Conferência Ethos 360º debate democracia, tecnologia, desigualdades e ODS

“Vivemos a urgência de não deixar ninguém para trás”. Foi com essa reflexão que Caio Magri, diretor-presidente do Instituto Ethos, abriu a 21ª edição da Conferência Ethos 360º, realizada nos dias 3 e 4 de setembro, no pavilhão da Bienal, no Parque Ibirapuera, em São Paulo.

Realizados simultaneamente em cinco palcos, os 60 painéis que integraram a programação do evento abordaram com temáticas diversas, desde desigualdades, sistemas de justiça, empreendedorismo, inovação e transparência, até reciclagem, baixo carbono, bionegócios e desmatamento. Em comum, todos os assuntos giraram em torno dos esforços empregados globalmente para cumprir com a Agenda 2030 da Organização das Nações Unidas (ONU) e seus 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).  

Ricardo Young compôs a mesa de abertura intitulada “Dividir para conquistar: como seremos capazes de resgatar a integridade da democracia?”. O presidente do conselho deliberativo do Instituto Ethos pontuou que houve piora em diversos aspectos, entre eles o político, social e econômico, que o manifesto do Instituto Ethos – lançado durante a 20ª edição da Conferência – apresenta. Entretanto, reforçou que é preciso reconhecer o esforço do mercado, de empresas e da sociedade como um todo para mostrar que a economia sustentável é benéfica. 

“Nós estamos aqui hoje para fazer avançar uma agenda que interessa a todos. É necessário ter consciência de que empresas são motores não só de mercado, mas são espaços que dão exemplos, onde as pessoas passam boa parte de seus dias e discutem propósitos e valores. Nós temos compromisso com uma agenda global que nos puxa para frente, para uma sociedade mais sustentável e com visão de futuro”, defendeu Ricardo. 

Em um estudo que vem realizando há dois anos, Esther Solano, socióloga e professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), comenta que a maioria das pessoas, cansada do radicalismo, deseja recuperar o diálogo, mas não sabe como fazê-lo. Entre as palavras que mais escuta em seu trabalho estão ‘abandono’ e ‘descartável’. “As pessoas sentem que podem perder o emprego a qualquer momento. Quando tratamos de regiões periféricas, há o sentimento de que o próprio corpo é descartável. Como podemos falar de democracia, se não cumprimos nem o respeito pela vida, já que jovens negros e periféricos não sabem se voltarão para casa vivos?”, questionou. 

Nesse cenário de fim das eleições e demanda da população pela retomada e reconstrução do diálogo, inclusive entre partes divergentes, Esther reforçou a necessidade de um processo de reencantamento da política, não só no que diz respeito a partidos políticos, mas no sentido de a política ser o instrumento de construção coletiva da população. “Como conseguimos levar conhecimentos minimamente provocativos e sedutores para jovens quando temos uma estrutura governamental que vai na contramão e aposta na radicalização? Temos que apostar na cultura e em laços que unam e humanizem as pessoas. E essa reconstrução passa por todos. Podemos escolher ter um vínculo pelo ódio e ressentimento ou reconstruir um país movido por afetos, solidariedade e coletividade.” 

A tecnologia reproduz desigualdades  

A mesa “O que ou quem controlará os algoritmos – o racismo estrutural e institucional na era digital” foi contra o senso comum de que a tecnologia é neutra e apresentou casos que comprovam que esta carrega vieses daqueles que a produzem ou programam. “A tecnologia acaba absorvendo a desigualdade que nós reproduzimos no nosso dia a dia. A discriminação via formas tecnológicas acontece de duas formas: a invisibilidade ou ultravisibilidade de forma negativa”, comentou Sheila de Carvalho, coordenadora de Práticas Empresariais e Políticas Públicas do Instituto Ethos. 

Tarcízio Silva, co-fundador e diretor de pesquisa em comunicação do Instituto Brasileiro de Pesquisa e Análise de Dados, exemplificou como o racismo algorítmico acontece: seja por uma plataforma que discrimina palavras e expressões usadas por determinados grupos sociais ou por softwares de reconhecimento facial que não identificam o rosto de pessoas negras.  

“Tecnologias discriminatórias não são novas. O racismo algorítmico não é uma questão de matemática, pois o aprendizado das máquinas se baseia na sociedade. A discriminação nesse âmbito não é uma questão somente de computação e desenvolvedores. É necessário um esforço multidisciplinar para evitar esses casos”, comentou o pesquisador. 

