GIFE debate advocacy e transparência em fórum internacional de investimento social privado

Como a filantropia pode influenciar a mudança social? Como desafiar modelos atuais e criar novas práticas? Quais condições precisam ser criadas a fim de que a filantropia possa prosperar? Essas foram algumas provocações que nortearam as várias atividades promovidas durante o Wings (Worldwide Initiatives for Grantmaker Support) Forum 2017, realizado de 22 a 24 de fevereiro, na Cidade do México, México.

Durante três dias, representantes de 41 países e de 167 organizações diferentes, estiveram presentes no evento para compartilhar conhecimentos, estabelecer novas redes e debater sobre a temática central do encontro Critical Philanthropy: Addressing Complexity, Challenging Ourselves (Filantropia crítica: endereçando a complexidade, desafiando a nós mesmos).

O GIFE marcou presença mais uma vez no fórum propondo e participando do painel “Políticas e Participação: Advocacy, Comunicação e Transparência” (veja detalhes abaixo). Também estiveram presentes no encontro associados como a Ford Foundation Brasil e o Instituto Clima e Sociedade.

“A Conferência permite que essas organizações possam discutir sobre os maiores desafios e questões críticas atuais com as quais precisam lidar diariamente. Além disso, neste espaço conseguimos dar luz ao trabalho das associações de fundações, permitindo que elas possam compartilhar práticas e mostrar o grande impacto que tem o seu trabalho. Lembramos que é fundamental termos um ecossistema forte, pois isso permite não só proteger o setor, mas influenciar nas regulamentações, de maneira a aumentar o impacto da filantropia e ter um efeito de alavancagem”, disse ao redeGIFE Benjamin Bellegy, diretor executivo da Wings.

Marisa Ohashi, gerente de Planejamento e Operações, destaca a importância do GIFE participar de espaços como este, tendo em vista que se trata do único evento em que estão presentes organizações que atuam de forma similar ao GIFE, em diferentes partes do mundo, para o desenvolvimento da filantropia e do investimento social privado.

 

Estratégias

A importância de se criar um ambiente propício para a atuação da sociedade civil e o constante cerceamento a essa atuação norteou as conversas durante o fórum. À medida que os países enfrentam, cada vez mais, novas realidades políticas que afetam a sociedade civil nos diversos contextos nacionais, os palestrantes e participantes enfatizaram repetidamente que as fundações e redes de filantropia devem ser “políticas e não partidárias”, a fim de tomar posição quando os valores inerentes ao setor estão sendo ameaçados.

“À medida que os políticos promovem a construção de muros, o momento político atual exige que construamos pontes,  não apenas para conectar sociedades e promover abertura, mas também para unir experiências de filantropia que trabalham nos espaços cívicos fechados ao redor do mundo.  Esse problema não será resolvido com uma bala de prata ou uma única estratégia global”, afirma Natalie Ross, diretora sênior de Filantropia Global e Parcerias no Conselho de Fundações, em artigo publicado na Revista Alliance.

Uma pesquisa divulgada pela Wings na conferência mostrou que quase 70% da rede está atualmente envolvida na defesa de mudanças de políticas – ações de advocacy – em seus países, com destaque especial para a América Latina.

 

Advocacy em pauta

Nesse contexto de redução do espaço da sociedade civil no mundo, as associações de suporte à infraestrutura da filantropia têm sido desafiadas, cada vez mais, a atuar fortemente em ações que envolvam questões políticas, tanto para mudar a percepção sobre determinadas causas, quanto para avançar em legislações específicas.

Assim, para debater sobre qual é o papel das associações e redes de filantropia em influenciar políticas e, ao mesmo tempo, conseguir conciliar os diversos interesses de sua rede de organizações/associados, o GIFE propôs a mesa Policy and Participation: Advocacy, Communication and Transparency (Políticas e Participação: Advocacy, Comunicação e Transparência).

Iara Rolnik, gerente de Conhecimento do GIFE, participou do debate, juntamente com Dave Biemesderfer, do Forum of Regional Grantmakers dos Estados Unidos, James Magowan, da DAFNE (Donors and Foundations Networks in Europe) e mediação de John Harvey, Global Philanthropy Services.

Entre os principais pontos discutidos no painel estiveram o processo de escolha das agendas de advocacy; como cada organização tem respondido aos desafios relacionados às demandas de qualificação e competências específicas necessárias para atuar nessa frente; e como se organizam do ponto de vista do financiamento dessas iniciativas.

A gerente de Conhecimento destacou, durante a mesa, que o GIFE já vem atuando em ações de advocacy de forma estratégica há alguns anos, como em relação à participação na agenda do Marco Regulatório das Organizações da Sociedade Civil, sobretudo como parte do comitê gestor da Plataforma por um Novo Marco Regulatório para as Organizações da Sociedade Civil. Recentemente, a organização tem investido com mais força nesta frente, expandindo sua agenda e a estrutura operacional para trabalhar em questões centrais que visam fortalecer e criar um ambiente mais favorável para a sociedade civil no Brasil.

