Rede Temática discute como organizações da sociedade civil e governos estão incorporando os negócios de impacto social

O sexto encontro da Rede Temática de Negócios de Impacto Social do GIFE aconteceu no dia 19 de setembro, em São Paulo. Foi um momento intenso de reflexão e também de novas provocações para os institutos e fundações presentes de como atuar cada vez mais neste campo.

Isso porque os participantes tiveram a oportunidade de conhecer de perto e debater sobre as tendências, desafios e os caminhos que organizações da sociedade civil (OSC) e governos estão traçando para incorporar práticas e perspectivas trazidas pelos negócios de impacto social.

Para trazer subsídios à discussão, Graziella Comini, coordenadora do Centro de Empreendedorismo Social e Administração em Terceiro Setor da Universidade de São Paulo (CEATS), apresentou o resultado da pesquisa “Lições da prática: reflexões sobre os elos entre OSC e negócios de impacto socioambientais”, promovida pelo CEATS, em parceria com o Instituto de Cidadania Empresarial (ICE) e a Ashoka.

O estudo contou com várias etapas, iniciando pelo mapeamento de 50 lideranças de OSCs que já tinham implementado em suas organizações algum tjpo de experiência de geração de receita. A partir desse grupo, foram selecionados 12 líderes para compor um grupo heterogêneo de organizações mais antigas e novas em diferentes segmentos socioambientais que participaram de entrevistas. Em seguida, foi promovido um workshop, com 25 lideranças de cinco estados, para aprofundar os assuntos levantados e, por fim, um webinar com 11 empreendedores sociais e gestores de OSC.

A proposta foi entender, na prática, quais eram as soluções hoje presentes, quais as tendências de transformação organizacional e como estas práticas buscam garantir a obtenção do impacto socioambiental com retorno e escala, a fim de promover caminhos de aproximação entre os diferentes atores sociais.

Entre as lições aprendidas, a primeira é de que há uma abertura real por parte das OSC para pensar em iniciativas de mercado, vendo essa como mais uma possibilidade de gerar renda para atingir a sua missão. E essa abertura se dá em diferentes formas, com uma diversidade de modelos e formatos. Segundo a especialista, eles não são excludentes e nenhum deles é o ideal. “Cada organização deve analisar e definir o que é ideal a partir da sua realidade”, disse Graziella.

Entre os formatos existentes é possível identificar o de prestação de serviços, ou seja, a OSC passa a reconhecer uma expertise que tem e realiza uma consultoria, por exemplo, a partir deste conhecimento. Como exemplo há o Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPE), uma organização sem fins lucrativos criada com o objetivo de promover a conservação da biodiversidade por meio de pesquisa, educação e envolvimento comunitário. Em 2012, o Instituto, utilizando sua expertise no tema, elaborou um estudo para a empresa Danone com o objetivo de avaliar sua dependência e o impacto de suas atividades nos serviços ecossistêmicos ao longo de sua cadeia de valor.

Outro formato é o de criação de uma Unidade de Negócios. Ele acontece, normalmente, quando a prestação de serviço passa a ficar frequente e a OSC decide ter uma postura mais proativa, em busca de clientes para poder oferecer produtos e serviços. Esse foi o caso da Gastromotiva, que surgiu como uma organização voltada à inclusão social. Com a necessidade de criar um espaço de aprendizado prático para os alunos, bem como de fomento de propostas inovadoras para aproveitamento integral dos alimentos, foi criado um refeitório/restaurante, que oferece alimentação de qualidade à população vulnerável do Rio de Janeiro a partir de sobras de restaurantes/ supermercados. A geração de receita advém da oferta de almoços para executivos e eventos corporativos.

A pesquisa identificou também a possibilidade de criação de uma empresa, que diferentemente de uma unidade de negócio, tem maior autonomia e liberdade para definição de estratégias de atuação. Neste caso, o superávit da empresa é canalizado para as atividades da organização. Por fim, há aquelas OSCs que passaram pela transformação do seu modelo de atuação.

A coordenadora do CEATS destacou que há alguns fatores impulsionadores dessa aproximação das OSC com iniciativas de mercado, tanto por questões externas, ou seja, de contexto, quanto de percepções e movimentos internos das organizações.

Entre as principais motivações está a dificuldade na captação de recursos, principalmente após a crise internacional de 2008 e os compromissos de financiamento pelo mesmo doador por um período curto, de no máximo três anos. Além disso, há também uma demanda de alguns potenciais clientes que passam a solicitar às OSCs a prestação de serviços, assim como o contato mais próximo com este campo de negócios de impacto a partir da participação das OSC em eventos, fóruns e workshops sobre este tema.

