Fome, solidariedade entre os mais pobres e o papel das empresas: como estão as doações após um ano de pandemia

Diversas pesquisas realizadas em 2020 comprovam que as doações ajudaram a colocar comida na mesa de milhares de brasileiros. O estudo A Favela e a Fome, realizado pelo Data Favela – uma parceria entre o Instituto Locomotiva e a Central Única das Favelas (CUFA) -, traz dados que dão a dimensão alcançada pelas doações no ano passado: 90% dos moradores de favelas receberem alguma doação e oito em cada dez famílias entrevistadas afirmaram que não teriam condições de se alimentar, comprar produtos de higiene e limpeza ou pagar contas básicas não fosse isso. 

O cenário conversa diretamente com o aumento da fome e insegurança alimentar no país: segundo a pesquisa, 68% das pessoas que vivem nessas comunidades afirmam que a pandemia acarretou piora na alimentação. A mesma porcentagem também viu faltar dinheiro para comprar comida e 53% afirmam que precisarão cortar gastos com a compra de alimentos. 

“A pesquisa revela uma situação trágica. Ao contrário do que dizia uma fake news propagada no início da pandemia, de que se tratava de uma doença democrática, a Covid-19 atingiu com muito mais violência os mais vulneráveis. O morador da favela não tem plano de saúde, reserva de dinheiro ou condições de adotar de forma eficiente as medidas para evitar o contágio”, afirma Renato Meirelles, presidente do Instituto Locomotiva e fundador do Data Favela. 

Segundo ele, uma conjunção de fatores – como a morosidade das medidas governamentais e o cansaço e a falta de perspectiva provocada pelo recorde de mortes e pela falta de vacina – contribui para o aumento da fome e para a diminuição no ritmo das doações. 

“16 milhões de brasileiros que moram em favelas foram jogados nos braços do vírus devido à demora do governo para estabelecer a segunda rodada de auxílio e pagá-lo. Essa gente foi às ruas em busca de comida porque a fome voltou à mesa da favela. E quem tem fome tem pressa. No início de março, essa população estava fazendo menos de duas refeições por dia”, expõe. 

O cenário também mostrou uma face da favela que, segundo Renato, só é desconhecida para quem não vive essa realidade. Segundo outro levantamento realizado no segundo semestre de 2020 pelo Instituto, 63% das pessoas mais pobres fizeram alguma doação durante a pandemia. “Temos muito o que aprender com a favela, onde vale a lógica: se eu tenho comida, o meu vizinho não passa fome.” 

Ressignificando o olhar para as doações 

João Paulo Vergueiro, diretor executivo da Associação Brasileira de Captadores de Recursos (ABCR), explica que o fato de as pessoas observarem o Brasil e o mundo realmente fechando as portas diante da ameaça do vírus fez com que voltassem todas as atenções para o tema da pandemia e, com isso, passassem a doar

“A questão psicológica em relação à doação é muito ligada ao início da tragédia. Com o passar das semanas e meses, as pessoas tendem a normalizar o que está acontecendo, diminuindo a sensibilidade em relação àquela causa específica. Por isso, elas voltam a prestar atenção a outras causas, e, no nosso caso, temos várias demandas sociais”, explica. 

Além disso, o diretor reforça que é preciso aplicar outras lentes ao olhar para o volume de doações inicial, considerando que 84% das doações foram realizadas por empresas. Para ele, a queda no volume das doações não significa necessariamente que as pessoas estão deixando de doar. 

“O fato de termos um volume menor de doações sendo observadas nesse período, ainda que seja o pior momento da crise, não quer dizer que seja em razão de o brasileiro não ter o hábito de doar. Isso é natural e seria observável em qualquer país. Pesquisas no mundo todo não mostram a volta de doações como foi no início da pandemia. Mas, mesmo assim, olhando as campanhas no Brasil, vemos um grande volume de doações e um grande número de doadores, muito maior do que o que existia antes da pandemia. Então, por mais que os volumes da doação neste momento não sejam iguais ao início da crise, eles são superiores a qualquer outro momento que vivemos de normalidade.” 

Nesse sentido, João Paulo reforça a importância de medidas que incentivem a doação entre famílias de alta renda, por exemplo, e não apenas doações via empresas, para gerar cada vez mais identificação e promover a doação entre mais pessoas. “Quando olhamos para outros lugares, as pessoas físicas ou suas fundações familiares doaram mais. No Brasil, diferente dos países desenvolvidos, o peso das empresas foi muito grande na doação na pandemia, e isso é curioso, porque pesquisas como Censo GIFE e BISC mostram que a maior parte do investimento social brasileiro é direcionado a projetos, e não doado, e na pandemia foi o inverso.”

