Projetos pontuais não são capazes de alterar dinâmicas sociais complexas

As organizações da sociedade civil comprometidas com transformações sociais e com o enfrentamento de desigualdades sistêmicas passam, em grande parte, por um desafio intermitente: conseguir os recursos necessários para continuar trabalhando e realizando sua missão.

O Monitor das Doações registra, por exemplo, mais de R$ 7 bilhões como resposta à Covid-19. Porém, apesar do amplo volume, esses recursos estão longe de significar um fortalecimento das OSCs. Os dados do Censo GIFE 2020 ajudam a explicar porque isso acontece. 

Segundo a pesquisa, dobrou o volume de repasses a terceiros, sendo o tipo de alocação de recursos mais significativo entre investidores sociais: foram R$ 2,5 bilhões repassados a iniciativas, programas, ações sociais ou gestão de terceiros, representando 47% dos investimentos dos associados GIFE, ou seja, o tipo de despesa orçamentária mais significativa. 

Apesar dos dados promissores, o apoio institucional às OSCs, ou seja, desvinculado de projetos e iniciativas, mesmo com um aumento de 17 pontos percentuais em relação à edição anterior do Censo, ficou na casa dos 47% e, portanto, “ainda se configura como uma oportunidade de atuação para as organizações na agenda de fortalecimento da sociedade civil”, aponta trecho da publicação. 

Para onde vai o apoio institucional? 

Para Naiara Leite, coordenadora executiva do Odara – Instituto da Mulher Negra, receber recursos desatrelados da execução de projetos pontuais faz com que a máquina da organização funcione, assegurando sua existência. 

“O apoio institucional possibilita uma equipe mínima para fazer a gestão política, administrativa, financeira, de representação e incidência política qualificada, comunicação institucional e de captação de recursos. Ele é o motor para que as organizações atuem de forma efetiva nos diversos contextos, visando a garantia dos direitos humanos.” 

Em outras palavras, os recursos de uso livre possibilitam que cada organização se fortaleça como sujeito político na sociedade civil e tenha melhores condições de protagonismo, gestão e sustentabilidade em prol das causas que promove, como explica Domingos Armani, consultor em desenvolvimento institucional de OSCs. 

“Uma organização que se sustenta apenas com alguns projetos específicos, virtualmente sem apoio institucional, terá enormes dificuldades de atrair e reter talentos, remunerar adequadamente e investir na qualificação de sua equipe e em inovação e dedicar energias à atualização de sua estratégia de atuação. Ou seja, ela não terá condições adequadas para pensar no seu aperfeiçoamento e fortalecimento, ela estará meramente sobrevivendo”, afirma. 

Segundo o especialista, receber um apoio institucional significa ter recursos para desenvolver projetos e, ao mesmo tempo, cuidar de si, alocando atenção, energia e recursos às dimensões da vida institucional, promovendo o desenvolvimento da instituição. Com isso, a tendência é contribuir para impactos sistêmicos e mais sustentáveis. 

O lado dos financiadores

Por que os grantmakers devem prestar atenção ao fortalecimento institucional de seus grantees? Para Domingos, trata-se de um alinhamento de visões e propósitos entre os envolvidos. 

As mudanças importantes de médio e longo prazo e a superação de desafios como pobreza, violação sistemática de direitos e a melhoria das questões ambientais, por exemplo, só acontece se houver o que o especialista chama de uma conjunção de fatores: políticas públicas e orçamentos adequados, opinião pública/mídia positiva, comprometimento de parcela da elite econômica e consciência e pressão social organizada. 

“O apoio institucional pode cumprir um papel estratégico no fortalecimento do ecossistema de organizações da sociedade civil como o movimento que catalisa e vocaliza as visões e proposições das mais diversas comunidades e setores sociais, colocando energia num fator chave de mudança: fortalecer a voz e a influência daqueles que defendem o interesse público na esfera pública”, explica, reforçando a importância de uma sociedade civil fortalecida em meio à democracia para representar os interesses e demandas da população. 

A fala de Domingos encontra ressonância na vivência do Odara, organização negra feminista que tem como objetivo superar a discriminação e o preconceito, além de buscar alternativas que proporcionem a autonomia e inclusão sociopolítica das mulheres negras na sociedade. Naiara defende que a complexidade do tema não é possível de ser enfrentada a partir de apoios pontuais, sendo necessário um acompanhamento de longo prazo. 

