canais, junto a seus colaboradores, internamente em suas organizações. Nossa intenção é mostrar que existe um conjunto de esforços entre as organizações do interior paulista que estão preocupadas com a causa a partir de um entendimento comum”, destacou Leandro.

O coordenador enfatizou ainda o convite para que outras organizações se disponham a sediar os próximos encontros, que possuem caráter itinerante pelas sedes das organizações que compõem a Rede. E salientou a importância de divulgação da iniciativa para que outras organizações da região se somem.

A Rede de Investidores Sociais do Interior Paulista

As Redes de Investidores Sociais são espaços fomentados pelo GIFE e organizados por seus associados com a finalidade de fortalecer cada vez mais o campo do investimento social privado no âmbito regional. A articulação propicia a organizações de determinada localidade trocar experiências, buscar soluções conjuntas para desafios regionais e refletir sobre temáticas transversais do setor por meio de encontros, eventos, seminários, entre outros formatos.

Criada em agosto de 2017 com o objetivo de qualificar e fortalecer a atuação socioambiental de empresas, fundações, institutos e organizações da região, a RIS do Interior Paulista possui uma agenda de encontros bimestrais e já percorreu os seguintes temas: Indicadores e Índice Paulista de Responsabilidade Social, Avaliação e Monitoramento, Governança e Transparência, Voluntariado, Negócios de Impacto, Atuação em Rede e Diversidade e Equidade.

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