Economia Circular: transformar consumo em uso e potencializar economias locais estão entre os caminhos para superar desafios da agenda da sustentabilidade, aponta especialista

O atual modelo de desenvolvimento pautado na lógica ‘extrair, transformar, consumir, descartar’ está atingindo seus limites. A finitude dos recursos naturais e o impacto do descarte incorreto no meio ambiente são notórios, haja vista os debates atuais sobre plástico marinho, mudanças climáticas, entre outros.

Muito se tem falado sobre a urgência de transitar de um modelo econômico linear insustentável para uma Economia Circular, que permita ao planeta recuperar e devolver à cadeia os materiais recicláveis e a energia dos produtos considerados ‘lixo’. Nesse modelo, o consumo só ocorre em ciclos biológicos efetivos. Fora isso, o uso substitui o consumo. Os recursos se regeneram no ciclo biológico ou são recuperados e restaurados no ciclo técnico.

Um relatório da Circle Economy, grupo apoiado pela ONU Meio Ambiente, aponta que apenas 9% da economia global é circular, o que significa que o planeta reutiliza menos de 10% das 92,8 bilhões de toneladas de minerais, combustíveis fósseis, metais e biomassa usados todos os anos em processos produtivos.

Divulgado durante o Fórum Econômico Mundial, em Davos, o documento destaca as vastas oportunidades para reduzir as emissões de gases do efeito estufa por meio da aplicação de princípios circulares – sobretudo o reuso, a remanufatura e a reciclagem – em setores-chave, como o de construção. A análise, porém, aponta que a maioria dos governos pouco considera medidas de Economia Circular em suas políticas voltadas para o Acordo de Paris e a meta de conter o aquecimento global, o máximo possível, a 1,5 ºC.

Motivada por esse desafio, em 2009, no Chile, nasceu a TriCiclos, uma empresa baseada no triplo resultado da sustentabilidade, que pressupõe que o impacto financeiro, social e ambiental tenham a mesma grandeza de importância. “Esse compromisso inspirou o nome e o objetivo permanente de trabalhar equilibrando os três ciclos (social, ambiental e financeiro). A lógica é que o triplo resultado tenha tanta relevância, que a empresa possa mensurar os impactos socioambientais com o mesmo rigor que mensura os resultados financeiros e que isso seja parte da proposta de valor da empresa”, explica Daniela Lerario, CEO da TriCiclos no Brasil.

A empresa atua em todos os elos da cadeia de produção, consumo e descarte por meio de mecanismos de coleta; estudos sobre consumo, descarte, logística, triagem e transformação; consultoria nas etapas de concepção e design dos processos e produtos; entre outras frentes. “Acreditamos que o lixo é um erro de design e, por isso, promovemos e implementamos soluções para corrigir esses erros”, afirma a CEO.

Atualmente com matriz sediada no Brasil, a TriCiclos foi fundada no Chile e está em fase de expansão em diversos outros países. É ainda a primeira Empresa B certificada fora da América do Norte. Em janeiro, a empresa foi premiada na 5a edição do The Circulars Awards, em Davos. Considerada a principal premiação de Economia Circular do mundo, a iniciativa do Fórum Econômico Mundial e do Fórum de Jovens Líderes Globais oferece reconhecimento a indivíduos e organizações que fizeram contribuições notáveis para impulsionar a inovação e o crescimento de forma dissociada do uso de recursos naturais escassos nos setores privado, público e da sociedade civil.

O redeGIFE conversou com Daniela Lerario, CEO da TriCiclos no Brasil. A seguir, confira a entrevista na íntegra.

redeGIFE: Que caminhos a agenda da Economia Circular propõe para o que parecem ser os principais desafios relacionados à pauta da sustentabilidade: hábitos de consumo e modelos de desenvolvimento? Há outros desafios relevantes? Quais?

