Relação entre avaliação e equidade é tema de nova Nota Técnica

Inspirada por diálogos no campo avaliativo do Brasil e do mundo, a Agenda de Avaliação do GIFE acaba de lançar a Nota Técnica (NT) Avaliação e Equidade. Camila Cirillo, coordenadora da Agenda, explica que, considerando a importância das avaliações em processos de tomada de decisão, não abordar o contexto de racismo e das desigualdades sociais, econômicas e de gênero nas avaliações pode contribuir para agravar esses cenários. 

Entre os documentos que embasaram a NT está, por exemplo, Diretrizes para Prática de Avaliações no Brasil, elaborado pela Rede Brasileira de Monitoramento e Avaliação (RBMA). ‘Direitos e Integridade’ é uma das quatro dimensões que reúnem as 26 Diretrizes apresentadas pelo material. O capítulo reforça que processos avaliativos devem construir legitimidade entre os interessados por reconhecerem e respeitarem seus direitos e posições sociais, culturais e políticas. 

A atenção para essas questões também vem de outras fontes, como do 15º Seminário Internacional de Avaliação, que debateu a relação entre equidade e avaliação e como as práticas avaliativas podem constituir um caminho para diminuir as iniquidades socioeconômicas brasileiras, e da conferência anual da American Evaluation Association (AEA), que reservou grande parte de sua programação a essas discussões.

“Durante a elaboração das diretrizes, tivemos uma provocação dos especialistas de avaliação que comentaram sobre uma lacuna na versão preliminar do documento, que até então não abordava a questão racial. No momento seguinte de construção, fizemos uma roda de conversa com avaliadores negros. Foi um diálogo muito rico, pois trouxe questões que mostraram que não se pode falar em parâmetros de avaliação no Brasil e esquecer que estamos em um país com um contexto de racismo estruturante”, comenta Camila. 

Já as discussões realizadas no âmbito do Seminário mostraram aos integrantes da Agenda de Avaliação seu papel e responsabilidade na promoção do tema dentro de processos avaliativos. “A Agenda pauta importantes debates no campo do investimento social privado. Então, se queremos difundir e qualificar o uso da avaliação, é necessário pensar na importância de trazer a questão da equidade para o centro da discussão”, afirma a coordenadora. 

Objetividade e equidade: como combiná-las 

Além de diferenciar igualdade de equidade – sendo que a primeira consiste em assegurar que todos tenham acesso aos mesmos direitos e serviços, e a segunda visa eliminar as circunstâncias injustas e evitáveis que privam as pessoas de seus direitos -, a NT aborda a questão da incorporação da lente da equidade nas avaliações. 

Desde sua origem, projeta-se, tanto sobre a avaliação, como sobre os avaliadores, expectativas de objetividade, isenção e imparcialidade. Entretanto, a nota destaca  abordagens avaliativas, como a Avaliação Equitativa e a Avaliação Culturalmente Responsiva, por exemplo, as quais reconhecem que em toda avaliação há processos de troca de informações, interpretação e aplicação do conhecimento, que são influenciados pelos valores e cultura dos participantes, incluindo o avaliador. 

Camila lembra que todas as ações desempenhadas por seres humanos traz os julgamentos, hipóteses e valores do contexto histórico e classe social e econômica na qual a pessoa está inserida, elementos que também influenciam o olhar sobre o objeto do estudo avaliativo. “Com toda essa bagagem que vem da história de vida e de seu lugar de fala, o avaliador vai criar as perguntas de avaliação e os instrumentos para fazer a pesquisa. É uma ilusão imaginarmos que existe isenção ou objetividade absolutas. Existem pontos de vista e posicionamentos diante de determinadas circunstâncias.” 

Então, para que processos avaliativos sejam equilibrados, a coordenadora pontua que o avaliador precisa ter consciência de seus vieses e valores, além de promover a inclusão efetiva de outras vozes e atores na avaliação. 

Essa concepção da avaliação está diretamente relacionada aos três princípios para promover processos avaliativos equitativos, apresentados pelo Equitable Evaluation Framework (EEF): examinar nossas origens, crenças e preconceitos e melhorar nossa capacidade de conduzir avaliações usando uma lente culturalmente responsiva e de equidade racial; desenvolver perguntas de avaliação capazes de revelar nuances que, muitas vezes, são esquecidas pelos processos de avaliação comuns; e avaliar o compromisso de toda a organização (governança, liderança e equipe) com as questões de diversidade, equidade e inclusão. 

Concebendo um processo avaliativo equitativo 

Já a publicação Considerations for Conducting Evaluation Using a Culturally Responsive and Racial Equity, também citada pela NT, reforça as particularidades que devem ser observadas em três dimensões: os avaliadores, o processo de avaliação e os atributos das organizações. Nas duas primeiras, destaca-se a importância de equipes diversificadas que tenham experiências compartilhadas com a população prioritária, com possíveis treinamentos sobre competências culturais, e a contribuição da população prioritária no desenho da avaliação e no processo de tomada de decisão.  

“Envolver diferentes partes interessadas enriquece o processo avaliativo e tira o beneficiário do lugar de receptor da ação ou dos resultados de uma avaliação. A proposta é que possamos ouvir os beneficiários não só no processo de consulta para obter informação, mas antes mesmo de desenhar a própria avaliação, para entender o que importa para eles”, reflete Camila. 

Equidade na avaliação de projetos e nas organizações do ISP 

No quesito atributos das organizações, a NT reforça que, mais do que pensar em equidade nos processos de avaliação, é necessário aplicar a lente no funcionamento da organização, com diversidade e consciência multicultural, racial e de gênero no conselho e corpo diretivo, nas equipes, na estrutura de tomada de decisões e na prática diária da organização. 

“Estamos falando de promover a equidade, mas quanto também não somos reflexo de uma sociedade excludente? A avaliação é muito importante para que possa promover mudanças nas próprias organizações, com um olhar para dentro. Ou seja, as equipes são diversas? Como é a composição dos grupos que tomam as decisões? O conselho da organização tem alguma diversidade ou está aberto para reconhecer as suas limitações enquanto grupo de uma classe dominante?”, questiona Camila. 

Com a NT, a Agenda de Avaliação visa provocar e incentivar as instituições a utilizar a “lente para equidade racial e de gênero”  ao longo de todo o processo de uma avaliação. Acesse o documento

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