“A Copa do Mundo pode ampliar o olhar sobre a diversidade do continente africano”, afirma especialista

Por: GIFE| Notícias| 29/06/2026

Torcida de Gana. Créditos: Pexels

A Copa do Mundo costuma ser apresentada como um dos maiores símbolos da integração entre povos. No entanto, a edição de 2026, realizada nos Estados Unidos, Canadá e México, vive um debate que extrapola o esporte. Restrições migratórias afetaram torcedores, jornalistas, árbitros e integrantes de delegações de diferentes países, especialmente da África e do Caribe.

Os episódios envolveram desde dificuldades para emissão de vistos até a negativa de entrada de profissionais credenciados. As medidas reacenderam discussões sobre xenofobia, circulação internacional de pessoas, heranças do colonialismo e o papel do esporte na construção de narrativas mais inclusivas.

O debate também dialoga com desafios enfrentados pelo Investimento Social Privado (ISP). Segundo o Censo GIFE 2024-2025, o setor mobilizou R$ 5,8 bilhões em 2024 em iniciativas de interesse público. Entre os temas que ganham espaço estão o fortalecimento da democracia, o enfrentamento das desigualdades, a valorização da diversidade e a ampliação do acesso a direitos.

Para o jornalista Luis Fernando Filho, especialista em futebol africano e criador dos projetos África Mamba e Ponta de Lança, os episódios registrados durante a Copa evidenciam desigualdades históricas que continuam moldando a forma como diferentes povos circulam pelo mundo e são percebidos internacionalmente.

Em entrevista ao redeGIFE, ele analisa como colonialismo, migração e geopolítica permanecem presentes no futebol contemporâneo e reflete sobre o papel da sociedade na construção de espaços mais inclusivos.

A Copa do Mundo costuma ser associada à ideia de integração global. O que os recentes episódios envolvendo restrições migratórias dos Estados Unidos a torcedores, jornalistas e profissionais de países africanos e latino-americanos revelam sobre quem tem, de fato, acesso a essa experiência global?

Esses episódios revelam, sobretudo, o conceito de “Terceiro Mundo” pela ótica do Ocidente e põe em xeque quem tem direito ao processo de globalização. Tudo isso, envolve direitos sociais, econômicos e de acesso aos grandes eventos.

A Copa do Mundo nos EUA deixa uma mancha para a imagem simbólica do torneio, onde o lema: “União dos Povos”, acabou se transformando em restrição a profissionais, comitivas e torcedores, o que legitima as desigualdades geográficas já existentes – principalmente em relação aos cidadãos africanos.

Dentro das suas análises você costuma defender que futebol, história e política são indissociáveis no continente africano. Como as heranças do colonialismo ajudam a explicar as desigualdades que ainda marcam a circulação de pessoas entre diferentes regiões do mundo?

Todo esse processo migratório de africanos indo para a Europa e, consequentemente, seus filhos defendendo as seleções europeias, é parte do colonialismo europeu. Cidadãos que foram arrancados dos seus países por desigualdades e conflitos causados historicamente por nações estrangeiras. É um processo histórico que ocasionou o fluxo migratório constante entre África e Europa.

Por outro lado, existe um novo contrafluxo dos ‘Filhos da Diáspora’, filhos de africanos nascidos em solo europeu que têm despertado uma consciência maior de retornar às suas raízes e representarem a nação dos seus países. E esse tipo de decisão, analisando o processo histórico, tem se tornado uma escolha política.

Casos como o do árbitro somali Omar Artan mostram que, muitas vezes, cidadãos de determinados países são vistos antes pela lente da suspeita do que pela de suas trajetórias individuais. Como o chamado “medo do outro” continua influenciando políticas migratórias e percepções sobre diferentes populações?

No caso do árbitro somali, Omar Artan, não existe outra explicação fora da política. Envolve interesses dos EUA nos conflitos da região onde fica a Somália, no Chifre da África. Os EUA, tendo em vista seu olhar ideológico e geopolítico sobre a Somália, não puniu apenas Omar Artan.

Foi uma punição e posicionamento político direcionado a todo o povo somali, e que estigmatizou a Somália como “terrorista” aos olhos do mundo, ou seja, todo cidadão com o fenótipo de Omar Artan passa a ter o peso imposto pelos padrões ocidentais. E isso acontece mesmo que você seja um grande árbitro de futebol ou qualquer outro cidadão de origem somali. 

A mídia e o esporte têm um papel importante na formação de imaginários sociais. Que contribuições uma Copa do Mundo pode trazer para ampliar o olhar sobre a África e combater estereótipos historicamente construídos sobre o continente?

A Copa do Mundo é uma oportunidade para expor a diversidade dos países africanos. Há muitas diferenças culturais do norte ao sul da África. Jeitos de torcer, praticar o jogo de futebol e diferenças na forma dos pensamentos dentro do continente africano.

O futebol africano vive um momento histórico, desde a primeira seleção africana chegando à semifinal da Copa do Mundo [Marrocos em 2022], até o mais recente aumento de vagas no torneio. Isso desencadeia um olhar menos ocidentalizado e a percepção de que o jogo na África foi modernizado, e já não cabe mais as análises rasas e estereotipadas sobre jogadores africanos.

Xenofobia, racismo e exclusão também são desafios sociais e culturais. Como o ISP, empresas e organizações da sociedade civil podem contribuir para enfrentar essas questões e fortalecer uma convivência mais inclusiva?

O caminho é a construção coletiva iniciando desde a África até suas diásporas, inclusive, no Brasil, o país que mais recebeu africanos do tráfico escravista. 

Investir em educação e, principalmente, no acesso das pessoas com origens africanas aos grandes debates sociais, é um dos caminhos. No Brasil, os jovens negros precisam ter mais acesso e espaços para debaterem os problemas reais do nosso país.

Não existe debate sobre o futuro do esporte, da comunicação ou da política, sem o envolvimento da população negra, que forma a base da pirâmide brasileira juntamente com os povos indígenas.


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