Em 2016, várias rodas de conversa foram realizadas pelo GIFE, reunindo investidores sociais, gestores públicos, pesquisadores e demais interessados em discutir questões centrais sobre iniciativas que possam fortalecer as organizações no país.

Agora, em 2017, o GIFE dá início ao “Projeto Sustentabilidade Econômica das Organizações da Sociedade Civil”, que será realizado em parceria com a Fundação Getúlio Vargas (FGV) e o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), e apoiado pela União Europeia. O projeto vai promover uma série de iniciativas cujo objetivo é o fortalecimento da capacidade institucional da sociedade civil por meio de alterações normativas e regulatórias que ampliem as condições para a sua sustentabilidade política e econômica.

O projeto prevê a atuação em quatro eixos estratégicos: articulação, conhecimento, comunicação e incidência. A ideia é que essas frentes se retroalimentem e que, de forma transversal, possibilitem a ampliação do debate e a sensibilização da sociedade e de seus representantes.

 

Desafios para o campo

A mesa proposta pelo GIFE também trouxe para o debate o ponto de como lidar com o engajamento das associações com seus associados, seja do ponto de vista da articulação e participação, seja na costura de diferentes pontos de vista muitas vezes conflitantes. Os palestrantes reforçaram como é preciso existir um equilíbrio entre os interesses públicos e privados e o que faz diferença é a maneira por meio da qual as organizações caminham nessa “linha fina”.

“No caso do GIFE, escolhemos uma agenda de atuação em advocacy que é consenso na sociedade e que afeta a todos os tipos de instituições, sejam elas pequenas organizações ou grandes fundações. A nossa proposta não é fazer advocacy para uma área especifica, mas sim para melhorar toda a infraestrutura da sociedade civil no país. Isso possibilita a aproximação e o engajamento de muitos parceiros e nos afasta de demandas mais corporativas”, explicou Iara Rolnik.

“Além disso, nossos associados têm importante força e atuação política em diversos campos. Assim, mais do que alinhar o nosso trabalho de advocacy com cada um deles, a ideia é usar essa atuação como ativo para o processo de influência em políticas públicas”, completa a gerente do GIFE.

Em relação aos riscos colocados para as organizações em termos de sua presença mais forte em ações desta natureza estão a perda de membros e a escolha equivocada de agendas, que podem favorecer grupos em detrimento de outros.

Iara mencionou também como possível risco conduzir as ações de advocacy de acordo com os “velhos métodos” de fazer política, como intermediação política via atores poderosos. “Uma forma de evitar esse tipo de conduta é adotar regras claras ou até códigos de conduta que exijam, por exemplo, que as organizações sempre evoquem outros atores no momento de estabelecer o diálogo com agentes do governo. Para conduzir um ‘bom advocacy’ é necessário, sobretudo, aprimorar a capacidade de diálogo e transparência das ações”, diz a gerente de Conhecimento, destacando que, neste novo projeto que começa a ser realizado pelo GIFE, será criada uma Política de Transparência em advocacy.

Por fim, Iara destacou ainda que a estratégia do GIFE em advocacy está muito articulada e embasada em produção de conhecimento e por isso aposta em parcerias com instituições com expertises nesse campo, como a FGV e o IPEA.

Além da ação de advocacy, o GIFE tem outros projetos que estimulam o fortalecimento das organizações, como o Painel GIFE de Transparência e os Indicadores GIFE de Governança, instrumentos importantes de autorreflexão sobre a forma de estruturação e atuação das organizações que discutam o fortalecimento de sua legitimidade.

Durante o fórum, o GIFE pode também se engajar em discussões sobre o fortalecimento da filantropia na América Latina, tendo em vista o interesse de alguns países como o Peru, o Uruguai e o Chile em criar organizações similares ao GIFE, ainda em fase embrionária. “Acreditamos que podemos ter um papel importante também nesta frente, tendo em vista a nossa experiência nestes 20 anos de existência”, pontuou Iara.

“Para nós, o que ficou mais evidente diante de todas as discussões do fórum, e também com o relatório lançado pela Wings, é que a escolha do GIFE em fortalecer sua atuação em advocacy e construir sua legitimidade neste aspecto está cada vez mais alinhada às principais demandas do setor ao redor do mundo”, analisa.

 

Novidades

Ao final do fórum, foi anunciado que o próximo evento, em 2020, será realizado na cidade de Nairóbi, capital do Quênia, com a organização da African Philanthropy Network (APN).

Confira outras reflexões sobre o evento aqui.

Apoio institucional