Fundação Tide Setubal lança programa de apoio e incentivo à literatura da periferia

Investir e incentivar a produção literária em regiões periféricas da cidade de São Paulo é a missão do Circuito Literário nas Periferias (CLIPE), novo programa da Fundação Tide Setubal, lançado na quinta-feira (09/08), em São Paulo. A iniciativa está diretamente ligada à nova missão da Fundação, especificamente ao objetivo de enfrentar as desigualdades socioespaciais.

Marcio Black, especialista em cultura da Fundação Tide Setubal, explica que até então, uma das maiores ações da área de cultura da Fundação era o Festival do Livro e da Literatura em São Miguel Paulista, em São Paulo, que já existe há 12 anos. “Com a ideia de ir para a cidade toda, começamos a pensar em como configurar esse olhar e chegamos na criação de um circuito de literatura nas periferias, onde possamos olhar para outras iniciativas, calendários e autores que contemplam a literatura periférica e que já estejam acontecendo nesses territórios”, explica.

A ideia de fortalecer iniciativas já existentes se manifestará de diversas formas. Uma delas, por exemplo, foi o apoio ao estande do Quilombhoje na Bienal do Livro de São Paulo, que há 40 anos publica a série Cadernos Negros. A produção proporciona visibilidade para autores afrodescendentes e fomenta a literatura negra e produção literária das periferias.

O CLIPE também abrange a realização de clubes de leitura, que serão possibilitados a partir de uma parceria com a Companhia das Letras. A ideia é que agentes culturais dos territórios promovam esses encontros, que acontecerão nas cinco macrorregiões da cidade. Na Zona Leste, por exemplo, o evento ficará a cargo de Antonia Marlucia (Malu), enquanto no Centro, James Lino será o responsável. Destinado a maiores de dezoito anos, os clubes serão espaços para que os participantes possam debater literatura, leitura e suas opiniões. O apoio a outros eventos e encontros culturais, como a Festa Literária da Cidade Tiradentes (Flict) também está na pauta do CLIPE.

O fato de a Fundação Tide Setubal já ter um histórico no campo da cultura, principalmente pela criação e realização do festival em São Miguel Paulista, faz com que a organização já seja reconhecida em outros territórios. Entretanto, Márcio ressalta que a chegada em uma nova região precisa ser feita com cuidado, ouvindo atores, grupos, coletivos e iniciativas locais sobre as suas necessidades.

“Seria muito mais fácil replicar o modelo do Festival de São Miguel em outras regiões. Mas nós fizemos uma série de conversas com coletivos locais e saraus que já ocupam os territórios deixando o canal aberto para que eles falassem em que precisavam de apoio. O coletivo Elo da Corrente, por exemplo, que realiza um sarau em Pirituba há quase 20 anos, não quis apoio no evento em si, mas em uma iniciativa que eles sonhavam há muito tempo:  levar o sarau para dentro de escolas públicas da região. Em vez de chegar com o produto ou modelo pronto, nós buscamos entender como precisam de apoio”, ressalta Marcio.

O CLIPE tem como objetivo apoiar iniciativas que contemplem os movimentos literários da periferia, desde saraus, festas literárias e bibliotecas comunitárias, uma vez que a Fundação entende que todos esses atores e iniciativas são fundamentais para fortalecer a literatura periférica.

A potência da literatura periférica

Para exemplificar o porquê de a literatura periférica ser considerada uma potência na atualidade, Marcio cita Geovani Martins, de 27 anos. Nascido em Bangu, na zona oeste do Rio de Janeiro, o jovem usou sua experiência como morador do Vidigal, na Zona Sul da Cidade, para onde mudou quando tinha treze anos, para escrever os treze contos que compõem o livro “O sol na cabeça”, publicado em março pela Companhia das Letras.  

O especialista em cultura também cita Djamila Ribeiro, pesquisadora e mestre em filosofia política e uma das autoras mais vendidas na última edição da Bienal do Livro. “O grande número de vendas desses autores não é uma coincidência. Existe um mercado reprimido de literatura na periferia e para a periferia que está sendo contemplado por eles. A periferia quer ler, mas quer ler os seus autores.”

Nesse sentido, Marcio levanta a questão da representatividade, uma vez que as pessoas buscam leituras que façam sentido para suas vidas e que tenham alguma relação com suas vivências e experiências. “Quem está comprando o livro do Geovani e da Djamila não é a classe média branca. São mulheres negras que leem a Djamilia, porque ela consegue traduzir em literatura a realidade que elas vivem. Quem lê Geovani é o jovem negro de periferia porque ele fala sobre o lugar onde vive.”

A busca por esse sentimento de pertencimento, que acontece também nas artes, fica muito clara na literatura. Marcio comenta que, em conversas com parceiros do meio editorial, já houve discussões sobre obras de determinados autores não terem uma boa receptividade por parte de crianças. “Em certo momento, o autor fala ‘Vamos ao tênis clube’, ou ‘vamos descer para o playground’. Essas crianças não fazem ideia do que é um tênis clube, elas não têm nem Sesc [Serviço Social do Comércio] perto de casa. Quando leem o Geovani, leem sobre o lugar onde elas realmente sociabilizam e convivem.”

Representatividade e mercado editorial  

Marcio afirma que um dos objetivos do CLIPE é entender porque a literatura periférica, mesmo tão potente, nunca recebeu apoio contundente tanto do poder público como de organizações da sociedade civil. Para isso, ele aponta dois motivos. Um deles é o racismo estrutural que existe no Brasil, que faz com que as produções negras não sejam devidamente reconhecidas.

Outro é o conceito de alta cultura e cultura elevada. “Quando a referência é a um autor central branco, ele é poeta. Quando a referência é a Sérgio Vaz, você automaticamente adjetiva. Ele é um poeta marginal, um poeta periférico. A produção cultural das bordas vem sempre adjetivada. O escritor da periferia nunca é só escritor, ele é um escritor negro, periférico e marginal”.

Para Marcio, essa falta de reconhecimento da produção das margens será combatida com o fortalecimento e apoio a ações que já estão em andamento como saraus, mas também a partir do investimento na circulação desses eventos e autores. “Nós queremos fortalecer o movimento local, mas também fazê-lo circular. Mandar autores da zona norte para a zona sul, fazer com que os da sul vão para a leste e assim vai.”

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