Já em relação às motivações internas, percebe-se um movimento das equipes em refletir sobre a necessidade de revisão de modelo de atuação, assim como a consciência sobre as competências organizacionais que podem ser melhor exploradas e colocadas à serviço de novas atividades na sociedade, garantindo a ampliação, inclusive, do impacto.

“Os desafios, porém, não são poucos. Percebemos que há ainda uma resistência do mercado para remunerar a prestação de serviços das OSC a preços competitivos, assim como a dificuldade de algumas empresas não vislumbrarem as organizações como potenciais consultores. Outro fator é que há muitos financiamentos sendo direcionados a startups e o capital semente disponível ainda é insuficiente para testes de modelos inovadores nas OSC”, comentou Graziella.

Já em relação aos desafios internos, as organizações apontaram a falta de compreensão das terminologias do ambiente de negócio, a necessidade de se ampliar a noção do planejamento; alguns desafios culturais internos, com a preocupação do negócio desviar a missão da OSC; assim como o perfil dos funcionários, com pouco conhecimento do ambiente do mercado.

De acordo com a coordenadora do CEATS, a partir de todo o processo da pesquisa, foram identificados pontos de aprendizado de quem já passou por essa jornada. Entre eles estão: a importância de trabalhar em rede, identificando outras OSC que podem juntas desenvolver iniciativas e serem mais fortalecidas; a liderança conseguir extrapolar outras formas e entender melhor as oportunidades externas; balancear na organização os funcionários com diferentes perfis; definir objetivos e acompanhar resultados continuamente para que não haja risco de desvio de missão; entre outros.

“Entre as principais reflexões, pontuamos a necessidade sempre de que as iniciativas de mercado estejam a serviço da missão. Que o portfólio de produtos e serviços esteja alinhado ao propósito maior da organização, senão, vai ficar só na venda e isso irá representar muito pouco no orçamento da entidade. É essencial também avaliar as oportunidades vindas de políticas governamentais, regulamentações setoriais, como, por exemplo, a Política Nacional de Resíduos, cotas para deficientes, fazer estas conexões. E é preciso construir uma ponte, ter um elo entre as duas lógicas – o social inclusivo e o mercado competitivo. O aprendizado e essa interação tem que ser mútuo. A ideia é que quem já entrou no percurso social, possa também contaminar quem está no mercado e na troca poder estabelecer outras bases”, ponderou a especialista.

A prática

Para compartilhar com os presentes como estas questões têm sido discutidas e vivenciadas na prática, três gestores participaram do encontro da Rede Temática e puderam contar sobre a sua experiência.

O Instituto de Socioeconomia Solidária (ISES) é um exemplo de OSC que mudou todo seu modelo de atuação. O Instituto foi fundado em 2004 com o objetivo de implementar projetos de extensão universitária voltados para erradicação da pobreza, a partir do fomento de negócios de base comunitária na periferia paulistana.

Felipe Bannitz, presidente do Instituto, contou que, nesta época, a organização levantava demandas sociais, criava projetos e buscava apoiadores. “Aos poucos, começamos a entender que esse era um modelo de sustentabilidade muito frágil, que ficava suscetível demais às mudanças de diretrizes de financiadores, às crises etc.”. Neste sentido, a equipe decidiu então mudar a lógica de atuação e transformar o seu conhecimento, tecnologias criadas e expertise em um portfólio de serviços.

Hoje o ISES tem como foco de atuação a estruturação de estratégias de investimento social público e privado, bem como facilitar o relacionamento com as comunidades do entorno de cada parceiro ou cliente. Ele é um provedor de soluções socioambientais, ou seja, passou a ter uma lógica de ação B2B.

Já a Associação Saúde Criança (ASC), fundada em 1991 pela Dra. Vera Cordeiro, tem buscado novas formas de compor seu orçamento, valorizando todo o conhecimento e a metodologia social criada e testada ao longo dos 26 anos de atuação.

“Após conviver como médica, em um hospital público no Rio de Janeiro, com centenas de crianças capturadas em um círculo vicioso de miséria, doença, internação, reinternação e morte, entendi que o nosso trabalho no hospital tinha seus limites. Criamos uma organização que trabalha com a família, sob o ponto de vista biopsicossocial, não para substituir o Estado, mas para complementar o ato médico dando maior sentido às suas ações. Para quebrar esse círculo vicioso, o Saúde Criança mudou na prática o paradigma da saúde, executando junto às famílias intervenções mais abrangentes, integradas em cinco áreas: saúde, educação, renda, cidadania e moradia, promovendo assim o desenvolvimento humano”, contou Vera Cordeiro, fundadora e presidente do Conselho de Administração da ASC.

