Conheça os quatro selecionados da segunda edição do Fundo BIS

De acordo com o Monitor das Doações, da Associação Brasileira de Captadores de Recursos (ABCR), mais de R$ 5 bilhões já foram doados para combater os efeitos da crise causada pela pandemia da Covid-19. Entretanto, uma cultura de doação vai além da contribuição em momentos de crise e diz respeito a um apoio regular, atrelado à crença de que essas doações podem, de fato, gerar uma transformação social. 

Segundo a edição comemorativa do CAF World Giving Index (WGI), ranking produzido anualmente para medir o grau de solidariedade das nações ao redor do mundo, nas três categorias analisadas (Ajuda a um estranho, doação de dinheiro a uma organização e doação de tempo com trabalho voluntário), o Brasil ocupa as posições 63, 67 e 84, respectivamente, o que ilustra que há potencial para crescimento. 

Apoiar iniciativas que colaborem e criem mecanismos para o fortalecimento da cultura de doação no Brasil é o objetivo principal do Fundo BIS. Se a primeira edição financiou quatro projetos nas frentes de inovação, comunicação, produção de conhecimento e advocacy, dessa vez, o Fundo buscou ações de desenvolvimento e criação de novas plataformas, ferramentas, soluções e serviços inovadores que possibilitem o mapeamento e a conexão estratégica e facilitada entre quem doa/financia e quem executa/realiza projetos sociais, ambientais, científicos e culturais de finalidade pública, incluindo negócios de impacto.

Karen Polaz, uma das integrantes da equipe do GIFE responsável por coordenar a iniciativa, explica que além de ter como foco fazer a ponte entre quem dispõe de recursos, os doadores, e quem precisa do financiamento, os donatários (grantees), o segundo edital também teve como objetivo buscar soluções para consolidar a relação entre eles. “A ideia é que essa relação possa se estreitar e se aprofundar, gerando confiança, sendo cada vez mais transparente, eficiente, duradoura, fluida e menos burocrática, para que possamos superar desafios e facilitar processos que envolvem diversas fases dessa relação entre eles, como prestação de contas, comunicação das ações e monitoramento e avaliação de projetos, por exemplo.” 

Para ela, o Fundo BIS é uma oportunidade relevante para que o campo possa construir uma visão mais estratégica em relação ao grantmaking, que será necessária no processo de recuperação pós-pandemia. “Além da crise sanitária, há um prejuízo da economia que está colocado para o campo, o que poderá afetar a sustentabilidade econômica das organizações da sociedade civil e de uma ampla gama de instituições, causas, iniciativas e projetos comprometidos com a produção de bem público. É fundamental um esforço coletivo e estratégico, de curto, médio e longo prazo, para que os recursos continuem chegando àqueles que precisam, o que está intrinsecamente ligado ao fortalecimento da cultura e das práticas de doação e grantmaking no Brasil”.

Conheça os projetos selecionados 

Plataforma Dia de Doar Kids 

A Plataforma de Educação para a Gentileza e Generosidade Dia de Doar Kids, iniciativa da Umbigo do Mundo, de São Paulo, traz no nome a sua proposta: difundir os conceitos de gentileza e generosidade desde cedo às crianças com o apoio de educadores. Em um dos eixos, a ideia é divulgar metodologias testadas no Brasil e em outros países, informações práticas e estudos de caso para que professores possam se inspirar e levar o tema para a sala de aula. Com isso, a iniciativa procura ofertar conteúdos descomplicados e, assim, estimular que docentes possam levar o debate sobre gentileza, colaboração e doação às salas de aula. 

Inspirada no Giving Tuesday Kids, uma vertente para crianças e jovens do movimento global Giving Tuesday, criado em 2012 para incentivar a generosidade e o poder de fazer o bem e, assim, transformar comunidades e países, a plataforma dialoga com crianças por meio de dois embaixadores brasileiros e também com o compartilhamento de iniciativas no site, uma forma de fortalecer o protagonismo do público infantil a partir de dicas básicas e exemplos reais de iniciativas espontâneas de crianças de todo o Brasil.

Vitrine de ONGs – Instituto Liga Social 

A Vitrine de ONGs, iniciativa do Instituto Liga Social, de Curitiba (PR), é uma plataforma de gestão, comunicação e transparência criada para facilitar a relação entre as organizações da sociedade civil (OSCs) e potenciais doadores. 

Seu principal objetivo é criar uma infraestrutura básica e comum para o aumento da doação de recursos privados para causas públicas. O site possibilita o cadastro individual de cada organização na parte Ficha ONG – com nome, CNPJ, razão social, nome fantasia, documentos, projetos aos quais estão vinculadas, respectivos orçamentos anuais com tipos de despesas e valores – e também dos doadores na parte Ficha Doador. 

