Dia Mundial sem Carro chama atenção para impactos positivos do uso da bicicleta

Trocar o carro pela bicicleta é uma alternativa que beneficia tanto a saúde dos ciclistas quanto o planeta, considerando que, de acordo com a pesquisa Impacto Social do Uso da Bicicleta no Rio de Janeiro, realizada pelo Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) em parceria com o Itaú, 3% de viagens com bicicleta já deixam de emitir 1% de dióxido de carbono (CO²) na atmosfera. 

É para esse impacto que o Dia Mundial sem Carro, celebrado em 22 de setembro, busca chamar atenção. Criada em 1997 na França, a data foi adotada por milhares de países que realizam atividades que podem durar até uma semana com o objetivo de mostrar à população os efeitos nocivos que gases emitidos pelos veículos têm no meio ambiente. Além disso, as inúmeras ‘bicicletadas’, como ficaram conhecidas as mobilizações que acontecem neste dia mundo afora, também têm o objetivo de evidenciar a dependência daqueles que utilizam o carro como meio de transporte todos os dias, mesmo para percorrer curtas distâncias.  

O levantamento do Cebrap, realizado a partir de entrevistas com a população do município do Rio de Janeiro e ciclistas, apresentou dados sobre impactos do uso da bicicleta em três esferas: meio ambiente, saúde e economia. 

Em meio ambiente, o impacto do uso da bicicleta foi dividido em dois eixos: pessoal e social. No eixo pessoal, a pesquisa observou que os ciclistas tendem a ter maior interação com o meio ambiente e espaço público. Comparando as estatísticas mapeadas na cidade carioca, o estudo mostra que, enquanto cerca de 48% das pessoas que pedalam vão a parques, praças e feiras ao ar livre pelo menos uma vez por semana no Rio, o índice não chega a 29% entre a população geral. 

De outro lado, foram apontados benefícios coletivos da diminuição do uso do carro e transportes públicos. Segundo o estudo, 37% das viagens de ônibus são consideradas pedaláveis (até oito quilômetros entre 6h e 20h por pessoas de até 50 anos) ou facilmente pedaláveis (até cinco quilômetros). Se o meio escolhido fosse a bicicleta, haveria uma diminuição de 9% na emissão de CO². Quando o assunto são os carros, 51% das viagens poderiam ser feitas de bicicleta, o que equivaleria a uma redução também de 9% das emissões, totalizando 18% a menos de emissão de CO² na cidade. 

Já em saúde, a pesquisa aponta que se a população carioca incorporasse o perfil de atividades desenvolvidas pelos ciclistas, haveria uma economia de até R$ 7,7 milhões por ano no Sistema Único de Saúde (SUS) municipal com internações por doenças do aparelho circulatório e diabetes, o que equivale a cerca de 19% dos gastos. O estudo também analisou o perfil de ativistas físicas dos ciclistas e da população do Rio de Janeiro. Enquanto a população geral apresenta taxa de 16% de inativos, entre os ciclistas não há pessoas inativas e a proporção regularmente ativa é o dobro da observada na população do Rio (82% contra 41%).  

No âmbito das finanças pessoais, o estudo estima que se a população das classes C e D trocassem o transporte público pela bicicleta, haveria uma redução de 18% para 4% com transporte, uma economia de aproximadamente R$ 151 mensais. O impacto econômico de buscar alternativas para o uso do automóvel e transporte público vai além. Cerca de 19% das viagens de carro para o trabalho com distância de até oito quilômetros seriam mais rápidas se realizadas com bicicletas. Se o tempo economizado fosse revertido em tempo de trabalho, o Produto Interno Bruto (PIB) da cidade cresceria 0,04% ou R$ 117 milhões.  

Se o mesmo raciocínio for aplicado às viagens de ônibus, 26% levariam menos tempo de bike. O tempo economizado significa um potencial produtivo de R$ 325 milhões, um aumento de 0,10% no PIB municipal do Rio de Janeiro.  

