Rubricas avaliativas ajudam a analisar resultados de ações durante pandemia e impacto nas organizações

Os muitos editais, campanhas de financiamento coletivo e de arrecadação, projetos, ações e programas criados para superar os diversos desafios trazidos por conta do  novo coronavírus no Brasil demonstraram a rapidez de resposta diante da pandemia. Desenvolver processos avaliativos destas iniciativas se tornam importantes, uma vez que podem ajudar a analisar pontos positivos e negativos do que foi desenvolvido, gerar aprendizagem bem como apontar os próximos passos. 

Tendo isso em vista, a Agenda de Avaliação do GIFE desenvolveu a ferramenta “Marco de Análise das iniciativas de enfrentamento aos efeitos da Covid-19“, composto por rubricas avaliativas que apoiam processos de autorreflexão. Erika Sanchez Saez, coordenadora do projeto Emergência Covid-19, explica que a ideia partiu do eixo cinco do projeto, que articula maneiras do GIFE apoiar institutos, fundações e empresas que empreenderam ações durante a emergência a realizarem avaliação das mesmas. 

“Em contato com a Agenda de Avaliação do GIFE, surgiu a ideia de criar as rubricas como uma ferramenta de reflexão que possibilitasse um diálogo interno de cada organização sobre as ações que foram realizadas por ela ao longo dos últimos meses. Dada a magnitude da pandemia, das consequências negativas e da imensa resposta da filantropia, entendemos que seria muito importante contribuirmos com as reflexões do próprio setor”, afirma Erika.  

Em linhas gerais, as rubricas são uma ferramenta que permitem às organizações do campo filantrópico desenvolverem a autoanálise das suas iniciativas contribuindo para os processos de decisão e aprendizagem, tanto das iniciativas em si, quanto da organização como um todo. Segundo Gabriela Pluciennik, consultora de avaliação que elaborou a ferramenta junto com a Agenda de Avaliação, as rubricas utilizam uma escala de possíveis níveis de desempenho de determinado projeto ou programa, onde os critérios avaliativos são graduados. 

“Trata-se de uma metodologia que é capaz de dar suporte para perguntas avaliativas vinculadas a iniciativas complexas. Ela integra dados quantitativos e qualitativos, ajuda a focar o olhar do avaliador para o que realmente importa e favorece o alinhamento e a transparência quanto aos critérios de julgamento. Além disso, o diálogo em torno dos critérios e rubricas avaliativas favorece o uso dos achados avaliativos”, explica. 

Impacto no ecossistema 

Para além de contabilizar os resultados das ações, incentivar que elas reservem um tempo de análise sobre as ações emergenciais desenvolvidas é uma forma de refletir sobre o impacto concreto da filantropia – considerando que muitas ações inovadoras foram implementadas nesse período, com mais propostas colaborativas, em um tempo recorde de planejamento e atuação -, e também sobre o desenvolvimento do setor como um todo. 

“Há um benefício no nível individual de cada organização e um benefício setorial, para o ecossistema, sobre como fortalecemos o campo da filantropia e do investimento social privado (ISP) no Brasil a partir de instrumentos que nos ajudem a avaliar de forma mais padronizada, que é uma característica das rubricas”, defende Erika.   

As rubricas

As rubricas foram criadas pensando em diferentes estágios das ações emergenciais desenvolvidas. Cada uma delas conta com quatro níveis de qualidade: excelente, muito bom, pode melhorar e com limitações importantes. 

Quando o assunto é resultado, ou seja, os efeitos produzidos pela proposta que foi desenvolvida, foram criadas 18 rubricas para reflexão. Elas analisam a qualidade dos resultados alcançados, sejam eles resultados internos para organização, transversais ou específicos nas áreas de saúde, proteção social e econômica e educação. 

Parâmetros mais amplos apoiam a análise sobre a qualidade do desenho, das estratégias de implementação, da gestão, dos processos de comunicação e do monitoramento e avaliação da iniciativa. 

Avaliando diferentes âmbitos das ações   

Apesar de normalmente serem parâmetros desenhados para avaliação de programas, projetos ou ações mais específicos, nesse caso, as rubricas foram pensadas para avaliar iniciativas genéricas, mas que possuem dois pontos em comum: ações emergenciais com duração relativamente curta e que respondem a um mesmo contexto, ou seja, as consequências causadas pela pandemia de Covid-19. 

“Alguns responderam à pandemia ajudando os hospitais. Outros produziram conteúdo didático pensando na educação a distância, e outros doaram cesta básica, ajudaram comunidades ou apoiaram pequenos negócios. As rubricas tentam dialogar com um conjunto muito grande de propostas e áreas temáticas, mas unidas por lente comum”, explica Erika. 

Nesse sentido, ela comenta que o projeto Emergência Covid-19, a partir da observação das ações realizadas durante a pandemia, ajudou a Agenda de Avaliação a criar, além dos parâmetros mais gerais, rubricas para três áreas de atuação específicas: Saúde, Proteção Social e Econômica e Educação. 

Organizações da saúde devem avaliar, por exemplo, se a ação ofereceu garantia de insumos de diagnóstico e prevenção, de atendimento em infraestrutura de internação e/ou UTI e como tratou a saúde mental da população. 

Já no grupo temático Proteção Social e Econômica, algumas rubricas olham para a Garantia da Segurança Alimentar e da Higiene (famílias e membros da comunidade); Contribuição para a sobrevivência e/ou criação de novos pequenos negócios e/ou geração de renda para empreendedores e mitigação de situações de violência. No grupo sobre Educação, podem ser analisados resultados como a manutenção do acesso à educação formal;  geração de aprendizados relevantes nos processos de educação formal e a garantia de oferta, acesso e qualidade em atividades culturais e de educação não formal. 

Quem pode utilizar

Apesar de ter rubricas direcionadas a áreas de atuação específicas, Erika reforça que a ideia é que o Marco de Análise possa ser utilizado por qualquer organização e investidor social que tenha realizado algum tipo de iniciativa durante a pandemia. Além disso, as rubricas foram pensadas de forma a serem adaptadas a diferentes propostas e contextos. 

Os parâmetros podem ser discutidos com profissionais das organizações, bem como parceiros, coinvestidores, beneficiários e outros públicos de interesse. O envolvimento mais abrangente nas reflexões pode proporcionar entendimentos comuns sobre os alcances e resultados das ações. 

A coordenadora pontua, entretanto, que, no processo de utilizar as rubricas, a decisão sobre quem irá participar das conversas e quanto tempo será dedicado a isso varia a cada organização, justamente pelo fato de que cada uma conta suas particularidades. Nem todas têm, por exemplo, uma área ou profissional dedicada à avaliação. “Elas devem ser recebidas como uma ferramenta que apoia o processo da organização e não algo que complexifica”, defende. 

Erika reforça ainda que trata-se de uma oportunidade de envolver as lideranças nas conversas avaliativas, considerando seu papel importante durante repactuação de planos, metas e orçamentos previstos para 2020, mudanças ocasionadas pela pandemia. 

A ferramenta está disponível neste site.  

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