Além dessas duas vertentes, a plataforma contará com quatro funcionalidades: ferramenta de busca e seleção de organizações integrada com o Mapa das OSCs e mecanismo de pré-seleção de OSCs; verificação de certificações e documentação contábil e jurídica; painel de controle para o doador e para a OSC; e aba para direcionamento de doações, com integração a plataformas de doação. O modelo de expansão da iniciativa será via criação de plataformas whitelabel, isso é, os usuários poderão replicar suas páginas da Vitrine de ONGs diretamente em seus sites.

Fundo Nordeste Solidário: Plataforma Coletiva de Captação para os Fundos Rotativos Solidários (FRS)

Iniciativa da Rede Vencer Juntos, de Salvador (BA), o Fundo Nordeste Solidário: Plataforma Coletiva de Captação para os Fundos Rotativos Solidários (FRS) será uma plataforma de captação de recursos e divulgação de experiências de Fundos Rotativos Solidários da região Nordeste e do Norte de Minas Gerais. 

A proposta do Fundo envolve aproximar grandes centros urbanos e desenvolvidos do Brasil, onde estão concentradas empresas e recursos financeiros, com as periferias e pequenas comunidades do interior. 

Os recursos aplicados no Fundo Nordeste serão destinados a centenas de fundos rotativos solidários da região Nordeste do país e norte de Minas Gerais. Os beneficiários também se constituem como doadores por colaborar com o fundo rotativo. Assim, os recursos se multiplicam e fomentam o desenvolvimento de territórios onde o investimento não é suficiente para responder às demandas.   

Para isso, a iniciativa irá aproveitar um site já existente, além do cadastro de 400 FRS já mapeados em um banco de dados para lançar uma campanha nacional para o Fundo Nordeste Solidário no formato matchfunding – a cada quantia arrecadada pelos FRS, o Fundo Nordeste completa com mais um valor -, além da divulgação de dicas de capação local e histórias de sucesso sobre captação e incentivo à troca de experiências entre os FRS. 

Plataforma Potências Periféricas – Agência Mural de Jornalismo das Periferias (e outras instituições)

A proposta da plataforma Potências Periféricas, de São Paulo, é criar uma ‘vitrine’ para que agentes sociais possam cadastrar suas informações e projetos de forma segura e, ao mesmo tempo, para que doadores possam acompanhar a destinação de seus recursos. 

Grantmakers que quiserem aportar recursos em iniciativas periféricas podem consultar em um só lugar as ações em andamento e suas propostas, facilitando a escolha da iniciativa que mais conversa com seus propósitos. Ainda é possível cadastrar editais diretamente no site, o que facilita o processo de comunicação com o público específico do edital e, do outro lado, descomplica a submissão de inscrições para as organizações e coletivos periféricos. 

Ao cadastrar as iniciativas na plataforma, as organizações terão maior visibilidade do trabalho, poderão criar um perfil de atuação com informações de sua instituição e recomendações de parceiros, conhecer mais detalhes dos doadores do ecossistema e, assim, criar melhores relações com os grantmakers, além de dialogar com atores locais para busca de parcerias ou fornecedores, por exemplo. 

Seleção das iniciativas 

Com gestão e operacionalização do GIFE, o Fundo BIS nasceu de um grupo de organizações da sociedade civil, com reconhecida atuação no campo socioambiental brasileiro, que se uniu em prol dessa causa e foi impulsionada pelo Movimento por uma Cultura de Doação.

A iniciativa conta com apoio de Instituto Arapyaú, Ford Foundation, Fundação FEAC, Fundação Lemann, Instituto de Cidadania Empresarial (ICE), Laudes Foundation, Instituto Cyrela e Instituto Unibanco e Joana Lee Ribeiro Mortari (Associação Acorde).

Nesta segunda edição, o Fundo BIS disponibilizou até R$ 240 mil para o financiamento do conjunto de iniciativas selecionadas. As quatro iniciativas contempladas foram escolhidas entre 126 inscritas de todas as regiões do país. 

A seleção das vencedoras ficou a cargo de um comitê de seleção formado por dez membros, que também apoiou a elaboração do regulamento da segunda chamada de projetos.  São eles: Andréa Wolffenbüttel (IDIS), Danielle Fiabane (Tear Consultoria), Fabio Deboni (Instituto Sabin), Graciela Hopstein (Rede de Filantropia para a Justiça Social), Inês Mindlin Lafer (Instituto Betty e Jacob Lafer), Joana Lee Ribeiro Mortari (Associação Acorde), João Paulo Vergueiro (ABCR), Nina Valentini (Instituto Arredondar), Patricia Maria E. Mendonça (USP) e Rodrigo Alvarez (Mobiliza Consultoria). Entre os critérios de avaliação usados estão: aderência da proposta ao foco do edital, impacto coletivo e desenvolvimento do ecossistema, inovação, histórico positivo dos proponentes e viabilidade da iniciativa e diversidade, com a busca de consenso sobre a decisão.  

Apoio institucional