Mobilidade urbana, meio ambiente e cidades sustentáveis: agendas do ISP 

A mobilidade urbana, com atenção especial para o uso da bicicleta, é uma das causas do Itaú. Com o objetivo de fomentar a produção de conhecimento sobre o tema, em 2017, o banco uniu-se ao Cebrap para lançar o Desafio Mobilidade Itaú Cebrap. Anualmente, a iniciativa dá origem à publicação de um livro com artigos inéditos. Chegando a sua terceira edição em 2019, o projeto já recebeu mais de 160 inscrições de todo o Brasil. 

Para além do projeto de produção de conhecimento, Luciana Nicola, superintendente de relações institucionais, sustentabilidade e negócios inclusivos do Itaú Unibanco, defende que o investimento social privado (ISP) pode contribuir para introduzir a bicicleta como um novo modo de transporte. 

No projeto Bike Itaú, são registrados 80 mil novos usuários mensalmente. Somente no último ano, o contingente aumentou quatro vezes. “Cada bike realiza cerca de sete viagens por dia. No Rio de Janeiro, são 10,8 trajetos diários por equipamento. No total, são 20 milhões de viagens, média de 2,8 milhões de deslocamentos por ano que se traduzem em 2,8 milhões de horas e uma economia superior a 24 milhões de quilos em emissões de gás carbônico”, pontua a superintendente. 

Luciana observa, entretanto, que mais esforços de conscientização e adaptação urbana para possibilitar o uso de bicicletas fazem-se necessários. “A bicicleta compartilhada é utilizada pela maioria das pessoas como a última perna da viagem, uma alternativa ao carro ou ônibus para percorrer o trajeto entre o transporte de massa e o trabalho. Todavia, para que esse bom ritmo de mudança se mantenha, é preciso garantir a continuidade de projetos que visam adaptar a malha urbana a todos os tipos de transporte.” 

Victor Callil, pesquisador do Cebrap, endossa a fala sobre a necessidade e os impactos da infraestrutura cicloviária ao citar a ciclovia da Consolação, avenida que antes da construção da ciclofaixa recebia 243 ciclistas por dia e, logo depois de sua implementação, passou a receber quase 800 ciclistas, um aumento de 227%. “Se em uma via com condições adversas como entradas de veículos em comércio, conversões à direita, invasão da ciclofaixa por motoqueiros e pedestres, a implantação de uma ciclofaixa consegue multiplicar o volume de ciclistas em mais de 200%, estes e outros dados demonstram o quão importante e legítimo é a construção de infraestrutura de bicicleta para a cidade.”  

Bicicleta: novo meio de transporte? 

Nos últimos anos, diversas capitais do país têm experimentado um  aumento do debate sobre o uso das bicicletas e seus impactos no meio ambiente, na saúde e na economia, sobretudo considerando o esforço global para redução dos gases de efeito estufa. 

Segundo o pesquisador, atualmente, é natural que as bicicletas sejam assunto de debates políticos e de mobilidade urbana, apesar de aparecer de diversas formas e estágios, desde a decisão sobre implantar ou não as ciclovias até reflexões sobre onde é melhor implantá-las. 

O investimento por parte de empresas privadas, como o Itaú, em sistemas de bicicletas compartilhadas em capitais brasileiras foi, segundo Victor, essencial para fortalecer a agenda da bicicleta, pois “uma vez que existe o sistema de bicicleta compartilhada e as pessoas o utilizam, começa a ficar mais patente a necessidade de infraestrutura e setores da sociedade passam a se mobilizar ou fortalecer a mobilização para demandar ciclovias e ciclofaixas ao poder público.” 

Em outras vertentes, reforça a importância do investimento social privado em produção de conhecimento e apoio a projetos educacionais, culturais e de conscientização sobre a bicicleta. 

Participe 

Em São Paulo, a mobilização do Dia Mundial sem Carro é realizada desde 2003 e conta com apoio de cicloativistas e da Secretaria Municipal do Verde e Meio Ambiente. Em 2007, a Rede Nossa São Paulo passou a integrar o grupo de organizadores do Dia Mundial sem Carro. 

Com o envolvimento de mais pessoas a cada ano, a mobilização cresceu e, em alguns locais, é chamada de “Semana da Mobilidade” ou até “Mês da Mobilidade”. O Jornal Metro divulgou uma lista do Pro Coletivo com dez dicas para um preparo para o Dia Mundial sem Carro. Confira e participe dessa mobilização mundial. 

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