Economia circular coloca em cheque modelos de negócios das empresas e convoca o setor para promover transformação social

“Não é possível haver transformação social se não houver transformação nos modelos de negócios das empresas. Por isso, é fundamental que os movimentos sociais cobrem das empresas os valores que queremos ver em toda a sociedade”. A convocação feita por Ricardo Abramovay, professor de Economia da Universidade de São Paulo, não é para menos.

De acordo com relatório da Fundação Ellen MacArthur, 65 bilhões de toneladas de matéria-prima foram inseridas no sistema produtivo mundial em 2010. A organização projeta que, até 2020, essa quantidade terá subido para 82 bilhões de toneladas por ano.

Por isso, pensar em novos modelos, que vão além do sistema linear hoje vigente, em que se tem por um lado a excessiva exploração dos recursos naturais para obtenção e processamento da matéria-prima e, de outro, subutilização e subaproveitamento de produtos que já nascem com sua obsolescência planejada, parece ser urgente.

Nesse sentido, uma concepção que vem ganhando mais força nos últimos anos é a de “economia circular”. Ela prevê um ciclo contínuo de desenvolvimento positivo, que é restaurativo e regenerativo por princípio, eliminando a noção de resíduos e mantendo produtos, componentes e materiais ao seu mais alto nível de valor e utilidade o tempo todo. Essa abordagem busca, em última instância, dissociar o desenvolvimento econômico do consumo de recursos finitos e eliminar externalidades negativas da economia.

Os benefícios de se atuar dessa forma são diversos, segundo o estudo da Fundação Ellen MacArthur e McKinsey & Co. Um dos indicadores é o fato de que se os setores de mobilidade, alimentos e construções adotassem a economia circular, por exemplo, as emissões de CO2 na Europa cairiam 48% até 2030, em relação aos níveis de 2012.  Até 2050 essa queda nas emissões seria de 83%.

Com isso, o tema chegou ao Fórum Econômico Mundial, que adotou a economia circular como um tópico que está permeando várias correntes de trabalho e estabeleceu um conselho dedicado ao tema, e a União Europeia lançou uma estratégia legislativa sobre economia circular e um plano de ação.

No Brasil, o conceito começou a ser disseminado ainda com mais força a partir de uma articulação fomentada pela Fundação Ellen MacArthur, que criou o seu primeiro escritório no país em 2015. De lá para cá, tem movimentado as empresas a aderirem ao CE100, um programa que visa desafiar as empresas a criar cases de negócios baseadas na economia circular, além de trazer governos, universidades e a sociedade civil para debater o tema.

A rede brasileira é formada por um pool de empresas como a Natura, a Sinctronics, a Embraco, a Coca-Cola, entre outras, e um grupo de startups. A Universidade de São Paulo (USP) também faz parte dessa articulação e, desde o final de 2016, passou a integrar o grupo Pioneer Universities, ao lado de outras seis instituições de ensino superior da Europa e Estados Unidos. A ideia é que a universidade inclua o conceito de economia circular nas atividades de ensino, pesquisa e extensão.

A rede CE100 Brasil lançou em janeiro deste ano, inclusive, a publicação “Uma economia circular no Brasil: uma abordagem exploratória inicial” para disseminar mais o conceito no país.  O estudo se concentra em três setores importantes para a economia brasileira: agricultura e ativos da biodiversidade, edifícios e construção e equipamentos eletroeletrônicos. Além disso, inclui, em um apêndice de estudos de caso, exemplos de empresas brasileiras operando modelos de negócio circulares.

Renata Puchala, gerente sênior de Sustentabilidade e Impacto Social Estratégico da Natura, enfatiza no estudo: “Precisamos reinventar a maneira como pensamos negócios. Evoluir de um modelo de pensamento linear para sistêmico é fundamental para inovarmos rumo a padrões de produção e consumo regenerativos. Só assim colocaremos os negócios a serviço da geração de impacto social, ambiental e econômico positivos para a sociedade”, disse.

A Coca-Cola também faz parte da rede global e da brasileira desde que foram lançadas e tem, na lógica da economia circular, toda a estratégia de suas embalagens, atuando nos 3 “R”s: redesenho, reuso e reciclagem. A ideia é oferecer aos seus consumidores embalagens sustentáveis, que utilizem menos recursos naturais para sua produção ou que possam ser reutilizadas ou recicladas. Um exemplo são as embalagens PET que tiveram uma redução de 21% do peso nos últimos anos e de 30% da resina na tampa. Isso significa que menos matéria-prima é utilizada no processo produtivo e, portanto, o impacto ambiental é menor, além de facilitar a reciclagem.