Hoje, a organização atua então várias frentes, com atendimento às famílias, prestando consultorias para empresas, governos etc., realizando seminários, workshops, criando aplicativos que possam aumentar o impacto do que faz. A ASC conta também com um modelo de licenciamento, em que várias outras organizações pelo Brasil utilizam a sua metodologia.

Já no Projeto Arrastão, localizado na zona Sul de São Paulo, o tema de empreendedorismo se entrelaça com a própria história da instituição, tendo em vista que a geração de renda sempre foi um fator muito relevante para as famílias atendidas. Porém, durante muitos anos, esse assunto esteve diretamente ligado apenas aos projetos e não ao modelo de financiamento da própria organização.

Há três anos, com uma parceria com a Fundação Telefônica Vivo, o Arrastão foi convidado a desenvolver uma metodologia de empreendedorismo, inovação e impacto social com jovens. Esse movimento fez com que a organização fizesse mudanças no seu modelo de gestão. “Fizemos vários pilotos, sistematizamos a metodologia, e estamos agora ensaiando para vender essa expertise. Ou seja, temos o conhecimento e podemos colocá-lo também como possibilidade de geração de renda para a organização”, comentaram Katya Delfino, coordenadora de assuntos corporativos, e Henrique Heder, coordenador dos Núcleos Empreendedores.

Apoio do ISP

Ao longo do encontro, os participantes tiveram a oportunidade de discutir também sobre como os institutos e fundações podem ajudar a construir estes elos entre OSC e negócios, em debate com os empreendedores sociais.

Felipe Bannitz, presidente do ISES, ressaltou alguns pontos de destaque na conversa com seu grupo. Para eles, é fundamental os investidores reconhecerem a experiência das organizações e dar prioridade na contratação daquelas que oferecem serviços. Além disso, há uma oportunidade para que os investidores, que já apoiam negócios de impacto, em promover uma conexão com as OSCs que são parceiras, a fim de que possam trocar experiências e aprender mutuamente, levando conhecimento para os territórios de sua influência.

“Ao trabalharmos em parceria com as empresas temos a oportunidade de transformar também a atitude interna. Podemos ajudá-las a olharem a ótica de social de outra forma, causando um grande impacto. Precisamos aproveitar isso”, comentou André Albuquerque, da empresa Terra Nova e organização Renascer.

As organizações destacaram também a importância das OSCS e negócios de impacto sistematizarem seus vários conhecimentos, as tecnologias que já foram desenhadas para institutos e fundações, e possam apresentar e disseminar mais, a fim de atingir novos investidores que ainda não conhecem essas práticas.

“As OSCs têm muito a contribuir para a justiça social, mas percebo que o segundo setor também precisa fazer o mesmo movimento para se aproximar deste desafio. As fundações e institutos têm um grande papel de intermediar, facilitar e potencializar este diálogo entre as organizações e as empresas. E temos que fazer a nossa lição de casa também, estudar a cadeia de negócios das empresas para que possamos contribuir neste processo de uma forma efetiva”, ponderou Henrique Heder, do Arrastão.

Oportunidades em políticas públicas

“Governos e startups em parceria para solucionar desafios de interesse público”. Essa é a aposta do Pitch Gov.SP, programa do governo do Estado de São Paulo, que visa identificar startups interessadas em apresentar soluções para diversas demandas da sociedade.

Durante o encontro da Rede Temática, Eduardo H. de Azevedo, da Secretaria de Inovação do Governo do Estado, esteve presente para apresentar a iniciativa, que pode contar com o apoio dos investidores sociais. “O programa surge num momento que o governo busca entender as novas soluções que surgem no âmbito da sociedade e como poderia trazer para os seus processos, a fim de melhorar os serviços. Ao mesmo tempo, temos uma série de startups querendo validar suas soluções e alcançar escala com impacto positivo”, destaca Eduardo.

A primeira edição do programa, que aconteceu em 2015, lançou 35 desafios nas áreas de Educação, Saúde e Facilidades ao cidadão apresentados pelas secretarias e órgãos de governo. Na ocasião, 304 startups apresentaram soluções – sendo 181 válidas – e, ao final, nove empresas testaram seus produtos em até 20 meses em parceira com o governo, implementando suas propostas para melhorar os serviços públicos e facilitar a vida dos cidadãos. Entre as startups selecionadas estiveram a Nama, com atendimento virtual para agendamento de serviços no Poupatempo, e o ClassApp, ferramenta de agenda utilizada no Centro Paula Souza para interação entre alunos, professores, família.

