Crise hídrica: Brasil já perdeu um Nordeste e meio de água

O Brasil perdeu, nos últimos 30 anos, 15,7% de sua superfície de água, o que representa 3,1 milhões de hectares. Em 1991, a área hídrica nacional era de quase 20 milhões de hectares. Em 2020, essa área caiu para 16,6 milhões. É uma redução equivalente a uma vez e meia toda região do Nordeste. Esses dados compõem uma ampla pesquisa sobre a perda florestal e hídrica desde o ano de 1991, divulgada recentemente pelo MapBiomas, do Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa do Observatório do Clima (SEEG/OC). 

O coordenador do MapBiomas Água, Carlos Souza Jr., explica que o resultado do estudo é preocupante porque a tendência de redução de água no país, a partir dos dados de satélites, é inquestionável.

“As evidências vindas do campo indicam que as pessoas já começaram a sentir o impacto negativo com o aumento de queimadas, impacto na produção de alimentos e de energia e até mesmo com o racionamento de água em grandes centros urbanos.”

O estado com a maior perda absoluta e proporcional de superfície de água foi o Mato Grosso do Sul, com uma queda de 57%.  Em 1985, o estado tinha mais de 1,3 milhão de hectares cobertos por água e, no ano passado, eram pouco mais de 589 mil hectares. De acordo com a MapBiomas, essa redução ocorreu, basicamente, no Pantanal e em toda a bacia do Paraguai. Em segundo lugar está o Mato Grosso, com 530 mil hectares a menos de água, e Minas Gerais, com uma perda de 118 mil hectares.

Água enquanto direito humano

Água e saneamento básico são considerados direitos humanos pela Organização das Nações Unidas (ONU). Apesar disso, há muito a avançar nesse campo para que toda a população brasileira tenha acesso a esses serviços essenciais para o desenvolvimento da vida. 

Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Segundo o Instituto Trata Brasil, atualmente 83,7% da população brasileira tem acesso a água tratada. Com isso, restam quase 35 milhões de pessoas sem acesso a esse serviço básico. Ao olhar para as regiões, no Norte, 57,5% da população é abastecida com água tratada, a menor taxa no país. No Nordeste, o abastecimento é de 73,9% da população. Já o Centro-Oeste conta com 89,7% da população atendida com água tratada. A região Sudeste possui a melhor porcentagem, 91,1%, seguida pelo Sul, com o índice de 90,5%.

A distribuição desse bem comum ainda é um desafio a ser enfrentado em um país continental. Os sistemas nacionais perdem, em média, 39,2% da água destinada para o consumo humano. São 7,5 mil piscinas olímpicas de água perdida todos os dias, o que daria para abastecer mais de 63 milhões de pessoas em um ano, 30% da população brasileira.

Diante desses dados, Renata Ruggiero Moraes, diretora-presidente do Instituto Iguá, afirma que trabalhar com água tratada e saneamento básico significa levar dignidade, saúde, autoestima e perspectiva de futuro para milhares de pessoas. A especialista afirma que a organização trabalha para acelerar a agenda de universalização aos serviços de água e esgoto no país, que, se mantiver no atual ritmo, será realidade apenas depois de 2060, segundo dados recentes da Confederação Nacional da Indústria (CNI).

O papel do poder público

O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) alertou o Ministério de Minas e Energia, no primeiro semestre de 2021, que os rios do país estavam com o menor volume médio de água dos últimos 91 anos. Algum tempo depois, a crise chegou à casa da população brasileira e, no mês de setembro, o ministro Bento Albuquerque, fez um pronunciamento em rede nacional para abordar a crise hídrica, dizendo que esta se agravou e apelando para um “esforço inadiável” de redução do consumo de energia elétrica. 

“Hoje, eu me dirijo novamente a todos para informar que a nossa condição hidroenergética se agravou. O período de chuvas na região Sul foi pior que o esperado. Como consequência, os níveis dos reservatórios de nossas usinas hidrelétricas das regiões Sudeste e Centro-Oeste sofreram redução maior do que a prevista”, afirmou na ocasião do pronunciamento.

Édison Carlos, presidente executivo do Instituto Trata Brasil, analisa que, ao chegar em uma crise como a atual, não há muito o que fazer, a não ser pedir à sociedade e a alguns setores para reduzirem o consumo. “Significa pedir ao cidadão comum para usar menos água em sua casa, no trabalho e também pedir à indústria, comércio e à agricultura para usar menos água até a recuperação dos reservatórios”. 

O importante, para Édison, é atuar no pós-crise e de maneiras que possam atenuar a problemática ao incentivar políticas e tecnologias que promovam o uso mais sustentável em todos os setores. “Incentivo a campanhas permanentes de uso racional junto à população, promoção da irrigação por gotejamento, por exemplo, incentivo às unidades de geração de água de reuso, dessalinização onde for cabível e outras formas já comuns em países mais secos”, propõe.

Agenda propositiva

O GIFE compreende o Investimento Social Privado (ISP) como agente propulsor de transformação da sociedade. Por isso, lançou a série O que o ISP pode fazer por…?. Sobre a temática da água, a iniciativa propõe diversas estratégias, objetivos e como os investidores podem contribuir.

O setor pode contribuir com a viabilização de etapas e processos que qualifiquem a cadeia de restauração; proposição e apoio a projetos de conservação das áreas naturais; incentivo à adoção de práticas de conservação por produtores rurais; e fomento a investimentos em infraestrutura natural direcionada à gestão da água.

Renata, do Iguá, acredita na atuação conjunta para gerar impacto positivo relevante. “Somente esforços coletivos levarão a um resultado à altura das demandas. Por isso, em tudo que fazemos, buscamos unir empresas, organizações e poder público para promover um impacto sistêmico e significativo.” 

Em 2022, próximo ao Dia Mundial da Água (22 de março), o 9º Fórum Mundial da Água será realizado pela primeira vez na África Subsaariana, em Dakar, e traz como tema “segurança da água para a paz e o desenvolvimento”. O evento busca identificar, promover e implementar respostas e ações concretas para a água e o saneamento de forma integrada.

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