A empresa também tem investido fortemente no fomento de embalagens retornáveis. A meta para 2020 é de dobrar a participação de retornáveis no portfólio. No ponto de venda, a embalagem vazia pode ser trocada por outra cheia. Com a PET retornável, 70 milhões de embalagens deixam de circular por ano no Brasil, volume que será maior com o aumento de sua representatividade no portfólio.

Além disso, desde 2008 a Coca-Cola tem como foco a profissionalização sistemática das cooperativas de catadores, de modo incluí-las na cadeia de valor formal, gerando renda justa e tornando o processo de reciclagem mais funcional. Atualmente, são apoiadas 200 cooperativas em âmbito nacional, em parceria com a Associação Nacional dos Carroceiros e Catadores de Materiais Recicláveis (ANCAT). Nesta frente, inclusive, o Instituto Coca-Cola Brasil foi por muitos anos uma importante liderança na atuação com as cooperativas, visto todo o contexto social desafiador que este tema envolve.

Thais Vojvodic, gerente de Valor Compartilhado da Coca-Cola Brasil, ressalta que, entre os principais benefícios de atuar a partir dos princípios da economia circular no longo prazo estão a eficiência econômica, o desenvolvimento social e a minimização de impacto ambiental.

Porém, há muitos desafios ainda a serem superados. “A lógica da economia circular é simples, mas alterar cadeias lineares já estabelecidas é um enorme desafio. As dificuldades são de articulação de redes grandes e já estabelecidas, pois a responsabilidade é compartilhada entre todos os atores e nem todos estão no mesmo estágio”, ressalta.

ISP e a economia circular

Impactar na cadeia produtiva, como apontou Thais Vojvodic, não é fácil e requer um intenso e constante trabalho por parte das instituições envolvidas. A C&A Foundation, e aqui no Brasil o Instituto C&A, têm assumido essa postura no campo da moda, com diversas ações que seguem os princípios da economia circular.

Giuliana Ortega, diretora executiva do Instituto C&A, acredita que o investidor social deve se colocar num papel estratégico e ajudar a transformar a indústria na qual o seu mantenedor atua. “Os institutos e fundações têm um papel de incentivar a discussão junto a estas empresas. Além disso, os recursos do investimento social privado podem ser direcionados também para apoiar iniciativas e empreendedores sociais que estão indo nessa direção. Há vários negócios nascendo com esse propósito, mas que precisam de apoio para se tornarem escaláveis”, acredita.

O Instituto C&A e a Ashoka têm atuado nesse sentido e realizaram, no ano passado, o desafio mundial “Tecendo a Mudança: Inovações para uma Indústria Têxtil Sustentável”. Os vencedores do concurso receberam prêmios que totalizaram R$ 400 mil para investimento em ideias e projetos de expansão.

Uma das iniciativas brasileiras finalistas da premiação foi o empreendimento ‘Banco de Tecido’. Trata-se de um sistema que promove a circulação de sobras de tecidos da cadeia de produção têxtil. Nele qualquer pessoa ou empresa pode: depositar, retirar ou comprar tecidos que são vendidos a um preço único, por quilo.

Outro exemplo de negócio social que já foi reconhecido pelo Prêmio Folha de Empreendedorismo Social é o Retalhar. Após a manufatura reversa de uniformes escolares, realizada por mão de obra inclusiva, o empreendimento destina o tecido resultante à reciclagem, que envolve as seguintes etapas: trituração, desfibramento e reinserção no setor industrial para diversas finalidades, tais como construção civil, mantas acústicas e indústria automobilística.

Debate e ação

“Precisamos mudar a nossa lente, de como geramos valor às coisas até aqui, e começarmos a entender que materiais estão aí e não são resíduos. Precisamos criar, recriar e romper os modelos atuais e perceber que existe muito valor agregado. A economia circular faz isso: coloca tudo em sinergia”, enfatizou Luísa Santiago, representante da Ellen MacArthur Foundation no Brasil, durante o debate “Diálogos Transformadores”, promovido no dia 18 de abril pela Folha de S.Paulo e a Ashoka, com apoio do Instituto C&A, sobre economia circular.

