Gênero e raça contribuíram para o aumento das desigualdades durante a pandemia de Covid-19, aponta relatório

As mil pessoas bilionárias do mundo levaram apenas nove meses – entre março e dezembro de 2020 – para recuperar-se financeiramente do que perderam na pandemia, enquanto os mais pobres podem levar pelo menos 14 anos. Durante o mesmo período, os dez homens mais ricos do mundo acumularam cerca de 540 bilhões de dólares. Estima-se que a quantia é suficiente para cobrir os gastos de uma vacina contra a Covid-19 para a população mundial.

Se parece improvável existir um cenário como o citado acima, onde ricos acumulam ainda mais recursos e os mais vulneráveis perdem toda e qualquer condição de ter uma vida digna, é isso que mostra o relatório O Vírus da Desigualdade, lançado pela Oxfam na abertura do Fórum Econômico Mundial realizado em Davos, na Suíça. 

Esse foi, inclusive, um dos objetivos do documento: mostrar como o sistema econômico vigente permite e aumenta ainda mais o abismo entre os mais ricos e os mais pobres em meio a uma das maiores crises humanitárias. 

“A injustiça do sistema econômico permite que os super ricos acumulem imensas fortunas, enquanto bilhões de pessoas estão em situações extremamente precárias e com uma perspectiva muito demorada de recuperação”, explica Jefferson Nascimento, coordenador de pesquisa e incidência em justiça social e econômica da Oxfam Brasil. 

Mudanças econômicas e no sistema tributário 

Considerando esse cenário, uma das propostas do documento é uma mudança no paradigma econômico. A ideia é associar uma economia mais justa à recuperação econômica no Brasil e no mundo. Algumas análises, como o estudo Desigualdades nas Metrópoles, apontam que o auxílio emergencial proporcionado pelo Governo Federal brasileiro em 2020 teve um impacto positivo na redução da miséria e da pobreza. Desenvolvido por pesquisadores da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), do Observatório das Metrópoles e do Observatório da Dívida Social da América Latina (RedODSAL), o documento aponta que o auxílio evitou que 28% da população residente em regiões metropolitanas brasileiras – o equivalente a 23 milhões de pessoas – caísse na pobreza durante a pandemia. 

“Várias pesquisas e análises mostram que boa parte dos recursos emergenciais são utilizados na compra de comida e de bens de consumo, então esse dinheiro acaba voltando para a própria economia, deixando-a aquecida. Pensar em uma economia mais justa significa pensar um sistema que, de certa maneira, proteja e cuide de pessoas em situação de miséria e pobreza e não crie condições para ganhos e lucros exorbitantes por parte de grandes empresas e bilionários”, explica Jefferson. 

Além disso, o coordenador expõe que o Brasil conta com um sistema tributário de caráter regressivo, no sentido de que os mais ricos pagam menos impostos proporcionalmente aos mais pobres. A ideia seria alcançar um sistema progressivo, no qual quem ganha mais, paga mais impostos de forma proporcional. Ainda, uma taxação menor com relação ao consumo seria uma forma de deixar as mulheres menos vulneráveis, já que, comparativamente, elas gastam mais do que os homens com alimentação, roupas e suprimentos para a casa, principal fonte fiscal. 

“Estamos pensando em superar a crise, mas é importante fazê-lo sob novas bases, mais igualitárias e justas, e não fazer mais do mesmo”, pontua o coordenador. 

Durante a pandemia, estudiosos, pesquisadores e especialistas chamaram atenção para o fato de que as chances de contágio e mortes são expressivamente maiores em bairros, cidades, regiões e países mais pobres. De acordo com o relatório da Oxfam, na Inglaterra, as taxas de contaminação em regiões mais pobres chegaram a ser o dobro em relação às mais ricas. A cidade de São Paulo, por exemplo, apresentou, ainda em 2020, dados diametralmente opostos em relação ao número de mortes em razão da Covid-19 no bairro do Morumbi, região nobre da capital e com mais infectados, e na Brasilândia, bairro periférico com menor número de infectados, porém mais mortes. 

