Blended Finance é uma oportunidade de expandir o impacto da atuação do ISP, defende especialista

Nos últimos anos, a expansão e diversificação do universo de atores que compõem o campo do investimento social e da filantropia no Brasil vêm inspirando também a difusão de novos modos de mobilização e combinação de recursos para temas diversos da agenda pública.

O 2º Mapa de Negócios de Impacto Social + Ambiental desvela um universo de instrumentos que despontam como soluções inovadoras para alavancar recursos financeiros para impacto. Uma janela de oportunidade tanto para o capital público e privado, quanto para o filantrópico. 

Somando recursos de agentes e fontes variadas, o chamado Blended Finance abre um leque de possibilidades para o financiamento de ações de interesse público, fazendo emergir um movimento de experimentação e inovação no setor, acelerado pela situação de emergência imposta pela pandemia.

As experiências e potenciais da ferramenta no contexto brasileiro foram tema de um painel realizado em novembro como parte do trilho de atividades do 11º Congresso GIFE.

Para aprofundar esse debate, o redeGIFE entrevistou Leonardo Letelier, fundador e CEO da SITAWI – Finanças do Bem, organização pioneira no desenvolvimento de soluções financeiras para impacto social.

Com mais de vinte anos de experiência em negócios, finanças e no setor social, o especialista falou sobre as perspectivas para o uso desse e de outros mecanismos na prática filantrópica brasileira.

Confira a entrevista a seguir.

redeGIFE: Qual é o panorama atual de experiências em curso no país na direção de novos modos de mobilização e combinação de recursos para o financiamento de iniciativas em temas da agenda pública?

Leonardo: Antes da pandemia, uma série de experimentações já vinham acontecendo no direcionamento de recursos filantrópicos, como os fundos independentes e filantrópicos ou mesmo o fomento maior ao grantmaking. Com a emergência, algumas dessas agendas se fortaleceram, uma vez que todo mundo queria ajudar e os institutos e fundações não conseguiriam executar tudo, como de costume. Na própria Sitawi nós vimos um aumento significativo do volume de recursos filantrópicos que gerenciamos por meio dos fundos independentes ou no caso do matchfunding com o Banco Nacional de Desenvolvimento (BNDES) criado para direcionar recursos à emergência, que ainda está recebendo capital e deve fechar entre 75 e 85 milhões de reais. Então, experiências que eram piloto viraram mainstream. Nesse sentido, a inovação foi bem escalada pela pandemia.

redeGIFE: Como esse panorama dialoga com a perspectiva ou oportunidade de inovação do investimento social privado brasileiro?

Leonardo: Olhando para o futuro, essa experimentação em maior escala frente à pandemia trouxe novos atores ou deixou os antigos mais próximos dessa inovação. Com isso, é provável que as fundações, institutos e as pessoas de forma geral estejam mais abertos ao uso desses novos modelos e também a testar outros.

redeGIFE: O que está por trás do conceito de Blended Finance? E quais são os principais desafios no que se refere ao uso e à difusão do instrumento no Brasil.

Leonardo: O instrumento consiste em usar um tipo de capital para alavancar outro. Usa-se capital filantrópico, por exemplo, para alavancar capital de mercado. Por trás disso estão empreendimentos que, eventualmente, precisam de mais capital do que só o filantrópico, mas não conseguem retornar capital nas taxas que o capital de mercado demanda. Juntar os dois permite dar a cada um o que ele precisa: para o capital tradicional o retorno e para o capital filantrópico o impacto com a alavancagem do primeiro. O principal desafio está no nível de complexidade em ter que agregar pessoas com objetivos e conhecimentos distintos em uma mesma estrutura.

redeGIFE: Cite referências ou experiências inspiradoras no plano nacional e internacional que possam contribuir para ampliar os horizontes de difusão do instrumento no contexto brasileiro.

Leonardo: A plataforma de empréstimo coletivo da Sitawi é um case inspirador porque une pessoas físicas com um retorno satisfatório e institutos e fundações ou cooperações internacionais dispostas a correr mais risco, dando aos negócios um subsídio maior.

redeGIFE: Qual é a relação entre Blended Finance e Venture Philanthropy? Há convergências possíveis entre as duas abordagens? Se sim, quais?

Leonardo: Venture Philanthropy [VP] é uma filosofia de impacto e Blended Finance é uma ferramenta. A VP nasce da premissa que, além de capital, as organizações que geram impacto também precisam de outros tipos de apoio não financeiro. Então, você pode ter operações de Blended Finance dentro de uma estrutura de Venture Philanthropy, o que é, inclusive, bastante comum.

redeGIFE: Qual é o potencial do Blended Finance para o financiamento do setor de impacto (empreendimentos e organizações intermediárias)?

Leonardo: É alto, mas não vai acontecer da noite para o dia. Exige dedicação, tempo e, como outras inovações, subsídio do capital filantrópico. Recomendo a leitura de um artigo que publiquei no LinkedIn sobre os três conceitos [Venture Philanthropy, Blended Finance e Investimento de Impacto] e a relação entre eles.

redeGIFE: Que oportunidades podem ser vislumbradas para a atuação do ISP na direção de contribuir com a ampliação e difusão do instrumento para o financiamento de causas sociais e ambientais?

Leonardo: As fundações e institutos podem fazer mais e melhor e quando eu falo mais, não é mais projetos próprios, mas sim grantmaking, financiar e apostar em coisas diferentes. Por exemplo, investir em organizações intermediárias do ecossistema de impacto é uma oportunidade de gerar bastante inovação com um pouco de capital filantrópico. E esse é um papel do setor: fomentar a inovação, assumir o risco que o capital dos institutos e fundações permite, podendo ser um capital concessional, o último a retornar ou a garantia dentro de uma estrutura. E o melhor uso disso não é focar em quantas transações de Blended Finance o capital propiciou, mas quantas transações esse capital fomentou. Se o investimento for direto, talvez seja dez, mas se for em um intermediário, eventualmente serão quarenta. E isso acaba tendo muito mais valor e é o melhor uso para esse tipo de capital.

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