Chamado para a doação 

O Movimento por uma Cultura de Doação lançou uma carta aberta – que, até o momento, conta com a assinatura de 100 organizações e 160 pessoas – com o objetivo de somar vozes e esforços pela retomada do movimento de doações, tendo como referência os valores somados em alguns meses de 2020, como março, que alcançou média diária de doações de R$ 108 milhões. 

As doações vêm sendo mapeadas pelo Monitor das Doações COVID-19, uma iniciativa da ABCR. Em julho de 2020, por exemplo, o gráfico aponta que o Brasil entrou na casa dos R$ 6 bilhões doados, quantia arrecadada entre 31 de março e 19 de julho. 

Desde então, passaram-se oito meses, durante os quais somam-se cerca de R$ 800 milhões. Por isso, a carta defende a importância de incorporar a doação na vida diária e endereça esse convite tanto a pessoas físicas quanto a doadores institucionais. 

Para Joana Mortari, uma das fundadoras do Movimento por uma Cultura de Doação e diretora da Associação Acorde, é necessário promover uma compreensão de que doar é fundamental, independente do valor. “Muita gente acha que seu dinheiro não é importante, que tem gente mais rica e são eles que podem ou devem doar. Mas doar é um poder que cada um de nós tem, dentro de nossos universos financeiros, e cada real faz diferença para as organizações da sociedade civil que se dedicam às causas sociais e ambientais.” 

Escuta ativa e as OSCs 

Além do chamado aos doadores individuais, a carta também fala diretamente com doadores institucionais e reforça a importância de que flexibilizem ideias e ouçam as demandas do momento atual, que podem ser diferentes do início da pandemia. “É hora de perguntar e ouvir as organizações da sociedade civil. E também aqueles que recebem as doações, sobre suas necessidades. Pensar junto a eles sobre os efeitos que começam a reverberar em diversos campos. É preciso flexibilizar as vontades ou ideias próprias em prol de uma escuta profunda sobre quais as reais necessidades que nos acompanharão nesses próximos momentos”, aponta trecho do documento. 

Para Joana, essa escuta é importante porque, em muitos casos, os processo de doação das empresas têm como conceito subjacente a necessidade da própria empresa, o que molda a forma como doam e, consequentemente, como o trabalho acontece na ponta, o que nem sempre atende às necessidades locais. “Não somos todos iguais e as necessidades não são as mesmas. As organizações são essa ponte que observa as localidades e, ao observar cuidadosamente e ouvir a população local, têm potencial de saber melhor como endereçar os desafios do território.” 

Apesar de muito afetadas pelo contexto sem precedentes imposto pela pandemia, as organizações da sociedade civil contaram com aprendizados neste processo. “A pandemia motivou uma aliança nunca vista entre ONGs e iniciativa privada. Enquanto o governo se surpreendia com o número de invisíveis, essa aliança deu um show de logística e fez chegar as doações rapidamente a quem mais precisava, muito antes da primeira rodada do auxílio emergencial. A crise jogou luz sobre a importância do trabalho das organizações e também serviu para separar os sérios dos aventureiros. Os primeiros são, com certeza, reconhecidos e apoiados”, completa Renato. 

Esperança 

Apesar de ainda estar abaixo dos níveis observados no ano passado, o mês de março de 2021 representou uma ponta de esperança, considerando que as doações voltaram a crescer e alcançaram os maiores volumes desde agosto de 2020. Além disso, o número de pessoas e empresas que doaram também cresceu 33 mil no mês, o que representa o maior crescimento desde setembro do ano passado.  

Uma das iniciativas desenvolvidas nesse sentido foi a Ação Emergência Covid | 11º Congresso GIFE – Fronteiras da Ação Coletiva, uma parceria entre GIFE e Benfeitoria, com apoio do Movimento por uma Cultura de Doação. Para cada doação em qualquer valor realizada por algum participante do Congresso entre os dias 22 e 31 de março, foram adicionados mais R$ 100. O participante podia escolher entre direcionar o valor a uma campanha específica (entre as doze indicadas) ou repartir entre todas elas. 

A campanha mobilizou centenas de doadores e arrecadou R$ 85 mil. Esse recurso será destinado a 12 campanhas ativas na mobilização de recursos para respostas aos impactos mais agudos da crise.

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