Comunicação desempenha papel fundamental no enfrentamento à Covid-19

Uma busca rápida na internet com as palavras ‘fake news vacina’ mostra o tamanho do desafio atual, que vai muito além de combater um vírus que já fez mais de 3.5 milhões de vítimas globalmente e 440 mil no Brasil. Se a ciência correu a passos largos para produzir imunizantes que fizessem frente à Covid-19, existem pessoas que não apenas duvidam da eficácia da vacina, como se recusam a recebê-la. Esse fenômeno está ligado diretamente à desinformação.

De acordo com o documento Entenda a Infodemia e a desinformação na Luta contra a Covid-19, elaborado pela Organização Panamericana da Saúde (OPAS), o excesso de informações produzidas em razão da pandemia dificulta que as pessoas encontrem conteúdos precisos, de qualidade e de fontes confiáveis. “O grande aumento no volume de informações associadas a um assunto específico ocasiona o surgimento de rumores e desinformação, além da “manipulação de informações com intenção duvidosa. Na era da informação, esse fenômeno é amplificado pelas redes sociais e se alastra mais rapidamente, como um vírus”, aponta o documento.

Existem inúmeros caminhos para combater a desinformação e praticamente todos eles, de alguma forma, estão relacionados à comunicação. 

Comunicação em defesa da vida 

Se para alguns pode parecer extremo afirmar que uma comunicação responsável e baseada em fatos, comprovações científicas e fontes confiáveis trabalha em defesa da vida, o documento da OPAS defende que o “acesso às informações certas no tempo certo e no formato certo é essencial”, uma vez que, “em uma pandemia, a desinformação pode prejudicar a saúde humana”. 

Parte da população na Índia, por exemplo – que conta com cerca de 291 mil mortes oficiais, número que pode ser de cinco a dez vezes maior segundo especialistas -, tem recorrido a uma medida sem eficácia comprovada: passar uma mistura de esterco e urina de vacas – animal sagrado no Hinduísmo – em seus corpos em razão da crença de aumento da imunidade contra a Covid-19. Além da falta de comprovação da eficácia, a prática pode levar ao aumento da disseminação do coronavírus, pois se trata de uma atividade coletiva, bem como aumentar as chances da transmissão de doenças entre animais e humanos. 

“Principalmente quando se refere à saúde, as informações precisam ser baseadas em evidências científicas, em fontes transparentes e confiáveis. Isso fica ainda mais visível em tempos de pandemia, quando precisamos que as informações corretas fluam, os governos precisam delas para tomarem as decisões responsáveis e a sociedade para compreender e aderir às medidas”, defende Roberta Marques, diretora executiva do Instituto Desiderata. 

A diretora observa que a desinformação não acontece apenas pela disseminação de fake news, mas também pelas atitudes e ações das pessoas. “Informação e desinformação não se restringem apenas ao que é dito. Ações incorretas, principalmente de líderes e influenciadores de grande visibilidade, também transmitem mensagens às vezes ainda mais nocivas e de maior impacto”, defende. 

Regiany Silva, cofundadora e diretora institucional do Nós, Mulheres da Periferia, também acredita que a tomada de decisões tem potencial de afetar ações individuais e coletivas que terão efeito direto no aumento ou diminuição de novos casos da doença. “Essa é uma pandemia muito relacionada ao comportamento social, ou seja, quando não conseguimos comunicar de maneira adequada, acessível e compreensível e fazer com que isso realmente chegue na maior parte da população, nós acabamos gerando mais mortes, pois o nosso comportamento enquanto sociedade impacta muito as taxas de contaminação e a disseminação da doença. A informação tem sido uma arma poderosíssima para promover morte ou vida e cuidado.” 

A importância de falar entre pares 

Se transmitir informações de cunho científico para a população representa um desafio, as inúmeras diferenças culturais e os diversos níveis de instrução podem dificultar ainda mais a troca efetiva de mensagens. Dessa forma, a comunicação entre pares pode gerar mais resultados. 

A Fundação Amazonas Sustentável (FAS) percebeu que seriam necessários esforços concentrados para desmentir fake news e incentivar que a população indígena se vacine. Por isso, considerando sua interlocução local, produziu uma série de seis áudios que explicam de forma simples como as vacinas funcionam e o processo de testes pelo qual passam antes de serem consideradas seguras e disponibilizadas à população. 

Outra iniciativa, a Coronavírus nas Favelas, página criada pela equipe do Dicionário de Favelas Marielle Franco, reúne diversas ações de comunicação pensadas de e para as periferias, como jornais locais, músicas – como o Funk do Coronavírus e a música Quarentena -, cartilhas, vídeos, relatos e depoimentos, muitos produzidos pelos próprios moradores das comunidades, sobre os impactos da Covid-19 na vida dessas comunidades. 

Regiany explica que as integrantes do coletivo Nós, Mulheres da Periferia perceberam, nos territórios periféricos de São Paulo onde moram e atuam, que o discurso negacionista adotado pelo Governo Federal, bem como as notícias falsas divulgadas em redes sociais, geraram certa descrença sobre o tamanho e gravidade do problema. Por isso, o coletivo começou a realizar estratégias para, além de manter as pessoas informadas, aproximá-las da realidade do vírus. 