Luísa ressalta que a economia circular ainda está no começo, mas já há várias empresas dando passos largos nessa direção e mudando a sua lógica de atuação, inclusive formando modelos mais prósperos, pois utilizam menos materiais, estabelecem menos perdas no processo e colocam de novo os materiais novamente no ciclo em outras cadeias produtivas.

A Sinctronics, por exemplo, é uma empresa que tem apostado nessa perspectiva de atuação. O empreendimento transforma resíduos eletroeletrônicos em matéria-prima para novos produtos. Segundo Carlos Ohde, gerente nacional da empresa, atualmente 95% dos materiais que entram na fábrica viram matéria-prima de novo.

“É um modelo no qual vemos realmente a possibilidade de ganhar escala. Porém, é preciso investir mais. Hoje existem boas máquinas para separar materiais, mas ainda estamos evoluindo de forma lenta. Quanto mais empresas e o mercado partirem para a economia circular, melhor será o desenvolvimento da tecnologia, maior a produtividade e menores os custos. Isso vai trazer sustentabilidade. Só para se ter ideia, o plástico produzido por meio da economia circular, por exemplo, gasta só 30% da energia que gastamos para produzir o plástico da maneira que é feito hoje”, comentou.

Segundo os especialistas, para que a economia circular possa avançar, será preciso também novas regulações e legislações, além de incentivos e financiamento para o campo na área tributária, fiscal etc. Isso porque as legislações existentes muitas vezes não dão conta de atender à lógica da economia circular. “Hoje temos que lidar com muitas legislações diversas, pois cada Estado, por exemplo, tem uma maneira de tratar e de considerar os resíduos. Com o acordo setorial que deverá ser feito na nossa área, esperamos que aumente a possibilidade de solução”, ressalta o gerente nacional da Sinctronics.

Na avaliação do empreendedor Jonas Rosenberg, co-fundador da Retalhar e membro da rede Folha de Empreendedorismo Social, mais do que apenas acordos setoriais ou políticas específicas, é preciso uma maior fiscalização, além de uma intensa mobilização e conscientização da sociedade para que a mudança seja de fato realizada. “Nos deparamos muitas vezes com a postura das empresas que, ao analisar o custo do nosso serviço de logística reversa e o valor para mandar o produto para o aterro sanitário, vêm que o último caso fica mais barato e acabam optando por isso. Não há uma avaliação de todo o impacto. É inconcebível uma empresa hoje não se responsabilizar pela geração dos resíduos dela”.

Mudança sistêmica

A importância e a relevância da economia circular para o desenvolvimento mais sustentável da sociedade são inegáveis, acreditam os especialistas. Porém, alertam que ela é apenas parte da solução, pois a crise atual do modelo vigente é tão complexa e grave que será preciso uma mudança radical.

“Estamos diante de uma crise catastrófica. Já foi mostrado que será preciso quatro planetas nos próximos 15 anos para suprir o modelo atual de consumo. Ou seja, não adianta dizermos que estamos trabalhando na direção de um ciclo circular e que ele vai resolver tudo, se continuarmos mantendo a mesma quantidade de produtos e serviços. É preciso mudar o modelo de consumo”, enfatiza Hélio Mattar, presidente do Instituto Akatu para o Consumo Consciente.

Afinal, estamos diante de uma sociedade em que um ser humano é capaz, como apontou um levantamento do World Resources Institute (WRI) e lançado no início deste ano, de consumir anualmente 36 quilos de roupa per capita, sendo que 85% destas vai para aterro (os dados são referentes aos EUA).

“Nós ainda estamos vivendo num modelo turbinado pelo consumo. Enquanto isso ocorrer, por mais engenhosos que sejamos para criar novas tecnologias e técnicas, vamos precisar é de uma nova forma de criar valor para a sociedade que não seja ampliar o consumo. O problema não é técnico. O problema é a relação da espécie humana e o conjunto dos recursos ecossistêmicos dos quais dependemos. Ou seja, vai muito além de reaproveitar e revalorizar”, problematizou o professor da USP.

Sendo assim, a educação para a ‘não cultura da posse’, mas do acesso e do uso é uma mudança muito significativa e que precisa ser dada, acredita Hélio Mattar. Mas, para que isso seja possível, deverá haver uma oferta de produtos e serviços nessa direção. “O consumidor precisa entender o que é a economia circular e passar a valorizar as empresas que estão fazendo algo que vai nessa direção certa”, pondera.