Daniela Lerario: O principal desafio é diminuir as emissões das atividades diárias dos seres humanos, transformando lógicas de consumo em lógicas de uso, como propõe o conceito da Economia Circular. Em relação ao modelo de desenvolvimento, potencializar economias locais, por exemplo, poderia trazer reduções significativas à poluição e à necessidade de extração de recursos, estimulando o crescimento de uma economia compartilhada e colaborativa nesses locais.

redeGIFE: Como a aplicação de princípios circulares – como reaproveitamento e reciclagem – se insere na agenda de enfrentamento às mudanças climáticas e redução das emissões de gases do efeito estufa para cumprimento da meta de reduzir o aquecimento global em 1,5 ºC do Acordo de Paris?

Daniela Lerario: Até agora, a lógica de mudanças climáticas está absolutamente vinculada à economia linear (extrair, transformar, consumir e descartar). Ao reduzir a extração e a disposição de alguns recursos, reduzimos também a geração e a distribuição de produtos da economia linear. A Economia Circular é restaurativa por princípio e provoca a necessidade de migração para a utilização de ‘boas energias’ para a redução das emissões atmosféricas, por exemplo.

redeGIFE: Quais são os principais desafios no que se refere ao estímulo para que o setor público considere em suas políticas medidas de Economia Circular?

Daniela Lerario: Entendo que os principais desafios estão na comunicação e no relacionamento entre as partes. As maiores multinacionais têm se pronunciado – com metas globais, votos, ações e campanhas – e sido muito cobradas nesse sentido e vejo também um avanço em relação ao poder público. O Chile é para mim um exemplo muito interessante onde a área de gestão de resíduos do Ministério do Meio Ambiente passou a se chamar Economia Circular e vem se aprofundando muito no tema nos últimos anos com um papel fundamental de envolver a comunidade e as empresas e desenhar estratégias conjuntas. É necessária uma mudança de mentalidade. Quando passarmos a entender que as partes precisam colaborar para potencializar a mudança, os desafios serão outros. Em movimentos como o New Plastics Economy, iniciativa do Reino Unido que se propõe a criar uma nova economia para os plásticos, o poder público de alguns países têm se engajado bastante. Aqui no Brasil, a Prefeitura de São Paulo assinou na última semana o Global Committment, parte da mesma iniciativa do Reino Unido, entrando no protagonismo da tomada de decisão sobre o tema.

redeGIFE: Como a TriCiclos se diferencia no ecossistema da reciclagem?

Daniela Lerario: Com mais de dez anos de experiência, temos uma visão sistêmica de todo o processo que cria produtos e gera resíduos e trabalhamos com todos os atores envolvidos nessa cadeia, desde quem transforma um material em uma embalagem até uma cooperativa de catadores. Para isso, contamos com um grupo de pessoas extremamente conectadas à causa, resilientes e com energia de execução, sem deixar de lado o cuidado com o outro. Aprendemos demais juntos.

redeGIFE: Como a empresa pensa a escalabilidade desse trabalho?

Daniela Lerario: Recentemente, tive o privilégio de dividir uma fala com a professora Graziella Comini, da FEA/USP, que apresentou uma ótica interessante sobre escala. Nessa abordagem, resumidamente, existem três formas de escalar: scale up (impactar leis, políticas e regras), scale deep (impactar raízes culturais) e scale out (impactar números ainda maiores). Sinto que a TriCiclos está nessa jornada tripla com o desafio de adicionar o máximo possível de impacto, consumindo o mínimo possível de recursos. E que, nos últimos anos, fomos alterando o foco entre essas três formas de escalar e gerar impacto: diversificar e expandir geograficamente e mudando a ‘regra do jogo’ e mudar relacionamentos, valores culturais e crenças, tentando atingir corações e mentes sobre nossa teoria de mudança.

redeGIFE: O que significa ser uma empresa B?

Daniela Lerario: Desde sempre, acreditamos na capacidade das empresas de mudar o mercado. Portanto, ser uma Empresa B é, antes de tudo, um orgulho e um compromisso com a melhoria contínua. Significa que visamos lucro, ou seja, somos sim uma empresa – pelo que o negócio da TriCiclos se propõe, muitas vezes fomos confundidos com organização sem fins lucrativos – e, para além do objetivo financeiro, buscamos com a mesma importância o impacto social e o ambiental e fazemos isso com as melhores práticas de transparência e governança. Fazer parte de uma nova economia é inspirador, estratégico e óbvio pra nós.

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