É preciso que mecanismos e práticas avaliativas sejam enegrecidos e decolonializados, defende pesquisadora

Em um país com mais da metade da população negra, estudos mostram uma contradição. De acordo com a pesquisa Racismo no Brasil, ao passo que 84% consideram o Brasil um país preconceituoso em relação a pessoas negras, apenas 4% dos entrevistados se consideram preconceituosos. 

Mesmo diante dessa suposta – e falsa – indiferença entre raças, diversos levantamentos apontam que pessoas negras foram mais vítimas de contaminação e morte pela Covid-19 em comparação a pessoas brancas. A pandemia aprofundou um cenário de desigualdades que já era grave. Assim, se faz necessário – enquanto missão coletiva – compreender como a sociedade brasileira foi estruturada a partir do racismo e como é possível promover iniciativas de enfrentamento a esse cenário e ações de reparação histórica ao povo preto. 

Uma das alternativas nessa direção é incluir a lente de raça como categoria analítica de processos de monitoramento e avaliação (M&A) de programas e projetos. Mais do que inserir perguntas em questionários, realmente incluir a lente de raça depende de uma multiplicidade de ações, como capacitação dos avaliadores, contratação de pesquisadores negros, escuta ativa de populações beneficiárias na elaboração do projeto e na coleta de resultados.

Para entender o que está envolvido nesse processo, o redeGIFE conversou com Lívia Guimarães, pesquisadora da Pacto, mestra e doutoranda em Ciências Humanas e Sociais e pesquisadora do Núcleo de Estudos sobre Controle Social, Memórias e Resistências, da Universidade Federal do ABC (UFABC) e membro da Associação Brasileira de Pesquisadores Negros (ABPN). Confira a seguir. 

redeGIFE: Diante do fato de que o brasileiro não se considera racista mas, ao mesmo tempo, é alta a porcentagem de pessoas que acreditam que existe racismo no Brasil, você avalia que são necessárias ações e iniciativas de conscientização para avançar na inclusão de raça como categoria analítica de processos de monitoramento e avaliação (M&A)? 

Lívia: Tenho percebido que o debate sobre a necessidade de incorporar a raça como categoria analítica no ecossistema de M&A está em circulação e que diferentes espaços estão sendo articulados para ampliação e aprofundamento desse diálogo. Se entendermos os espaços dialógicos como iniciativas de ‘conscientização’, o que falta é o empenho deste mesmo ecossistema para materializar a prática discursiva e incorporar definitivamente a raça como categoria analítica.

 

redeGIFE: Então, quais são os passos ou mudanças necessárias para que raça de fato torne-se uma categoria analítica?

Lívia: Para que a raça, marcador estruturante da sociedade brasileira, seja também tomada como estruturante para o campo de M&A, é fundamental que os atuais mecanismos teóricos, técnicos e práticos hegemônicos sejam revistos, reformulados e adequados ao contexto brasileiro. Com isso quero dizer que eles precisam, antes de mais nada, serem enegrecidos e decolonializados. Creio ser urgente desfazer a trama tecida em torno do ecossistema de M&A, que projeta a produção branca anglo-saxã e europeia como a única possível em detrimento de outras formas de conhecimento. 

Para isso, visualizo três frentes que carecem ser transformadas com a maior urgência: a primeira é o próprio exercício de mobilizar a raça enquanto categoria analítica fundante da prática avaliativa, a segunda diz respeito à exponencial ampliação de pesquisadores/as negros/as no campo e a terceira é a estruturação de ambientes avaliativos que fomentem o diálogo entre todos os envolvidos no processo, incluindo, sobretudo, os grupos minoritários diretamente impactados pelas intervenções.

 

redeGIFE: Não incluir raça como categoria analítica de processos de M&A pode aprofundar as desigualdades socioeconômicas no Brasil? Por quê? 

Lívia: Deixar raça de fora dos fluxos de M&A significa deixar de reconhecer as opressões a que está submetida a população negra e assim, manter o modelo hegemônico vigente, ou seja, um modelo concentrador de poderes econômico, político e simbólico nas mãos de homens, brancos e ricos.

É por isso que não pode ser esquecido que raça e classe, no Brasil, andam de mãos dadas. Aqui, a pobreza é negra e feminina. É praticamente impossível olhar para o fenômeno do alargamento das desigualdades econômicas sem incorporar também a categoria gênero. Por isso, quando os processos avaliativos são estruturados sob a perspectiva da tríade raça, gênero e classe, as chances de captura das complexidades dos fenômenos sociais aumentam exponencialmente.