“Durante alguns meses, fizemos um projeto chamado Boletim Curva da Periferia, onde publicávamos o número de casos e de mortes nos 96 distritos da cidade a cada 15 dias. Essa foi a maneira que encontramos para trazer um recorte mais próximo das pessoas que vivem nas periferias, para que pudessem entender como está a contaminação na Cidade Tiradentes ou em Itaquera, ou seja, no território onde elas vivem. Às vezes, falando em números nacionais, fica um pouco distante.” 

Outra iniciativa foi a criação da editoria Na Boca do Povo, no site do coletivo. A ideia é explicar semanalmente, de maneira objetiva, algum assunto em alta na pandemia, o que a pessoa precisa saber sobre o tema, como isso atinge sua vida e links para saber mais. A última questão abordada foi a CPI da Pandemia

“Às vezes a discussão fica muito etérea. Em muitos casos, os meios de comunicação falam de um jeito difícil. Por isso, é um papel importante dos comunicadores de periferia tentar destrinchar essas informações e deixar mais claro como isso impacta a vida no cotidiano. Ou seja, o que significa não ter representação de mulheres ou de pessoas negras nessa CPI? O que isso diz sobre como o poder está organizado dentro do país?”, reflete a diretora. 

Regiany também reforça a importância dos comunicadores periféricos no sentido de diversificar as vozes nos veículos de mídia, bem como problematizar a forma com que a história das periferias é contada. “Quando fazemos uma comunicação que coloca como protagonista as pessoas da periferia, que são mais impactadas por questões sociais, nós mudamos a perspectiva. Isso é fundamental para que não fiquemos sempre pensando soluções a partir dos mesmos sujeitos. As periferias têm muito a dizer, mas são pouco ouvidas e representadas quando estamos discutindo pautas de interesse coletivo.”

Apoio ao jornalismo e à ciência 

Outro debate bastante reforçado na sociedade durante a pandemia é a importância de uma aproximação entre a academia e o campo da comunicação, de forma que os avanços produzidos por cientistas no Brasil e no mundo possam, em primeiro lugar, ser compreendidos por comunicadores para que estes elaborem notícias, reportagens e diversas divulgações responsáveis sobre novas descobertas. 

Um exemplo é o Instituto Serrapilheira. Em 2021, a organização decidiu mudar seu Programa de Divulgação Científica e concentrar o apoio em iniciativas de mídia e jornalismo profissionais. A partir deste ano, a organização busca propostas com um olhar curioso e provocativo sobre a ciência, executadas por instituições que demonstrem atuação profissional no jornalismo e mídias, o que inclui jornais, televisão, rádio, meios digitais e plataformas de entretenimento.

A Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) também tem se mobilizado na produção de materiais com o objetivo de divulgar conteúdos científicos de forma acessível. O podcast gratuito MicroBios traz, em episódios curtos, temas relacionados à microbiologia conectando-os com a vida cotidiana. Já o Guia de Sobrevivência na Pandemia explica os principais sintomas da doença, como acontece a infecção, as principais formas de prevenção e o jeito certo de executá-las, com instruções para o uso correto de máscaras e lavagem das mãos. Todos os materiais produzidos pela universidade estão disponíveis nas redes sociais, como no Instagram

Roberta Marques, do Instituto Desiderata, afirma que a linguagem acessível é fundamental para ampliar o alcance e o entendimento da importância da ciência para o desenvolvimento do país e a relevância prática das descobertas no cotidiano. “Só aderimos a uma ideia e apoiamos uma medida se entendemos a sua aplicação prática e também as consequências de não fazê-lo. Essa ‘tradução’ da linguagem científica é fundamental para que as informações sejam democratizadas e as pessoas se apropriem delas.” 

Nesse sentido, a diretora pontua que o Brasil tem histórico de campanhas de comunicação em prol da vacinação que contribuíram para o controle de doenças. Por isso, Roberta aponta a comunicação como ferramenta imprescindível para promoção da saúde e do cuidado, a construção política e atuação coletiva.

“A pandemia de coronavírus deu muita visibilidade para o Sistema Único de Saúde [SUS] e à saúde pública, assim como para a importância da ciência na construção do caminho de saída desta pandemia. Nunca se fabricou tantas vacinas em tão pouco tempo. E sem a ciência nacional, com esforços do Instituto Butantan e da Fiocruz, a vacinação estaria ainda mais atrasada, evidenciando a importância do investimento na área. Tão importante quanto a divulgação de todas essas informações de forma acessível, é conseguir transformar a ciência e a saúde coletiva em temas perenes para o debate público”, pontua. 

Esforço conjunto 

Se antes da pandemia, as redes sociais eram uma das principais formas de interação e contato, com a adoção de medidas como distanciamento social, milhares de pessoas passam ainda mais tempo navegando nos aplicativos. Com isso, as próprias plataformas compreenderam o poder dessas mídias e estão se organizando para evitar a disseminação de notícias falsas pelos usuários. 

Desde fevereiro de 2020, o YouTube, por exemplo, removeu cerca de 800 mil vídeos que continham informações falsas sobre a Covid-19 e 30 mil vídeos incorretos sobre vacinas. O Twitter também tomou medidas para evitar a disseminação de notícias falsas, como a remoção de mensagens contendo fake news ou a colocação de avisos como “publicação de informações enganosas e potencialmente prejudiciais relacionadas à Covid-19”, a exemplo do episódio envolvendo o deputado federal Eduardo Bolsonaro

A companhia também tomou medidas mais extremas, como a suspensão permanente da conta do ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, alegando risco de mais incitação à violência dias depois da invasão ao Capitólio, o Congresso dos EUA.

Notícias relacionadas

Apoio institucional