É preciso transformar impulso inicial de doações em esforço constante, afirma especialista

Acreditar que brasileiros não doam, que é necessário conhecer pessoas ricas para captar recursos ou que é imprescindível ter uma pessoa especialista em captação na equipe são alguns dos mitos envolvendo captação de recursos e cultura de doação presentes na publicação organizada por Mobiliza e Nossa Causa. Do outro lado, é verdade que, em um processo de doação, todos os envolvidos ganham, que é necessário escutar antes de falar e que captação de recursos é um trabalho de equipe. 

A importância de incentivar e fortalecer a cultura de doação no país esteve em alta durante todo o ano de 2020, em razão da pandemia de Covid-19. Em inúmeros casos, foram as organizações da sociedade civil (OSCs) – quase 782 mil em todo o país, segundo o Mapa das OSCs -, as responsáveis por conectar grandes doações, financeiras ou de kits de higiene e alimentação, a indivíduos e famílias em situação de alta vulnerabilidade. 

Isso acontece devido à expertise dessas instituições, que diariamente atuam em diversas áreas, como educação, saúde, cultura, moradia, acesso a direitos, meio ambiente, infância e adolescência e muitos outros temas para suprir lacunas às quais o poder público não consegue responder à altura das necessidades da população. 

Com o objetivo de manter o debate aquecido e aprofundar a discussão sobre os aprendizados obtidos durante a experiência das OSCs na pandemia e como é possível aplicá-los para manter em alta o tema da cultura de doação, o redeGIFE conversou com Joana Mortari, uma das fundadoras do Movimento por uma Cultura de Doação e diretora da Associação Acorde. Confira a seguir. 

 

redeGIFE: Doação foi um tema recorrente ao longo de 2020 em razão da pandemia. Quais avanços você avalia que foram alcançados durante o ano? É possível visualizar o que veio para ficar em termos de hábitos ou mentalidade diante das doações?

Joana Mortari: O maior avanço do ano de 2020 foi o assunto doação ter entrado na pauta nacional, com conversas para além das salas de filantropos e organizações que promovem a doação no Brasil. Para a formação de uma sociedade civil doadora para além da honrosa resposta às causas e efeitos da pandemia, principalmente no primeiro semestre de 2020, precisamos virar a chave do circuito de doação-resposta para doação-intenção. A primeira, como o nome indica, responde a uma necessidade do mundo. Já a doação-intenção acontece quando o impulso de doar nasce dentro do doador, que entende a importância do ato, independente do valor, e o torna recorrente.

redeGIFE: Quais são algumas estratégias para incentivar essa mudança de doação-resposta para doação-intenção?

Joana: Para esta mudança de chave é necessário um certo esforço inicial: descobrir a causa e encontrar uma organização para doar. Daí para frente, flui de maneira constante e no longo prazo. É justamente esse longo prazo que buscamos, uma vez que é ele que sustenta o esforço da sociedade civil brasileira em endereçar os desafios socioambientais. A doação ter entrado na pauta nacional é parte essencial do complexo mecanismo de valorização da doação e engajamento cidadão, mas, não é, por si só, suficiente.

redeGIFE: Muito tem se falado que, durante uma emergência, a mobilização da sociedade é maior e mais intensa, mas que depois, é esperado que esse engajamento diminua. Nesse sentido, o que você avalia que foi passageiro diante da pandemia?

Joana: O que passou, na verdade, foi o susto. Ouço as pessoas se referindo à pandemia como algo do passado. Enquanto isso, a ajuda emergencial do governo está chegando ao fim, assim como o dinheiro doado no primeiro semestre de 2020 para comida ou vale refeição. O mesmo não está acontecendo, entretanto, com o cenário de vulnerabilidade social e econômica. Muito pelo contrário. É claro que não podemos esperar do setor privado a resolução completa de problemas que envolvem escalas e estruturas de governo, mas o cansaço – físico, econômico, anímico – de viver em pandemia está ofuscando novamente a nitidez trazida pela pandemia sobre os desafios sociais brasileiros. É hora de pegar aquele impulso inicial e transformar em um esforço recorrente que caiba no bolso, doando de acordo com a causa individual de cada um por meio de organizações da sociedade civil. 

redeGIFE: É possível destacar aprendizados do período?

Joana: Globalmente tem se falado muito em duas experiências vividas na pandemia de forma mais intensa: colaboração e doações sem restrição. Colaboração no sentido de que muito do que foi feito foi em conjunto: organizações trabalhando juntas, campanhas sendo lançadas de forma colaborativa. Essa experimentação é uma tendência para o futuro já muito valorizada em países onde a filantropia está em estágios mais avançados. 