“A atuação do Odara – Instituto da Mulher Negra é centrada no combate ao racismo, fenômeno que carrega uma articulação perversa entre sexismo, patriarcado e outras formas de opressão. Por isso, se faz necessário um investimento de recursos que assegurem a incidência de curto, médio e longo prazo. Projetos pontuais sozinhos não são capazes de alterar essas dinâmicas.” 

Confiança e prestação de contas

Em muitos casos de repasses de recursos são exigidos inúmeros relatórios, documentos e comprovações sobre o destino e aplicação do investimento, o que toma muito tempo das organizações. 

A confiança entre as organizações que doam e que recebem recursos tem sido mais debatida, sobretudo à luz de posicionamentos recentes de MacKenzie Scott, ativista e filantropa norte-americana, que acelerou o processo de doação de sua fortuna a organizações da sociedade civil durante a pandemia. Para serem selecionadas, as organizações passam por um processo criterioso, mas, depois disso, não têm a necessidade de preencher inúmeros relatórios de acompanhamento. 

Para Naiara, investir no desenvolvimento da confiança gera segurança e benefícios para ambas as partes, o que pode ser feito utilizando a transparência sobre o uso dos recursos e promovendo a compreensão do doador sobre as necessidades e agendas da organização.

Para Domingos, um dos grandes desafios do campo é migrar da lógica do apoio a projetos para o estabelecimento de relacionamentos de médio e longo prazo. 

“Isso exige determinação, investimento e uma atitude de confiança que possibilita a criação de um espaço seguro no qual a relação possa acontecer, além de tratar diferenças e tensões e fortalecer o propósito comum. Quando uma OSC vive essa situação como a que MacKenzie Scott propiciou, ela não perde tempo nem recursos com tarefas administrativo-financeiras desnecessárias, estabelece um diálogo regular e significativo com o doador e pode focar no que importa, ou seja, as estratégias, abordagens e ações para mudar a sociedade. Tudo isso fortalecendo seu papel de sujeito transformador.” 

Além do financeiro 

Recursos financeiros são importantes para que os grantees possam investir em seu espaço físico, na remuneração e qualificação da equipe, compra de móveis e materiais, e outras ações. Entretanto, o apoio institucional vai além de repasses em dinheiro e envolve também uma multiplicidade de iniciativas que podem ser desenvolvidas, como: 

  • apoio técnico;
  • consultorias independentes locais pro bono para as organizações parceiras;
  • apoio para networking e intercâmbios nacionais e internacionais;
  • envolvimento da organização em seminários e espaços formativos;
  • iniciativas para dar maior visibilidade a causas/movimentos relevantes globalmente;
  • espaços de escuta, reflexão e aprendizado conjunto sobre determinadas questões de desenvolvimento institucional.

Outra possibilidade é o investimento no fortalecimento das OSCs de forma indireta, isto é, apoiando organizações que assessoram a sociedade civil, como provedoras de serviços de consultoria, avaliação, inovação, gestão, incubadoras e aceleradoras, instituições que orientam sobre a captação de recursos e outras. 

Aprendizados e encaminhamentos 

Domingos e Naiara listam alguns passos que podem apoiar a relação entre grantmakers e grantees, e, com isso, facilitar o processo do apoio institucional: 

  • alinhamento institucional entre doador e parceiro;
  • reduzir e simplificar os instrumentos de prestação de contas;
  • plano estratégico institucional que estabeleça os objetivos e resultados esperados para o curto e médio prazo;
  • manter diálogo ativo e feedback sobre relatórios, contas, auditorias, etc., para entender eventuais discrepâncias e alinhar expectativas;
  • disposição para colaboração.

Fique por dentro 

Domingos e Naiara participaram do primeiro encontro de 2022 da Rede Temática de Grantmaking do GIFE, que teve como proposta o diálogo com três OSCs sobre fortalecimento institucional.

A série Grantmaking, do Podcast GIFE, é outro espaço de discussão dos temas relevantes para o universo de doação. Atualmente com nove episódios disponíveis, já foram debatidos as doações no contexto internacional, fundos independentes, atuação em rede e outros assuntos

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