“Agora já estamos na fase de imunização das populações e nove em cada dez habitantes de países pobres ficarão sem vacina, ao passo que muitos países ricos já compraram doses suficientes para vacinar suas populações inteiras por três vezes. Há desigualdade, portanto, até na saída da pandemia”, reforça o coordenador. 

A permanência das questões de gênero e raça 

Se não bastasse o desafio imposto pela pobreza, o relatório aponta que os fatores gênero e raça têm importante papel sobre o nível em que as pessoas são atingidas pela crise. De acordo com o levantamento, 22 mil pessoas negras e hispânicas ainda estariam vivas nos Estados Unidos – que atualmente conta com mais de 500 mil mortes por Covid-19 – se tivessem a mesma taxa de mortalidade do que as brancas. 

Jefferson cita alguns estudos que fazem uma relação entre maiores taxas de contágio entre pessoas negras, que moram mais afastadas de grandes centros ou em regiões pobres e que têm nível inferior de escolaridade. “Quanto menor o grau de escolaridade, é mais provável ocupar um trabalho não formalizado. Essa ausência de proteção social faz com que as pessoas precisem se expor ao risco de trabalhar, pois é a única forma de garantir a sua renda. Também devemos considerar os deslocamentos. Essas pessoas moram em bairros mais afastados do centro. Por isso, o deslocamento em si representa um risco de se contaminar.” 

O mercado de trabalho e as mulheres na linha de frente 

A Organização Internacional do Trabalho (OIT) estima que meio bilhão de pessoas estão, em razão da pandemia, sub-empregadas ou desempregadas, sujeitas à miséria e à fome. No início da pandemia, 75% dos trabalhadores do mundo não tinham acesso a proteções sociais como auxílio-doença ou seguro-desemprego e mais da metade da força de trabalho de países de baixa-renda estava vivendo na pobreza. 

Os empregos precários, os mais impactados pela pandemia, são, em maior parte, desempenhados por mulheres. O relatório aponta que, se houvesse igualdade de gênero nesse quesito, ou seja, se homens e mulheres estivessem representados igualmente nesses empregos, cerca de 112 milhões de mulheres não estariam sob o risco de perder sua renda e sustento. 

Além disso, Jefferson reforça que recai sobre elas o peso do trabalho do cuidado, que já existia antes da pandemia, mas foi ainda mais intensificado pelas condições de distanciamento social. “O relatório que a Oxfam produziu antes da pandemia, chamado Tempo de Cuidar, mostra que o trabalho de cuidado é majoritariamente exercido por mulheres – em muitos casos não remunerado -, além de retirar da economia e precarizar a situação das mulheres.” 

Além disso, a própria vivência da pandemia expõe as mulheres a mais riscos do que os homens: sendo maioria em áreas como saúde e assistência social, são maiores os riscos de contaminação entre elas do que entre eles. 

Cinco passos em direção a um mundo melhor 

Elaborado a partir de pesquisas e conversas com 200 economistas, o último capítulo do relatório traz cinco tendências que devem ser observadas a partir de agora e sobretudo no pós-pandemia para a sociedade viver em um mundo melhor. São elas: um mundo profundamente mais igualitário e que saiba o que é importante; um mundo em que economias humanas cuidem das pessoas; um mundo sem exploração e com estabilidade de renda; um mundo em que os muito ricos paguem uma quantidade justa de impostos; e um mundo com segurança climática. 

Essas medidas envolvem diferentes aspectos da vida em sociedade, como aumento de gastos públicos com saúde universal gratuita e de qualidade, cita Jefferson, bem como mecanismos de renda básica universal, ampliação de programas como o Bolsa Família no caso do Brasil, reflexões sobre a questão tributária, taxação de grandes fortunas e lucros por parte das empresas e a adoção de medidas que considerem a segurança climática e se atentem a uma recuperação verde. 

Notícias relacionadas

Apoio institucional