El Niño intensifica eventos extremos e evidencia atraso da adaptação climática no Brasil
Por: GIFE| Notícias| 22/06/2026
Estragos e prejuízos aos moradores causados pelas chuvas em Belford Roxo, na Baixada Fluminense, que teve diversos pontos de alagamentos com a enchente do rio Botas. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Desde a confirmação do retorno do El Niño pela Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos EUA (NOAA), principal agência climática dos Estados Unidos, têm crescido as preocupações com o agravamento de secas no Norte e Nordeste, enchentes no Sul e incêndios florestais no Centro-Oeste, entre outros eventos extremos no Brasil. De acordo com um relatório divulgado pela NOAA, há probabilidade de 60% de que o fenômeno atinja intensidade forte até o final do ano.
Mas a preocupação sobre como se preparar para essa crise nos próximos meses não é exclusiva do Brasil. Segundo Márcio Astrini, secretário executivo do Observatório do Clima, o país é extremamente vulnerável e tem baixa capacidade de lidar com o problema. Ainda assim, quase nenhum país do mundo possui políticas de adaptação suficientes para enfrentar a crise climática, especialmente os países mais pobres.
“Há países no mundo que, por mais que queiram implementar políticas de adaptação, não vão conseguir. Por isso, mitigar — ou seja, evitar que a temperatura do planeta continue subindo — é o melhor, primeiro e mais necessário caminho”, afirma.
Já Roberto Kishinami, líder especialista sênior do Instituto Clima e Sociedade (iCS), aponta que o caso brasileiro tem diferentes dimensões. No planejamento agrícola, em algumas regiões, agricultores já vêm se adaptando, ao mudar o calendário de plantio e os tratos culturais. Mas em outros setores, como a proteção de populações em áreas de risco, ainda há pouco avanço. “Isso depende de ação local, que exige investimentos em desenvolvimento urbano, realocação de população e construção de habitações populares, o que ainda ocorre, em grande parte, sem considerar os riscos climáticos.”
Caiene Reinier, engenheira ambiental e sanitarista, concorda que, apesar de novos instrumentos que vêm sendo desenhados no Brasil — como o Programa Cidades Verdes Resilientes, o Plano Clima Adaptação, e a Resolução nº 511 do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) —, o nível de preparação do país para enfrentar os impactos de um El Niño intenso ainda é insuficiente, com uma abordagem reativa em vez de preventiva. Para ela, um reflexo direto dessa fragilidade estrutural é o fato de apenas 15% das cidades brasileiras possuírem um plano municipal de adaptação às mudanças climáticas, segundo levantamento do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden).
Mestranda em Ciências Ambientais pela Universidade Federal de Goiás, ela avalia ainda que as políticas de adaptação atuais muitas vezes falham por ignorarem que os eventos extremos afetam de forma desproporcional populações negras, periféricas e indígenas, além de pessoas idosas e de baixa renda. “A literatura aponta, inclusive, que políticas de adaptação mal integradas podem acabar aprofundando essas desigualdades em vez de reduzi-las.”
Diante desse cenário, Caiene Reinier defende que a transição de um paradigma de gestão de desastres para a construção efetiva de resiliência climática depende de investimentos maciços em infraestrutura resiliente nas periferias, da criação de orçamentos vinculantes para adaptação local e da implementação de sistemas de alerta precoce que dialoguem de forma direta e acessível com as realidades das comunidades mais vulnerabilizadas.
Recursos para construir resiliência
Entre os respondentes do Censo GIFE que atuaram na agenda de clima e mudanças climáticas entre 2024 e 2025, 32% investiram em adaptação e resiliência a eventos climáticos, atrás apenas de educação ambiental e mobilização comunitária (44%).
Para Roberto Kishinami, o melhor investimento hoje — em um momento ainda inicial do enfrentamento da mudança do clima na frente da adaptação — é em comunidades que já convivem com seus efeitos locais. Ele explica que essa estratégia se justifica porque, ao longo deste século, será necessário aprender a lidar com a crise combinando conhecimento local e ciência na construção. “Eventos extremos também são uma oportunidade para aprofundar e refinar esse conhecimento, que está espalhado. Não está apenas no laboratório ou no gabinete científico, mas sendo vivenciado localmente.”
Nesse sentido, Caiene Reinier ressalta que, para proteger as populações mais vulnerabilizadas, os recursos geram maior impacto quando são descentralizados e chegam diretamente aos territórios em risco. Alguns exemplos considerados altamente eficazes incluem o fomento a redes comunitárias de solidariedade, cooperativas de reciclagem, hortas e agricultura urbana de base agroecológica, mapeamento local de áreas de risco, sistemas de alerta comunitários e viveiros populares.
“O impacto é maximizado quando o investimento social privado reconhece e financia as soluções locais de adaptação que já existem e pulsam nas periferias e favelas”, finaliza.