Segundo Eduardo, o momento atual é de definição e criação de licitação para contratação destas startups, algo novo no governo. “Há uma grande oportunidade para os investidores sociais apoiarem estes negócios na segunda fase dos testes, por exemplo, tendo em vista que muitos não têm possibilidade de arcar com os custos até o lançamento da licitação. Essas soluções precisam de recursos para que possam continuar e passar por este período que chamamos de ‘vale da morte’”, comenta.

A segunda edição da chamada já foi lançada e está com inscrições abertas até o dia 15 de outubro. Serão selecionadas 16 startups que possam apresentar soluções em oito áreas de atuação, com 42 diferentes desafios (clique aqui e conheça). Entre os critérios de seleção estão: maturidade da empresa (faturamento anual e investimentos recebidos); modelo de negócios (viabilidade técnica, capacidade de escalonamento e modelo de monetização); equipe (experiência profissional e acadêmica, além de complementaridade técnica e diversidade de gênero); compatibilidade com o desafio proposto, inovação e singularidade da proposta e benefícios esperados.

No dia 28 de setembro haverá um workshop de apresentação do programa em parceria com o SEBRAE-SP, Escola de Negócios Sebrae, no Campos Elíseos. Na ocasião, serão apresentadas dicas sobre o edital, processo de inscrição, modelos de negócios e uma sessão dedicada a perguntas e respostas dos interessados. Inscrições para o workshop pelo link: http://bit.ly/pitchgov2.

Negócios e empoderamento feminino

Os negócios de impacto têm provocado mudanças e transformações em diversos campos. Para entender como o ecossistema do empreendedorismo social tem impacto também no empoderamento de mulheres, a British Council acaba de produzir um estudo em cinco países – Brasil, Índia, Paquistão, o Reino Unido e os EUA – sobre esta questão.

No Brasil, o relatório “O  papel dos negócios sociais no apoio ao empoderamento feminino no Brasil” foi escrito por Mark Richardson e Anette Kaminski, e contou com o apoio da NESsT Brasil. A pesquisa explora os pontos fortes e as fraquezas do negócio social enquanto mecanismo para o empoderamento de mulheres e contempla as diferentes maneiras em que está aplicado para tanto.

Foi verificado que os modelos de negócios sociais estão sendo usados especificamente como apoio ao empoderamento feminino no país de três maneiras poderosas: como forma de criar o empoderamento econômico para as mulheres por meio do micro empreendedorismo; como maneira de oferecer oportunidades de treinamento ou emprego para mulheres; para fornecer produtos e serviços para mulheres a custos acessíveis.

Porém, estes negócios sociais tendem a não contar com boas redes estruturadas. Existe uma oportunidade para maior colaboração, compartilhamento de melhores práticas e a replicação de modelos de sucesso. E sinaliza que a maioria das mulheres que dirigem suas próprias empresas acredita que as barreiras para um crescimento efetivo de seus negócios são a falta de compartilhamento de conhecimento e o acesso equitativo às oportunidades de financiamento e a uma ampla rede de contatos.

O relatório apontou que um recente estudo sobre empresariado social da Thomson Reuters Foundation ranqueou o Brasil (entre 44 países) como o pior lugar para ser uma empreendedora social. O setor de negócio social no Brasil reflete as desigualdades da economia brasileira. As mulheres estão subrepresentadas na propriedade e na liderança; quanto maior o negócio social, menor a probabilidade de encontrar uma mulher na liderança; negócios sociais liderados por mulheres são menores e com menor probabilidade de crescer; e mulheres gerindo negócios sociais ganham menos que suas contrapartes masculinas.

Em todos os outros países estudados para esta pesquisa, apesar destas desigualdades persistirem no setor do negócio social, elas são menores do que no setor com fins lucrativos. No Brasil, este não parece ser o caso. Uma das descobertas mais marcantes desta pesquisa é que as mulheres têm menor representação no empreendedorismo social do que no com fins lucrativos. 43% das empresas com fins lucrativos no Brasil pertencem a mulheres e 59% das empresas brasileiras têm uma mulher entre seus principais proprietários. Por contraste, apenas 20% dos negócios sociais foram fundados por mulheres e 58% foram fundados por equipes totalmente masculinas. Isto é totalmente contrário ao evidenciado em todos os outros países estudados pela pesquisa onde o setor de negócio social tem uma representação maior de mulheres empreendedoras e líderes do que o setor com fins lucrativos.

A pesquisa

Confira aqui a pesquisa completa.

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