Saúde menstrual ganha espaço como agenda de direitos de meninas e mulheres
Por: GIFE| Notícias| 15/06/2026
Crédito: Istock
Quatro em cada dez alunas brasileiras faltam às aulas pelo menos uma vez por mês por causa de sintomas menstruais. Entre as professoras, 12% também relatam ausências mensais pelo mesmo motivo. Os dados são de uma pesquisa inédita do Alana em parceria com o Instituto Equidade.info, realizada com mais de 2,5 mil estudantes e 303 docentes das redes pública e privada de todas as regiões do país.
O levantamento mostra que a saúde menstrual ainda tem impactos significativos na trajetória educacional de meninas e mulheres. Mais da metade das estudantes entrevistadas (57,7%) apontou as cólicas menstruais como principal sintoma associado às faltas escolares. Também foram relatados cansaço e dores no corpo (30,1%), dores de cabeça (28%), dor abdominal (20,1%) e vergonha ou medo de vazamentos (19,3%).
Os sintomas podem provocar até dois dias de ausência por mês. O estudo identificou ainda desigualdades raciais e regionais: alunas negras faltam até uma vez e meia mais às aulas por motivos menstruais do que estudantes brancas, enquanto a falta de banheiros adequados e de produtos de higiene aparece com mais força entre estudantes das regiões Norte e Centro-Oeste.
Os resultados surgem em um contexto de avanços recentes nas políticas públicas voltadas à dignidade menstrual. Desde 2024, o governo federal distribui absorventes gratuitamente por meio do Programa de Proteção e Promoção da Saúde e da Dignidade Menstrual, criado pela Lei nº 14.214/2021. A iniciativa busca garantir o acesso a produtos de higiene para estudantes de baixa renda e pessoas em situação de vulnerabilidade, além de promover ações de educação em saúde menstrual e combate aos estigmas relacionados ao tema.
Apesar dos avanços, a pesquisa aponta que o debate ainda precisa ir além do acesso a absorventes. O estudo sugere que a garantia da dignidade menstrual envolve desafios mais amplos relacionados à saúde, à educação e ao acesso a diagnóstico e tratamento adequados para condições como a dor pélvica crônica e a endometriose.
Os dados ajudam a explicar por que a saúde menstrual passou a ocupar lugar central na estratégia do Alana. Em maio, a organização anunciou um compromisso de R$ 300 milhões para ações voltadas à saúde menstrual de meninas, ao enfrentamento da dor pélvica e à pesquisa sobre endometriose ao longo dos próximos 14 anos.
Para Flavia Doria, CEO do Alana, a decisão surgiu a partir da compreensão de que a dor tem afetado diretamente o desenvolvimento de meninas e permanecido invisível nas discussões públicas.
“Quando passamos a analisar os dados sobre o que de fato tira as meninas da escola e afeta a vida delas, a dor apareceu como um dos fatores mais recorrentes. E quanto mais pesquisamos, mais ficou evidente uma realidade estrutural: a saúde da menina e da mulher é historicamente subfinanciada”, afirma.
Além dos impactos na educação, a iniciativa busca enfrentar um problema que acompanha mulheres ao longo da vida. A endometriose afeta uma em cada dez mulheres e pode levar até uma década para ser diagnosticada. Estudos apoiados pelo Alana também apontam que a dor pélvica continua subnotificada nos sistemas de saúde, dificultando diagnósticos e tratamentos adequados.
Investir para acelerar mudanças
Para além do volume de recursos, a iniciativa chama atenção pela forma como foi estruturada. O Alana adotou o modelo conhecido como spend-down, no qual os recursos são integralmente investidos em um período determinado. A expectativa é acelerar mudanças estruturais e estimular a mobilização de outros atores públicos e privados.
A opção por um compromisso de longo prazo contrasta com a realidade de boa parte do financiamento social no país. Segundo o Censo GIFE 2024-2025, 14% das organizações realizam apoios por mais de três anos, enquanto 41% dos apoios a organizações da sociedade civil têm duração de até um ano.
“Não enxergamos nosso papel como o de financiar tudo sozinhos, mas como o de gerar o estímulo necessário para que governos e investidores privados também olhem para o tema”, afirma Flavia Doria.
Para a CEO, a experiência também traz aprendizados para o campo do Investimento Social Privado (ISP). Entre eles, a necessidade de direcionar mais recursos para áreas historicamente negligenciadas e de construir estratégias articuladas entre filantropia, poder público, comunidade científica e organizações da sociedade civil.
“A saúde da menina e da mulher é profundamente subfinanciada. As grandes transformações acontecem quando sociedade civil, Estado e especialistas trabalham juntos”, finaliza.