Desenvolvimento Territorial foi o tema do segundo Happy Hour GIFE

Um grupo crescente de empresas tem incorporado aos seus desafios de negócio o desenvolvimento territorial. O tema tem se tornado uma agenda cada vez mais estratégica para o campo do investimento social privado, tanto pelo interesse no alinhamento do investimento social ao negócio, quanto pelo papel do campo de influenciar e aprimorar políticas públicas que respondam aos maiores desafios do país na atualidade.

O assunto foi tema do segundo Happy Hour GIFE, realizado na terça-feira (25/09), no Instituto Arapyaú, em São Paulo. O evento reuniu representantes de institutos, fundações e empresas que têm em sua atuação projetos e ações com foco no desenvolvimento sustentável local para debater desafios e fronteiras da agenda.

O desenvolvimento territorial é, por essência, um processo endógeno, ou seja, deve começar dentro da comunidade e irradiar. Seu objetivo é aumentar, progressivamente, a qualidade de vida das pessoas por meio de ações nas dimensões econômica e social, não perdendo de vista o aspecto da sustentabilidade de longo prazo, financeira e dos recursos naturais.

Promover o desenvolvimento sustentável de uma região, no entanto, é tarefa desafiadora. Exige um olhar para as inúmeras dimensões que compõem o local; o reconhecimento, fomento e articulação de lideranças comunitárias; a integração da ação com políticas públicas, dentre outros desafios.

Thaís Ferraz, responsável pela área de Estratégia e Comunicação do Instituto Arapyaú, dividiu com os presentes a experiência do Programa Bahia, que atua em seis municípios da chamada Costa do Cacau, no sul do estado: Canavieiras, Ilhéus, Itabuna, Itacaré, Una e Uruçuca. O programa oferece apoio à transformação da região por meio da consolidação de cadeias produtivas (cacau e chocolate, silvicultura e economia criativa), práticas transformadoras na educação e fortalecimento da cidadania.

“Um aprendizado ao longo do tempo, fundamental para garantir algum tipo de escala e continuidade, foi entender que o Arapyaú é muito pequeno e seria muita pretensão achar que a gente conseguiria mudar a realidade de seis municípios”, observou Thaís se referindo à importância da articulação com as políticas públicas da região.

Um dos resultados do trabalho foi a constituição da Taboa, associação que fomenta iniciativas de base comunitária e empreendimentos socioeconômicos com a finalidade de valorizar a cultura local, a diversidade e contribuir para a geração de prosperidade e qualidade de vida da região.

Thaís explica que a iniciativa foi resultado do estímulo do Instituto de empoderar a comunidade para que ela tivesse autonomia para decidir que projetos e ações fariam sentido para a região. O apoio se dá a partir de dois mecanismos: um fundo filantrópico para fortalecimento comunitário e uma linha de microcrédito que atende à demanda de estímulo ao empreendedorismo.

“O que mais nos deixa feliz em relação à Taboa é o fato de eles terem conseguido estruturar um comitê da comunidade que seleciona os projetos. Então, a gente saiu desse papel de tomar a decisão do investimento e agora faz o repasse para que eles decidam. Outro mérito está na estruturação do projeto que hoje já consegue captar com outras fontes de recurso, então não tem essa dependência total em relação ao Arapyaú, o que dá muito mais autonomia à comunidade”, comemora Thaís.

A Taboa iniciou sua atuação em 2015, no distrito de Serra Grande, em Uruçuca, e em comunidades do entorno do Parque Estadual da Serra do Conduru. A partir de 2017, a associação ampliou sua atuação para outras comunidades localizadas nos municípios de Ilhéus, Uruçuca e Itacaré.

Oportunidades de desenvolvimento

Rafael Gioielli, gerente geral do Instituto Votorantim, apresentou a estratégia de investimento social do Grupo Votorantim, que tem como cerne a visão territorial. A presença da empresa em determinado município traz, em si, crescimento econômico. Mas como atuar para que o crescimento seja revertido em oportunidades concretas de desenvolvimento?

Na tentativa de responder essa questão, Rafael conta que o Instituto estruturou o investimento social do Grupo Votorantim em uma perspectiva territorial organizada em quatro pilares: Capital Humano, Capital Social, Capital Institucional e Dinamismo Econômico. Dessa forma, o investimento potencializa as esferas comunitária, participativa, econômica e da gestão pública.

Em consonância com a reflexão de Thaís, Rafael observa a perspectiva de impacto do investimento social privado quando comparado o orçamento público. “Nosso investimento é irrisório se comparado ao orçamento do município. O orçamento de um município de 40 mil habitantes para educação, por exemplo, é da ordem de 30 milhões de reais. No Votorantim, uma linha de investimento alta corresponde a 300 mil reais. Nossa presença enquanto empresa, gerando 500 mil empregos, pagando impostos, usufruindo de estrutura pública, etc., tem um impacto no território que é muito significativo. Não seria um projeto social que iria se sobrepor a esse impacto.”

Pensando nisso, em 2011, o Instituto realizou um estudo a partir de 44 municípios que receberam operações das empresas do Grupo a fim de acompanhar a evolução de dados socioeconômicos. O resultado da iniciativa evidenciou que o impacto da presença da empresa nos territórios por si só era praticamente nulo.

“A partir desse estudo, nós começamos a reorientar toda nossa atuação para criar pontes entre as operações da Votorantim e os projetos do Instituto de modo a ativar todas as oportunidades geradas pela operação que não estavam sendo aproveitadas. Então a gente começa a entender nossa contribuição dentro do desenvolvimento territorial olhando nosso investimento como algo que vai ativar e trazer uma melhoria no gasto público, de forma que a gente possa se conectar com as políticas públicas e gerar uma transformação mais efetiva”, observa Rafael.

No debate com os presentes também surgiram outras questões fundamentais para o sucesso do investimento social privado no desenvolvimento territorial. A necessidade de escuta e construção colaborativa respeitando o protagonismo das comunidades, bem como de integração entre as diversas agendas do investimento social privado dentro dos territórios foram algumas delas.

Happy Hour GIFE

O Happy Hour GIFE foi concebido para ser um espaço dedicado ao debate de temas relevantes para o campo do investimento social privado em um desenho informal que estimule a integração e articulação estratégica de atores do campo com agendas de sua atuação e outras de interesse público.

Os encontros acontecem em espaços cedidos pelos associados ao GIFE e outros parceiros e são transmitidos ao vivo na página do GIFE no Facebook.

O primeiro evento aconteceu no dia 28 de agosto, na sede do movimento Todos pela Educação, e pode ser conferido na íntegra aqui. Já o segundo, pode ser acessado aqui.

O próximo encontro está previsto para o final de outubro, no Rio de Janeiro.

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