Já as doações sem restrição se opõem às estruturas de poder do sistema capitalista ocidental e da filantropia de origem cristã, que carregam em si a forma de pensar e de fazer da organização doadora, que se entende como mais competente do que o ente local para resolver o problema. Essa característica da filantropia, bastante presente na chamada filantropia estratégica, já vinha sendo questionada mundo afora e a pandemia ‘concentrou o caldo’. O aprendizado em potencial, e já existem pesquisas mostrando essa reflexão nas organizações doadoras internacionais, é a transição para uma filantropia que tem sido chamada de regenerativa ou participativa, onde quem recebe o dinheiro tem liberdade de decidir como ele será usado. O grau de liberdade é parte da conversa evolutiva e de reconhecimento de saberes locais ou da descolonização do pensamento filantrópico. 

redeGIFE: Quais desafios de 2020 você destacaria? 

Joana: Não faltaram desafios no Brasil. Talvez o destaque seja a dificuldade inicial de identificar famílias que mais precisavam de qualquer tipo de ajuda, o que acabou sendo solucionado pela intermediação das OSCs. Precisamos investir em automatizar dados sobre a população, o que é possível e está sendo feito em outros países em desenvolvimento. Outro desafio é o da confiança, ou a falta dela, o que direcionou o fazer filantrópico às ações de doação de comida ao invés de recursos financeiros em forma de vales-refeição, que são distribuídos uma única vez e depois recarregados, o que diminuiria  os custos logísticos e o risco de contágio de voluntários e colaboradores das OSCs. Sabemos que essa não é a solução para todas as famílias brasileiras, mas há uma velada desconfiança que fez com que doadores não permitissem que as OSCs utilizassem o sistema de vales ou se recusassem a doar para OSCs que estivessem usando. Essa é uma conversa difícil de ser realizada de forma reflexiva e construtiva.

redeGIFE: Diante dessa lente, como foi o Dia de Doar 2020? Houve novidades que valem ser destacadas? E em termos de engajamento, você notou diferenças, tanto de doadores como de organizações? 

Joana: O Dia de Doar sempre envolveu a disponibilização de materiais e tutoriais para que pessoas, empresas e organizações usem da forma que fizer sentido. O que mudou em 2020, e mesmo assim não 100%, porque recebemos notícias de ações físicas, foi que a grande maioria usou o material online para campanhas também no mundo online. Em termos de engajamento, estamos notando crescimento, considerando que, anualmente, a campanha cresce significativamente. O que eu destaco é que, com a drástica diminuição das doações no segundo semestre de 2020, o Dia de Doar foi um oásis para chamarmos novamente a atenção da sociedade para a situação brasileira, reforçando a importância da doação regular. 

redeGIFE: Como o investimento social privado pode se articular para promover e continuar fortalecendo a cultura de doação?

Joana: O ISP pode investir em estrutura, de acordo com as recomendações feitas pela quinta diretriz publicada pela Força-Tarefa do Movimento Por Uma Cultura de Doação, que desenhou os pontos acupunturais para serem desenvolvidos no Brasil. São eles: desenvolver pesquisas e dados, fazer um esforço para ampliar a diversidade do ecossistema, investir principalmente recursos financeiros nas iniciativas focadas em fomentar a cultura de doação, fomentar a ação conjunta e participar das ações mobilizadores do ecossistema.

redeGIFE: Como você avalia a entrada de novos atores do campo privado, sobretudo empresas, nas doações emergenciais?

Joana: A entrada é sempre positiva e houve, sem dúvida, uma pressão da sociedade, o que é essencial. É possível que, no caminho, tenham acontecido casos de social-washing [prática que pode ser caracterizada como a tentativa de melhorar a imagem de uma empresa a partir de iniciativas de responsabilidade social não genuínas ou com ambição de obter retornos financeiros], mas o tempo e a pressão social vêm cuidando de identificar quem está fazendo um trabalho verdadeiro e quem não está.

redeGIFE: Muito se fala que a sociedade brasileira é naturalmente generosa, mas diversos estudos e pesquisas realizados durante a pandemia mostram a dificuldade de organizações da sociedade civil com a captação de recursos. Como promover conscientização sobre a importância de organizações receberem doações, sobretudo recursos desvinculados de projetos que possam ser aplicados no financiamento institucional? Qual é o papel das OSCs diante desse cenário e como podem melhorar em 2021 no que tange à captação de recursos?

Joana: As OSCs têm reportado que talvez a maioria das doações que vimos no Monitor das Doações tenham passado pelas organizações, identificadas como meios eficazes de rapidamente levar a ajuda até a ponta, porém, sem deixar nenhum recurso para elas. Essa dolorosa realidade é fruto da falta de reflexão sobre a importância do papel das OSCs. O doador nem enxerga a necessidade da organização, e ela, por sua vez, não se vê com poder de negociar sua subsistência. Ainda mais quando para fazer isso estaria ‘tirando’ recursos de necessidades básicas de outras pessoas. A combinação é prejudicial para as OSCs e para a sociedade em geral, que permanece com organizações enfraquecidas. 

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