Entender o potencial do oceano deve ser agenda prioritária para o desenvolvimento sustentável

Em março de 2020, quando o Brasil começava a conhecer os efeitos da Covid-19, a Itália, que já estava em lockdown, viu os canais de Veneza clarearem e as águas ficarem cristalinasA conservação e uso sustentável do oceano e recursos marinhos estão representados pelo Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) 14, que versa sobre vida na água.

Para avançar na conscientização sobre a importância da preservação do ecossistema marinho e na promoção de maior conhecimento sobre sua diversidade, a Organização das Nações Unidas (ONU) estabeleceu a Década da Ciência Oceânica para o Desenvolvimento Sustentável (2021-2030).

A proposta, que tem como mote ‘A ciência que precisamos para o oceano que queremos’, visa conscientizar a população em todo o mundo sobre a importância do oceano e mobilizar atores públicos, iniciativa privada e sociedade civil organizada em torno de ações que favoreçam a saúde e a sustentabilidade dos mares, reforçando a urgência do planejamento e realização de ações para o uso e proteção do espaço costeiro e marinho no mundo.

No Brasil, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI) é o representante científico na Comissão Oceanográfica Intergovernamental (COI), da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) e o responsável pela implementação da Década da Ciência Oceânica. O órgão está liderando a elaboração conjunta e participativa do Plano Nacional para Implementação da Década, que será o principal instrumento para planejar as ações que serão executadas ao longo dos próximos dez anos.

A potência de um só oceano

Malu Nunes, diretora executiva da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza, explica que as massas de água do planeta estão interconectadas, o que permite o livre trânsito de diferentes espécies marinhas. Assim, o oceano é visto como um só.

Se muitos afirmam que a Amazônia é o pulmão do mundo, pesquisadores e especialistas refutam esse argumento e explicam que o oceano é o grande responsável por absorver gás carbônico – reduzindo a emissão de gases de efeito estufa na atmosfera – e produzindo oxigênio a partir do plâncton. O ecossistema marítimo é responsável pela produção de mais da metade do oxigênio do planeta, além de fornecer alimento e condições de vida para mais de 3 bilhões de pessoas, como aponta a UNESCO, e ser responsável por 30 milhões de empregos diretos, gerando uma riqueza anual de três trilhões de dólares.

Apesar de cerca de 71% da superfície terrestre ser coberta por água e alguns países contarem com grandes extensões litorâneas – como o Brasil, que tem cerca de 11 mil quilômetros de costa, o oceano ainda é pouco conhecido.

Malu explica que há um conjunto de fatores envolvidos, como maior acessibilidade e praticidade de estudos realizados em terra, o alto risco de pesquisas no mar, sobretudo em grandes profundidades, e a tendência a estudar primeiro o que está mais próximo e ao alcance das pessoas.

“Durante muito tempo, nossos mares foram encarados por muita gente apenas como uma fonte de lazer e entretenimento. Mas além das praias, o oceano é fonte de alimento, contribui com o comércio marítimo internacional, traz bem-estar às pessoas e garante a vida no planeta, controlando a temperatura e gerando mais de 50% do oxigênio que respiramos”, defende.

A diretora também reforça que manguezais, restingas e recifes de corais são importantes para a resiliência de cidades costeiras diante de eventos climáticos extremos ocasionados pelo aquecimento global.

Todos esses elementos estão diretamente conectados à economia. Alexander Turra, professor do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (IO-USP) e responsável pela Cátedra UNESCO para Sustentabilidade do Oceano, explica que o oceano tem um papel fundamental na homeostase, isto é, no equilíbrio e regulação do funcionamento do planeta, com interferência direta na atmosfera, distribuição do calor e umidade, no regime de chuvas, entre outros sistemas. A chuva que movimenta a roda da economia, por exemplo, depende do que acontece na Amazônia e no oceano.

O oceano é uma grande fronteira do desenvolvimento econômico sustentável enquanto fonte de energia limpa e renovável, além da produção de proteínas e alimento, especialmente quando falamos da aquicultura [ciência que estuda e desenvolve técnicas de cultivo e reprodução de organismos aquáticos]. Temos um grande celeiro de novos elementos e produtos derivados da biodiversidade marinha que podem ser usados para a medicina, indústria cosmética, culinária e outros setores. O desafio é  potencializar os benefícios que o oceano pode trazer para sociedade”, observa.

Criação de uma cultura oceânica

Para a Década Oceânica, a ONU elaborou sete resultados a serem alcançados até 2030: um oceano limpo; saudável e resiliente; previsível, seguro; produtivo e explorado de forma sustentável; transparente e acessível; e conhecido e valorizado por todos.