Silvana Bahia, coordenadora de comunicação do Olabi, organização social do Rio de Janeiro que busca democratizar a produção de tecnologia, defendeu que é preciso pensar a diversidade não como um selo que muitas empresas buscam hoje em dia, mas na cultura interna da organização, para que todos os profissionais sintam-se integrados. “Não há como olhar para cargos de liderança, perceber que não há nenhum negro e não fazer nada. Hoje, muito se discute inovação e sabemos que isso não acontece sem diversidade.”

Dentro do projeto Pretalab, por exemplo, Silvana participou de uma pesquisa sobre mulheres negras e indígenas que trabalham com tecnologia, que mapeou mais de 500 mulheres. “Vimos que há muita riqueza, mas que essas mulheres não estavam aparecendo. Tudo isso se relaciona ao campo da subjetividade: quando você não vê ninguém parecido com você em determinado espaço, entende que não pode estar ali. A partir dessa pesquisa, lançamos recentemente uma nova ferramenta que reúne perfis de mulheres negras que trabalham com tecnologia. Isso não paga a conta e nem resolve o problema, mas é parte do caminho.” 

Debora Pio, coordenadora de mobilizações do Nossas, laboratório carioca de ativismo, defendeu que uma das maneiras de reduzir o gap informacional entre quem faz e quem usa tecnologia é possibilitar que essa seja criada e/ou programada por pessoas engajadas na causa. Para exemplificar, citou a Beta, um robô criado pelo Nossas para informar pessoas a respeito da luta feminista no Brasil usando o Facebook. 

Política e desmatamento 

Em 30 anos de monitoramento da floresta amazônica, o Brasil perdeu 788 mil quilômetros quadrados de mata original, aproximadamente 19,7% da floresta. Esse foi um dos dados apresentados no painel “O que será preciso para o Brasil combater o desmatamento ilegal até 2030?”

Alfredo Sirkis, diretor executivo do Centro Brasil no Clima, afirmou que no ritmo atual, o Brasil corre o risco de chegar a 2020 com o desmatamento da região acima de 10 mil quilômetros quadrados, quando esse número deveria estar abaixo de três mil. 

“Além de o IBAMA precisar recuperar sua capacidade de fiscalização, nós precisamos combater a miséria. Uma opção é o mecanismo de pagamento por serviços ambientais prestados como um projeto gerador de renda para a região. No lugar de uma serraria, pode funcionar um centro de formação para a comunidade local, por exemplo. Mas esses são mecanismos emergenciais. É hora de a sociedade se mobilizar e lutar por algo que não é impossível. Nós sabemos como fazer, pois já reduzimos muito o desmatamento da Amazônia. Devemos usar as ferramentas tecnológicas que nos permitem fazer mais e melhor.” 

Cláudio Almeida, coordenador do Programa Amazônia, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), reforçou que é de extrema importância que a sociedade faça uso dos dados e imagens produzidos acerca da floresta. “O valor dos dados está em seu uso e não na venda. A sociedade precisa entender que monitorar não significa ter um ‘dedo duro’ do desmatamento. São dados importantes para a cadeia produtiva, por exemplo. Quem produz legalmente deve se empoderar dessas informações.” 

O coordenador chamou atenção para consequências nas capacidades de monitoramento que o enfraquecimento do INPE pode trazer. E reforça que é importante que existam outras organizações, inclusive na esfera civil, que também realizem monitoramentos da Amazônia. “O estado brasileiro não pode depender de terceiros para ter informações tão estratégicas sobre o país. Além disso, é importante que o monitoramento não seja feito pela mesma instituição responsável por controlar o desmatamento. O INPE tem isenção para monitorar o desmatamento.” 

Victor Salviati, coordenador de projetos especiais da Fundação Amazonas Sustentável, mediou o debate e reforçou que a Amazônia ter 50 milhões de hectares de áreas não destinadas é mais um fator que contribui para a deterioração da região. “A Amazônia é uma bagunça fundiária. Ninguém sabe quem é dono do que. Para uma pessoa falar que a terra é dela, ela queima e coloca gado. Isso contribui ainda mais para o aumento do desmatamento em um movimento de flexibilização da política ambiental.” 

Entre os caminhos apontados, Victor citou o fomento à agricultura familiar e a necessidade de percepção por parte do sistema financeiro de possibilitar o acesso a crédito e incentivar agricultura de baixo carbono. “O Plano ABC do governo federal [Plano Setorial de Mitigação e de Adaptação às Mudanças Climáticas para a Consolidação de uma Economia de Baixa Emissão de Carbono na Agricultura] é um ótimo exemplo, mas não tem conseguido chegar na ponta. O Brasil está passando por um momento desafiador, mas temos capacidade de reverter isso com dados e ferramentas. Cabe a nós enquanto sociedade nos posicionar contra aquilo que não achamos correto.” 

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