Quando se olha para indicadores sociais como trabalho, por exemplo, é gritante a desvantagem sistemática da população negra em relação à população branca. Ao acrescentar a categoria gênero, a situação fica ainda pior, porque a linha econômica que separa a mulher negra do homem branco é abissal. Assim, a incorporação dessas categorias  são essenciais para o desenvolvimento de políticas públicas e ações desenvolvidas no âmbito da iniciativa privada.

 

redeGIFE: Segundo o capítulo “Direitos e Integridade”, das Diretrizes para Prática de Avaliações no Brasil, processos avaliativos devem construir legitimidade entre os interessados por reconhecerem e respeitarem seus direitos e posições sociais, culturais e políticas. Por que é importante que o olhar de raça seja aplicado no sentido de ouvir pessoas beneficiadas tanto na elaboração da avaliação como na avaliação do programa em si? De que forma essas percepções podem contribuir para aprimorar projetos e programas? 

Lívia: Eu diria que não apenas a escuta do público diretamente atendido, mas o envolvimento efetivo deste público em todo o processo é fundamental, sobretudo se as ações e iniciativas em avaliação estiverem direcionadas a pessoas negras, seja numa perspectiva prioritária ou de exclusividade. Não se pode perder de vista que o campo avaliativo brasileiro é predominantemente constituído por teorias, ferramentas e pesquisadores/as brancos/as, e nesse sentido, não seria imprudente dizer que os processos avaliativos são brancos e, como tal, recebem compulsoriamente um caráter de neutralidade que, na realidade, não existe. É por esse motivo que fazer emergir as vozes racializadas torna-se tão importante no âmbito da avaliação.

Evocar as vozes do público diretamente atendido pelos programas, projetos e outras iniciativas significa reconhecer essas pessoas como protagonistas e sujeitas de direito. Busca-se, com isso, eliminar estigmas que muitos grupos carregam quando são reconhecidos apenas como ‘beneficiários’. As percepções dos envolvidos podem ser entendidas como aportes importantes para aprimoramento ou inovação dos processos avaliativos. Esse movimento gera um ganho para todo o cenário brasileiro de avaliação. 

 

redeGIFE:  O que é necessário para que os profissionais que realizarão as avaliações estejam capacitados e sensibilizados para incluir raça como categoria analítica? 

Lívia:  A partir de minha própria experiência como pesquisadora preta, gostaria de sinalizar que as dinâmicas da colonialidade do poder, do ser e do saber estão operando a todo vapor e é preciso estarmos atentos a elas. Considero urgente a construção e/ou ampliação de modelos avaliativos que façam frente ao padrão hegemônico ancorado em epistemologias do norte global. Nesse sentido, é necessário que também os pesquisadores e pesquisadoras reflitam sobre suas práticas e proponham novos caminhos com perspectivas mais plurais e que possam desfazer as assimetrias de poder às quais estão submetidos os fluxos avaliativos.

 

redeGIFE: Do lado das organizações e das consultorias avaliativas, qual é a importância e potência de incluir pessoas de raças diversas no processo de avaliação? 

Lívia: A potência está na multiplicidade de olhares que uma equipe plural propicia às organizações, sejam elas de caráter avaliativo ou qualquer outro segmento. Em organizações e consultorias de avaliação, há um ganho nos processos de criação e de análise e maior reflexão crítica. No caso da população negra, esse movimento de inclusão promovido pelas organizações pode ser lido sob a lente da perspectiva de reparação histórica. Dessa forma, a inclusão deve ser acompanhada de um espaço acolhedor que possibilite a retenção das/os pesquisadoras/es negras/os. Além disso, acho importante registrar que as organizações atentas à diversidade racial também precisam promover práticas antirracistas interna e externamente, já que o racismo estrutural e institucional opera sem intervalos.

 

redeGIFE: Para organizações que desejam realizar processos de avaliação e já estão sensibilizadas para a importância do tema raça, qual é o primeiro passo? E para aquelas que ainda não estão sensibilizadas, qual é o caminho? É papel da consultoria de avaliação contratada pautar o tema? 

Lívia: Creio que estar sensibilizada já é um passo importante e os caminhos devem ser encontrados por cada organização, sem perder de vista que os marcadores sociais de desigualdade precisam ser tomados como orientadores dos processos avaliativos. A consultoria pode, sim, compartilhar caminhos e boas práticas para estimular e apoiar as organizações contratantes e assim, movimentar o ecossistema da avaliação.

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