Diversos especialistas alertam para a importância da criação de uma cultura oceânica nas escolas, entre crianças e jovens que poderão crescer compreendendo mais a fundo e respeitando o oceano. Promover esse conhecimento desde cedo e fazer com que a cultura oceânica seja disseminada a partir de diferentes recursos e plataformas para toda a população constituem estratégias a serem adotadas por diferentes atores: cientistas, empresários, comunicadores e tomadores de decisão.

Pensando em apoiar professores do Ensino Fundamental, a Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza criou a coleção Meu Ambiente, conjunto de livros paradidáticos com referencial teórico e propostas de atividades sobre diferentes assuntos da biodiversidade e ecossistemas. Um desses livros foi exclusivamente pensado para debater o ecossistema marinho.

Outros materiais, como o Kit Pedagógico Cultura Oceânica para Todos, produzido pela UNESCO, também podem orientar o trabalho dos educadores dentro e fora da sala de aula.

Ainda sobre a necessidade de maior divulgação do tema, Alexander explica que a Década Oceânica vai além da produção do conhecimento, envolvendo também a tradução desse conhecimento e disseminação para a sociedade.

“Precisamos buscar estratégias para fazer com que o tema passe pela mídia televisiva e pelo trabalho estruturante e continuado nas escolas. Devemos trabalhar na produção de materiais didáticos que amparem atividades educativas, na formação de professores e no aumento da visibilidade que o oceano tem para a sociedade a partir de mídias variadas. É a educação que vai fazer com que tenhamos um país que se reconheça como um país marítimo”, defende.

Falta de investimentos

De acordo com a segunda edição do Relatório Mundial sobre a Ciência Oceânica, publicado pela COI, os Estados-membros gastam, em média, apenas 1,7% de seus orçamentos de pesquisa em ciências oceânicas. O mesmo relatório aponta que, entre 2013 e 2017, ao mesmo tempo em que países aumentaram a média orçamentária destinada à ciência oceânica, outras nove nações reduziram esse investimento, entre elas o Brasil.

Malu reforça que valorizar a pesquisa científica sobre o tema é um dos principais objetivos da Década Oceânica, considerando que a ciência desenvolvida em laboratórios precisa ultrapassar os muros das universidades e institutos de pesquisa e ser compreendida pela população como um todo.

“As pessoas precisam entender a importância do conhecimento científico para a promoção da saúde e do bem-estar, assim como para a criação de regulamentações e políticas públicas efetivas e para o desenvolvimento de inovações e tecnologias que contribuam com o desenvolvimento socioeconômico e com a proteção do meio ambiente. A ciência tem nos trazido muitos insumos que reforçam que a conservação da biodiversidade e o avanço da economia podem andar lado a lado.”

Segundo Alexander, o MCTI tem desempenhado um papel importante no sentido de criar oportunidades de fomento à pesquisa, além de articular academia, sociedade civil e iniciativa privada na valorização do conhecimento acadêmico. O tema é abordado no 9º episódio da série Fronteiras Coletivas, do Podcast GIFE, que trata sobre a Amazônia Azul.

Mesmo as águas sendo responsáveis por movimentar parte significativa da economia – 19% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro passa pelos oceanos e todos os sistemas que dele dependem -, ainda faltam investimentos para sua conservação e estudo. O Censo GIFE 2018 aponta que, apesar de ter apresentado avanço de cinco pontos percentuais em relação à edição anterior da pesquisa, o ODS 14, que trata sobre vida na água, é um dos três menos incorporados pelas organizações em seus projetos ou programas.

Para Alexander, um dos desafios para promover mais investimentos nessa agenda é mostrar de forma efetiva para a população e investidores como o oceano pode contribuir para o avanço de outros ODS, sendo aliado no combate à fome ou aos efeitos das mudanças do clima, por exemplo.

“Acredito que, normalmente, o setor privado e o ISP acabam não enxergando as oportunidades que temos no oceano, que pode gerar 40 vezes mais energia renovável do que é gerada hoje, seis vezes mais alimentos e 12 bilhões de empregos. O que falta, na verdade, é evidenciar esses potenciais.”

O educador pontua que a Cátedra UNESCO para Sustentabilidade do Oceano tem o papel de promover aproximações e conexões entre diferentes atores, com o potencial de buscar mais investimentos para as ciências do mar e atividades relacionadas ao oceano.

Para Malu, a mudança de chave na valorização e, consequentemente, maior investimento nos oceanos só acontecerá quando as pessoas entenderem que terra e mar estão interligados.

Nossa saúde está diretamente ligada à saúde do oceano e nossas ações em terra trazem grande impacto ao ecossistema marinho. O ISP pode se direcionar a pesquisas em alto-mar, mas também à saúde e proteção das áreas costeiras, à cultura oceânica e à capacitação de pescadores artesanais. O oceano é muito mais que praia. É vida.”

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